Wednesday, January 17, 2018

Mensagem ao Povo Iraniano

 


Não é fácil habitar no Irão. Desde há décadas este país é o local de variados episódios que testaram as fibras da nação e a capacidade de resistência do seu povo. Dos anos trinta até aos anos 70, o País foi joguete nas mãos tanto dos colonizadores britânicos como dos americanos, que viam no território do antigo Império Persa mero local de exploração económica e mais um peão no xadrez geopolítico contra as forças soviéticas, provocando crises, depondo governantes e explorando a belo prazer os recursos naturais, produtivos e culturais do mesmo.

Os anos 70 assistiram a permanentes convulsões políticas e sociais causadas pela corrupção do regime do Xá, cuja má-fé e flagrante servilismo aos grandes poderes mundiais ameaçaram corroer por dentro as fundações e a identidade do País.

Após a Revolução Islâmica e a inequívoca refundação do novo regime na sua vocação religiosa, que no Islão encontrava as bases da manutenção do contacto com o divino, contra todo o tipo de neocolonialismos, sejam soviéticos ou ocidentais, o Irão foi presa das ambições territoriais de potências limítrofes, apoiadas pelos tenebrosos Poderes que ainda hoje estão mandatados a redesenhar o mapa do Médio Oriente a favor do Grande Israel. Uma guerra de agressão infame e de vergonhosa agressão seguiu-se, com a nação desta vez a ter de testemunhar, isolada de qualquer apoio internacional de monta, uma luta armada nas próprias fronteiras e bombardeamentos aéreos às suas principais cidades. Como se não bastassem as dezenas de milhares de vítimas inocentes e indefesas de tais agressões cobardes, o povo teve de recorrer ao sangue martirizado da fina flor da sua juventude e da elite combatente e civil, que por dever patriótico e divino rumou de livre vontade até às zonas de massacre com sorriso nos lábios e cara levantada, pois a sua missão era infinitamente mais elevada do que poderiam conceber as estreitas mentalidades inimigas, que ainda hoje apenas visionam a ação terrestre se direcionada para poder, riqueza e alargamento de território.

Com o desagregar do Império Soviético, os tempos mais recentes significaram para a Nação Iraniana o aumento da pressão Ocidental sobre o único regime com poder e força capazes de contrabalançar as ambições políticas e religiosas dos E.U.A. e do Sionismo. As sanções políticas e económicas que tentam sufocar a médio prazo as instituições e a resiliência das gentes iranianas são mantidas com o intuito de não permitirem uma vida condigna a uma nação cujo único crime foi o de querer perseguir o seu destino, na Terra e no Céu. O isolamento internacional a que o País foi votado, o apoio a elementos sediciosos dentro e fora do seu território, a incitação à fragmentação regional, racial e religiosa do mesmo, a militarização e a ocupação dos seus vizinhos por governos antagonistas, as infames campanhas de ostracismo internacional dedicadas à diabolização do regime e do seu povo, são tudo fatores que testam diariamente os iranianos de todas as estações e condições de vida no intuito de continuarem a perseguir o seu destino de cabeça erguida, em oposição a todos aqueles que lhes pretendem lançar as sementes da dúvida e da sedição.

E é este mesmo povo que, quando não descrito pelos traços embotados da caricatura ocidental, aparece ao observador imparcial como sábio e digno, de postura vertical, orgulhoso da sua história ancestral e recente e que diariamente recorda os mártires que lhes abriram as vias que hoje cimentam o país. Religiosos mas não pios, todos homens e mulheres de família e de valores, inequivocamente orgulhosos e crentes, que recebem de braços abertos os visitantes e que com indisfarçável orgulho mostram os monumentos da sua história, os seus locais de culto e o que o Irão tem de melhor, seja em termos de arquitetura, cultura, ciência, gastronomia, etc. E é este mesmo povo, quando fora do país, que demonstra uma habilidade inata para ocupar cargos cimeiros nas áreas da medicina, cultura e ciência nos países hóspedes e onde sempre constitui esteios de hombridade e de convivência que servem de modelo aos nativos e a outras comunidades estrangeiras. E mesmo depois das tribulações diárias, dos problemas que os afligem a si e aos seus, abrem o seu melhor sorriso e convidam o próximo a sua casa e partilham o que têm, mostrando-se genuinamente preocupados pelo destino do mundo e especialmente com o dos homens, de qualquer credo ou condição, pois um povo com uma visão do mundo profundamente religiosa, como o é o iraniano, não poderia atuar de outro modo.

Com a profunda amizade e dívida de gratidão que nutro para com as gentes iranianas, parece-me meu dever alertá-las para certas angústias que determinadas seções populacionais do país parecem nutrir e que alguns julgam poderem ser satisfeitas se o Irão redirecionar o seu foco numa ‘ocidentalização’ da sua sociedade, pois insistem que cabe ‘abrir’ o país progressivamente às mesma vias seguidas deste lado do globo.

Primeiro que tudo, cabe mencionar que compreendemos e simpatizamos com todos os iranianos que desejam melhorar as respetivas condições económicas e as das suas famílias, que desejam o fim da corrupção governamental existente ou o fim ao esbanjamento dos bens do erário público. Tais demandas são mais que legítimas e mostram que o governo iraniano terá que lhes dar resposta, seja por uma maior transparência na gestão das contas públicas ou seja, seguindo o exemplo de Ayatollah Khomeini, dando luta sem quartel aos que, alcandorados a posições de poder, abusam da confiança neles depositada esquecendo que possuem uma obrigação sagrada de honestidade para com todos os iranianos. Mesmo descontando a paranoia dos que, levados pela propaganda ocidental, afirmam que a sociedade iraniana não têm voz – e a prova contrária foi dada pelas manifestações de rua verificadas e pelos debates acesos levados a cabo pelos deputados da oposição no próprio parlamento nacional – o governo iraniano terá de fazer do combate à má-gestão dos fundos públicos e à corrupção governativa uma das prioridades mais sérias da sua ação política para restaurar a confiança abalada.

Tendo nós como tubo de ensaio o caso do continente europeu nos últimos duzentos anos, parece-nos que sendo alguns destes sentimentos legítimos, quando não corretamente direcionados e integrados num contexto superior de qual é a estrutura de sociedade que se deseja, conduzirão o Irão no mesmo caminho que o Ocidente trilha, e onde definha, nos dias que correm.

Se o desejo de melhorias económicas passa por instituir o comércio e o lucro como os valores mais elevados pelos quais os homens estabelecem relações entre si, sem a integração apropriada da religião e de uma conceção espiritual do ser humano e da sociedade, não será exagerado prever, especialmente no advento da globalização, que o Irão se tornará em poucas décadas - no máximo - outro local do mundo em que o protótipo do homem-negociante tomará as rédeas da sociedade, seja ascendendo às posições de liderança da política, economia, educação e cultura, seja comprando os nominativos líderes ou o seu próprio acesso ao poder. Não será de estranhar ver estabelecido dentro das suas fronteiras um sistema de exploração económica em que os destinos das massas humanas passarão a estar dependentes dos caprichos de uns poucos seres que apenas têm na ambição e na ganância os seus guias de conduta de vida. Os próprios políticos serão homens do mesmo cariz, e apesar de publicamente afirmarem estarem ao serviço do povo e de Deus, com poderosas palavras e discursos, em privado servirão os seus verdadeiros guias – o metal e a ambição. Não será de estranhar se os detentores do capital passarem a não ter pejo algum em expandir os lucros a qualquer custo, mesmo que tal implique a deslocalização do trabalho para outras regiões ou países, com pretextos prontamente justificados pela nova classe educadora e cultural, que afirmará que os mais recentes abstracionismos teóricos economicistas conduzirão por certo a sociedade a êxtases coletivos ainda por vir e que os avisos de antanho - como os dos profetas que alertaram que qualquer teoria ou doutrina sem Deus tão-só esconde as ambições mais negras dos homens caídos - já não mais se aplicam e devem ser evitadas. Não será de estranhar que os salários e as poupanças destinados a alimentar as vossas crianças passem a estar prisioneiros das especulações financeiras de grandes grupos internacionais, que no Irão verão não um povo único, dotado de personalidade divina, mas um mero pedaço de terra onde se agrupam corpos humanos que para eles não possuem mais dignidade que um mero centro de despesas e de lucros, uma estatística ou um erro de cálculo, ínfima roda dentada na superestrutura financeira mundial cujo centro é Nova Iorque e que esconde a sua real face tenebrosa por detrás de sociedades anónimas e offshore. E se estes afirmam quererem ver os iranianos vestidos, alimentados e entretidos, tal não se funda na preocupação pelo verdadeiro bem-estar material, moral e espiritual da comunidade, mas apenas para poderem continuar a explorar os seus recursos e as suas gentes. Não será de estranhar que a ambição, a inveja e a cobiça entre irmãos e vizinhos, hoje ainda envergonhadas, comecem a assomar cada vez mais descaradamente, até um dia se afirmarem em toda a sua prepotência entre os vossos filhos e a enfeitar despudoradamente as ações e as feições da maioria de vós, que não mais saberão que por elas estão dominados e são controlados. Não será de estranhar se as vossas cidades, hoje ainda adornadas por vestígios tradicionais e por lembranças do eterno, forem tomadas de assalto por montanhas de aço e ferro, onde massas humanas se amontoarão tanto a trabalhar como a habitar, onde o convívio entre vizinhos já não é ditado pelo afeto e pela cortesia mas pela frieza e desconfiança, onde nos picos do horizonte já não se distinguem torres de mesquitas ou minaretes, pois estas foram submersas pelas antenas e pelos novos monumentos de betão e aço que representam a adoração ao novo senhor do mundo.

Muitos me objetarão que o que se encontra por detrás das atuais reivindicações é um desejo superior ao económico, pois o que os iranianos pretendem é mais liberdade e meios de expressar a sua individualidade sem as restrições e imposições religiosas. Pois permitam que, com a experiência de viver num país e num continente que erigiu tais desideratos a estandartes máximos de governação e de mundividência, avisar que tais intenções, enquanto na primeira geração ainda tomam um caráter tímido, não encontrarão nas seguintes os mesmos freios que a atual dá por adquiridos, porque já não os viverão ou, pior, nem conhecerão. Não se pode esquecer que a liberdade que é usada num contexto sóbrio e tradicional, por seres que reconhecem um Criador e que têm consciência da sua dívida de gratidão para com os antepassados e os que hão-de vir, não será do mesmo tipo que a praticada por seres que deixam de ver nela um meio mas um fim, que desconhecem que ela deve ser uma consequência e nunca um dado de facto. Os que virão já não mais saberão que o homem verdadeiramente livre é o que se cumpre interiormente e que se rege pelos mais estritos códigos, sejam estes externos e internos. Eles só conhecerão a liberdade exterior e mais superficial, a liberdade mesquinha, que é a liberdade que por todos pode ser usada da mesma forma, a liberdade das massas informes, que serve para justificar as ações e as ambições individuais e coletivas do momento. Esta não é a liberdade como realização, mas a liberdade que se torna valor em si e aprisiona o homem em correntes invisíveis e, portanto, ainda mais difíceis de romper que as de um tirano. É a liberdade de dizer e de fazer o que se julga apetecer no momento sem referência a algo superior, é a liberdade da ação vazia e perdida, dos que tomam todas as suas ações, pensamentos e reações como legítimos e dignos de serem escutados e respeitados pela mesma bitola que as do homem sábio ou do religioso. É esta liberdade que dá o megafone há muito ambicionado pela rebeldia interior do homem e que o justifica no que este tem de mais medíocre e vil.

Por experiência própria sabemos que a longo prazo a liberdade, quando não coartada e limitada por valores de ordem superior, degenera no caos individual e social, num anarquismo mais próximo de uma colónia de bichos do que de um agrupamento de seres soberanos e conscientes da sua missão na Terra. Será esta a liberdade dos que docilmente aceitam como chefe qualquer tirano que proporcione livre curso ao prazer dos instintos, mas que violentamente se rebelam contra um soberano divino. A liberdade será a desculpa para dar vasão aos humores e desejos mais inconfessáveis e rasteiros dos homens e das mulheres, seja na sua relação consigo seja na sua relação com o próximo. E quando tais instintos já não encontram no Estado um inimigo declarado que relembra aos seus cidadãos a missão de a eles dar combate, tal combate encontrar-se-á limitado ao seio familiar ou de restritos grupos humanos, apenas serão seguidos por alguns seres, que a médio prazo se tornarão numa exceção e serão olhados de lado por uma sociedade que os despreza. O cúmulo da perversidade é que esta liberdade vai-se apresentar sob vestes de imparcialidade - laica, independente – afirmando não querer impor aos seus novos súbditos qualquer ‘moralidade’ e sob esse pretexto combaterá sem quartel os que cumprem o seu dever de afirmar valores absolutos.

Tal resultará na imposição de uma nova ordem onde impera apenas uma ‘moralidade’: a própria de seres amorfos e vazios, desconhecedores da respetiva natureza divina, pois é por esta classe de homens caídos que mais facilmente é imposta a nova ética global diabólica que rapidamente se expande pelos quatro cantos do mundo, e da qual o Irão ainda se encontra imune, em muitos aspetos. Esta verdadeira colonização será realizada sob roupagens de slogans apelativos para as massas, onde palavras encantadas, quais cantos de sereia, hipnotizarão os indivíduos. Mas não nos enganemos! Este é um novo regime de ocupação, e com objetivos muitos mais pérfidos que qualquer exército inimigo, pois não pretende apenas a espoliação material dos iranianos, mas algo muito mais nefasto e irreversível - a espoliação espiritual. Este ‘exército’ é o mesmo que nesta altura já subjugou vastos territórios humanos e que se insinua não pela via militar, mas pela subjugação mental do homem por via de conceitos abstratos que o colocam em guerra contra si mesmo; é um poder sempre estrangeiro onde quer que se estabeleça, pois despreza tudo o que é viril, elevado e se direciona para cima, pois só assim pode estabelecer as bases de dominação do seu espírito congénito.

Cremos que o Irão se encontra numa altura crítica para a sua história. Acreditamos que as tensões que se estabeleceram dentro do país – principalmente nos seus habitantes, mais do que as causadas pelos inimigos exteriores declarados – darão azo a breve trecho a consequências que não podem ser senão as mais distintas. Se a tensão se resolver pela quebra da vontade coletiva de continuar a contrariar e a dar combate aos elementos egoístas e subversivos individuais e coletivos da nação, de deixar de lutar e de passar sacrifícios em defesa do atual Regime Teocrático Iraniano – objetiva e realisticamente, a única alternativa séria no território à contenção da subversão – de deixar de fazer do contacto com o divino a razão de ser do Governo e a base da estruturação da sociedade e das condutas individuais, por mais ou menos ténues que tais sejam hoje em dia, mais brevemente do que muitos esperam virá o dia em que as forças diabólicas que ainda não tomaram totalmente de assalto este país não mais encontrarão um muro de defesa para aí exercerem total controlo sobre as mentes e as vontades dos seus cidadãos.

Por experiência própria falamos das desgraças que facilmente – e no fundo, muito provavelmente – se abaterão sobre este país. Pelas nossas próprias fraquezas e pelas dos nossos antepassados, a maioria mascaradas de boas-intenções – mas que no fundo nunca deixaram de ser fraquezas! - convidámos a sentar à nossa mesa inimigos mais ou menos dissimulados, pensando sempre que os dominaríamos, que os conseguiríamos conter, que não se demorariam e que não nos afetariam irremediavelmente; que saberíamos utilizar para nosso proveito e para a melhoria das nossas condições de via. A prova é que o inimigo mais pernicioso não é o que abertamente declara guerra e faz cara de mau, mas precisamente o do tipo mais calculista, que se faz de bem-vindo e promete não abusar – é o inimigo que sorri!

Que o povo iraniano saiba que tem sobre ele os olhares de uns poucos no mundo ocidental que o admiram verdadeiramente, que por ele nutrem um grande respeito e veneração e, admitimos sem pudor, mesmo inveja. Dada o presente clima de crise que paira sobre o Irão, não podemos como não nos reconhecer nos iranianos e aliarmo-nos ao seu atual modo de governo, vendo nele algo nobre e uma das poucas luzes de esperança que brilham num mundo cada vez mais mergulhado no abismo, e que se hoje é considerado radical e negativo, tal só o é por defeito do mundo e do tipo de homem hoje predominante, e nunca do Irão. Que os iranianos não se deixem enganar pela grande maioria dos que hoje, afirmando-se seus aliados, no fundo apenas nutrem desprezo e nojo pela vossa vocação coletiva. Nos tempos que correm, há que escolher os lados. Hoje e sempre, orgulhosamente nos afirmamos do lado do Povo Iraniano e do Ayatollah Khamenei.

Monday, January 15, 2018

A Mente Simbolista

 

Muito prazer nos deu ter a oportunidade de voltar a traduzir do inglês um texto do Mestre da Tradição Frithjof Schuon, intitulado ’A Mente Simbolista’, o qual foi originalmente publicado em francês na edição de Junho da revista ‘Études Traditionnelles’, em 1957.

Sendo um pequeno artigo – recomendamos aos leitores demorarem-se também nas chamadas de página, que contém precisões iluminadoras – toca em alguns aspetos da mundivisão espiritual antiga, da qual apenas possuímos vestígios no Mundo Ocidental, já que a sua vivência – e respetiva compreensão – há muito que desapareceu, pelo menos nas vias exotéricas.

Parece-nos iluminador que o autor, no último parágrafo, sugira que a atual separação do Cosmos entre o Sagrado e o Profano, o Céu e a Terra, a Carne e o Espírito, que impera na mente do Homem atual – e que é sem surpresa refletida no entendimento mais formalista, racionalista e legalista das religiosidades surgidas durante o Kali-Yuga – poder ser ultrapassado por via de um vivência e compreensão mais subtil da Natureza, e inclusive por uma interpretação mais hábil dos textos sagrados bíblicos e corânicos acerca da relação do Homem com a mesma. Mesmo que tal não seja um guia viável para a sociedade como um todo, poderá constituir um raio de luz para aquele que se julga diferenciado.


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‘Quando o homem inferior ouve falar do Tao, dele ri-se; não seria o Tao se dele não se risse.’
(Lao Tzu)


De acordo com um erro muito prevalente – um que, inclusive, se torna mais ou menos ‘oficial’ na senda do evolucionismo – todos os símbolos tradicionais eram originalmente entendidos num sentido estritamente literal, e o simbolismo propriamente dito apenas se desenvolveu como resultado de um ‘despertar intelectual’ posterior ou de um ‘refinamento progressivo’ da mente. Esta é uma opinião que inverte completamente as normais relações das coisas, como o fazem todas as hipóteses análogas emergentes de um contexto evolucionista. Na verdade, o que mais tarde surge como um significado supra-adicionado já se encontrava presente implicitamente, pelo que a ‘intelectualização’ dos símbolos é o resultado, não de um progresso intelectual, mas pelo contrário de uma perda, pela maioria, da inteligência primordial; é então à conta de um entendimento crescentemente defeituoso dos símbolos e em ordem a repelir o perigo da ‘idolatria’, e não de modo algum para escapar de uma idolatria supostamente preexistente, mas de facto inexistente, que a tradição se viu obrigada – em determinado ‘momento cíclico’ e, para o bem da forma, derivando inspiração, se necessário, de doutrinas estrangeiras – a explicar verbalmente símbolos que na origem – na ‘Idade Divina’ – se encontravam em si mesmos perfeitamente aptos a transmitir verdades metafísicas.

Este erro de acreditar que na origem tudo era ‘material’ ou ‘grosseiro’ – incorretamente cunhado de ‘concreto’ – levou inclusivamente alguns a negar a todo o custo que povos ‘primitivos’, particularmente os índios norte americanos, tenham a ideia de um Deus Supremo, e frequentemente têm procurado fazê-lo com recurso a argumentos que provam exatamente o contrário; o que incompreensões deste género revelam mais que nada – apesar de tal ser evidente em si mesmo – é que a ‘especialização’ científica isolada – o conhecimento de formas cranianas, línguas, ritos de puberdade, métodos culinários e por aí adiante – não resulta na qualificação intelectual que possibilita poder penetrar ideias e símbolos. Um exemplo entre muitos outros: porque as ideias dos índios norte-americanos não são compreendidas – na ausência das chaves indispensáveis, que são uma parte da ciência, no mínimo – estas ideias são consideradas ‘vagas’; ou é dito que o ‘Mistério’ do índio não é um ‘Espírito’ – ‘o qual o homem primitivo é incapaz de conceber, exceto graças ao conceito e à pesquisa do homem branco’1 – sem nos dizerem nem o que é significado por ‘Espírito’, ou porque o ‘Mistério’ em questão não o é. Que possível importância pode o ‘conceito do homem branco’ ter para o índio, e como podem os etnólogos saber o que o índio pensa para além da ‘investigação do homem branco’? As ideias índias são criticadas pelo seu caráter ‘proteano’, que é considerado incompatível com a ‘mais diferenciada linguagem da civilização.’2 Como se a terminologia – ou o jargão especializado – do homem branco fosse um critério de verdade ou de valor intelectual, e como se, para o índio, o que estivesse em causa fossem meras palavras, e não verdades ou experiências!3

A ideia de que, graças a um ‘despertar intelectual’ devido à ‘evolução’, os homens finalmente compreenderam a ‘vulgaridade’ da sua tradição e que em ordem a tal remediar, eles ingenuamente inventaram explicações que tendem, arbitrariamente, a emprestar às imagens uma significação superior – tal ideia corre não apenas contra a verdade intrínseca do simbolismo em causa, mas também ao que é psicologicamente possível: pois se a elite intelectual, ou a sensibilidade coletiva, finalmente se apercebeu da ‘vulgaridade’ – e portanto da falsidade4 – dos mitos, a reação normal teria sido a de substitui-los por algo melhor ou mais ‘refinado’, mas tal explicação nunca teve lugar em parte alguma. A manutenção da tradição apenas pode ser explicada pelo seu próprio valor imutável, isto é dizer, pelo elemento de ‘incondicionalismo’ que por definição a abrange e que a torna inalterável na sua forma essencial; acreditar que os homens estivessem dispostos a manter a sua tradição por outras razões é um dos erros mais absurdos e até mais impertinentes, porque é de facto subestimar a espécie humana. Nem aceitamos a hipótese do pensamento ‘pré-lógico’5 porque aqui de novo é uma questão de pensamento simbolista, o qual, sem nunca ser ilógico, é antes supra-lógico pois transcende os limites da razão, e portanto os das construções mentais, das dúvidas, das conclusões, das hipóteses.6

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Seria tremendamente erróneo acreditar que a mente simbolista consiste em selecionar do mundo exterior imagens para nas quais sobrepor significados mais ou menos forçados; isto seria um passatempo incompatível com a sabedoria; pelo contrário, a visão simbolista do cosmos é uma perspetiva espontânea a priori que se baseia na natureza essencial – ou na transparência metafísica – dos fenómenos, em vez de desligá-los dos seus protótipos. O homem de formação racionalista, cuja mente como tal se encontra ancorada no material, parte da experiência e vê as coisas no seu isolamento existencial: a água é para ele – quando a considera isolada da poesia – uma substância composta por oxigénio e hidrogénio, à qual uma significação alegórica pode ser atribuída se assim o desejar, mas sem existir uma conexão ontológica necessária entre a coisa material e a ideia com ela associada; a mente simbolista, pelo contrário, é intuitiva num sentido superior, tendo o raciocínio e a experiência para ela apenas a função de uma causa ocasional e não a de uma fundação. A mente simbolista vê as aparências na sua ligação com as essências: no seu modo de visão, a água é primariamente a aparência sensível de uma realidade-princípio, uma kami (japonês) ou uma manitu (algonquino) ou uma wakan (sioux);7 isto significa que vê as coisas, não apenas ‘superficialmente’, mas acima de tudo ‘em profundidade’, ou que as apercebe na sua dimensão ‘participativa’ ou ‘unitiva’, bem como na sua dimensão ‘separativa’. Quando um qualquer etnologista declara que ‘não existe manitu fora do mundo das aparências’, tal apenas significa que ele desconhece que para a mente simbolista as aparências não existem inteiramente por si mesmas; ele portanto desconhece o essencial e perde o seu tempo a preocupar-se com símbolos. Ademais, este falso ‘concretismo’ – ou esta tendência de reduzir o simbolismo, não importa o quão improvável, a um tipo de sensualismo bruto e ininteligível, na verdade uma espécie de existencialismo avant la lettre – longe de se tornar próximo da Natureza ou das origens, é de facto uma reação típica do homem ‘civilizado’ – no sentido banal e absurdo do termo; é a reação de um cérebro supersaturado de construções artificiais e de sofismos.8

E tal é importante: por um lado, não afirmamos que o simbolista pensa ‘princípio’ ou ‘ideia’ quando ele vê água, fogo ou algum outro fenómeno da Natureza; é simplesmente um nosso modo de fazer o leitor entender o que o simbolista ‘vê’, na medida em que ‘ver’ e ‘pensar’ são para ele sinónimos;9 por outro lado, não mantemos que todo o indivíduo pertencente a uma coletividade de mentalidade simbolista ou contemplativa se encontra totalmente consciente de tudo o que os símbolos significam, de outro modo o simbolismo espontâneo não constituiria a prerrogativa de períodos que podem ser qualificados de ‘primordiais’, e comentários posteriores não teriam razão de ser; a existência destes comentários prova precisamente um certo enfraquecimento por comparação com a ‘Idade de Ouro’, razão da necessidade de uma doutrina mais explícita capaz de eliminar todo o tipo de erros latentes. Pois a mentalidade simbolista, como tudo o que possui caráter coletivo, não se encontra imune a decadência: na consciência de uma dado indivíduo ou grupo pode degenerar numa espécie de ‘idolatria10”; mas então cessa de ser simbolista e torna-se outra coisa. A censura feita aos índios norte-americanos e aos xintoístas de possuírem uma atitude idólatra e zoolátrica significa no essencial em atribuir-lhes uma mentalidade anti-simbolista, o que é contrário à realidade dos factos; para o índio, o bisonte é uma ‘divindade’ – ou uma ‘função divina’ – mas o próprio facto de caçar prova que claramente distingue entre a entidade ‘real e a forma ‘acidental’ ou ‘ilusória’.11 Mesmo supondo que no caso de um específico simbolista existe um elemento de ‘panteísmo’, o seu erro não seria maior que o do ‘monoteísta’ para o qual as coisas não são mais que elas próprias, e para o qual o simbolismo é meramente uma alegoria posteriormente acrescentada; a verdadeira questão é a de saber qual dos dois erros é o mais oportuno ou o menos nocivo para uma dada mentalidade; consequentemente podemos até ir ao ponto de afirmar que uma atitude idólatra da parte de um hindu ou de um extremo-oriental não terá o mesmo significado psicológico como se viesse da parte de uma semita ou de um europeu.

O homem primordial vê o ‘maior’ no ‘menor’: o mundo da Natureza, na verdade, reflete o Céu, e transmite, numa linguagem existencial, uma mensagem divina que é ao mesmo tempo múltipla e única. O resultado moral desta perspetiva do cosmos ‘translúcido’ é uma atitude respeitadora e até devocional para com a Natureza virgem, este santuário – a chave do qual foi perdida pelo Ocidente desde o desaparecimento das mitologias - que fortifica e inspira aquelas suas crianças que retiveram o sentido dos seus mistérios, como a Terra o fez com Antheia. O Cristianismo, tendo tido que reagir contra um espírito verdadeiramente ‘pagão’, no sentido Bíblico de ‘idólatra’, provocou que ao mesmo tempo desaparecessem – como sempre acontece em tais casos – valores que não mereciam a censura de ‘paganismo’; tendo que opor um ‘naturalismo’ filosófico e ‘nivelado’ entre os mediterrânicos, erradicou ao mesmo tempo, acima de tudo nos nórdicos, um ‘naturismo’ de caráter espiritual.12 A tecnologia moderna é o resultado – bastante indireto, sem dúvida – de uma perspetiva que, tendo banido da Natureza os deuses e os génios, e tendo-a tornado, também por este próprio facto, profana,13 acabou por permitir que ela fosse ‘profanada’ no sentido mais brutal da palavra. O ocidental prometaico – mas não todo o ocidental – encontra-se afetado por uma espécie de desdém inato pela Natureza: para ele a Natureza é uma propriedade para ser gozada e explorada,14 ou até um inimigo a ser conquistado; não é uma ‘propriedade dos Deuses’ como no Bali, mas uma ‘matéria-prima’ destinada a exploração industrial ou sentimental, de acordo com os gostos e as circunstâncias.15 Este destronamento da Natureza, ou esta cisão entre o homem e a terra – uma reflexão da cisão entre o homem e o Céu – deu tão amargos frutos que não deveria ser difícil admitir que, nestes dias, a mensagem intemporal da Natureza constitui uma viático espiritual de primeira ordem. Alguns podem objetar que o Ocidente sempre teve – especialmente nos séculos 18 e 19 - o seu retorno à Natureza virgem, mas tal não é o que queremos significar, já que não temos uso para um ‘naturismo’ romântico ou ‘deísta’, ou mesmo ateístico.16 Não é uma questão de projetar um individualismo supersaturado e desiludido na direção da Natureza profanada – isto seria um mundanismo como outro qualquer – mas, pelo contrário, de redescobrir na Natureza, com a base da perspetiva tradicional, a substância divina que lhe é inerente; por outras palavras, ‘ver Deus em toda a parte’, e nada ver exceto a Sua presença misteriosa.


1  W. J. McGee, em The Siouan Indians, Washington D.C., Smithsonian Institute Bureau of Ethnology, 15th Annual Report, 1897.

2  Ibid.

3  Um autor não aporta qualquer importância a declarações índias, feitas no início do século 19, confirmando a existência imemorial da ideia de um Espírito Supremo, e para provar que esta ideia é apenas uma abstração importada pelo homem branco, ele cita o seguinte facto, que data de uma altura (1701) em que os mesmos índios ainda não tinham sofrido influência branca: ‘No decurso da conversa (William) Penn pediu a um dos intérpretes Lenape (Delaware) que lhe explicasse a noção que os nativos possuíam de Deus. O índio estava embaraçado e em vão procurou por palavras. Finalmente desenhou uma série de círculos concêntricos no chão, e, indicando o seu centro, disse que este era o local onde o Grande Homem se encontrava simbolicamente situado.’ (Werner Muller, Die Religionen der Waldindianer Nordamerikas, Berlin, D. Reimer, 1956, o capítulo intitulado: “Der Grosse Geist und die Kardinalpunkte.”) Não se poderia fornecer prova mais clara de incompreensão que o argumento baseado neste incidente, nomeadamente que para os delawares Deus era um desenho, portanto algo ‘concreto’ e não uma ‘abstração’! Na mesma veia: ‘O espírito é algo sem espaço e sem lugar; para traduzir manitu por este termo é ainda mais impróprio pelo facto das mais recentes fontes conhecem o lugar de manitu como sendo o zénite ou o céu. Que o cree deva buscar manitu ‘algures em cima’, ou que os menomini localizem o seu mach hawatuk na quarta atmosfera, ou que os fox localizem o seu kechi manetoa na Via Láctea – tudo isto apenas significa uma coisa, designadamente, que o supremo manitu possui o mesmo caráter sensível que os manitus de menor importância’ (ibid.). O ponto mais essencial é inteiramente esquecido, nomeadamente, porque é que o supremo manitu se encontra situado no céu e não num tacho de cozinha! Onde existe um grau de ignorância a tal grau, tanto em relação ao simbolismo como à mente simbolista, seria obviamente melhor não se preocupar de todo com o simbolismo.

4  Pois se eles não fossem falsos, porquê censurá-los pela sua ‘grosseria’?

5  Do mesmo modo termos como ‘prepolidemonismo’, ‘polidemonismo’, ‘antropolatria’, ‘teatropismo’, etc. etc., indicam classificações que são tão superficiais como são conjeturais. Levy-Bruhl, que considera que ‘a mentalidade primitiva, como é bem sabido, é acima de tudo concreta e de modo algum conceptual’ e que ‘nada lhe é mais estranho que a ideia de um Deus único e universal’, atribui a esta visão ‘pré-lógica’ a ideia de que ‘cada planta… tem o seu criador próprio’. Agora o Islão, que certamente não é ‘pré-lógico’, ensina que cada gota de chuva é depositada por um anjo; a ideia do ‘anjo da guarda’, incidentalmente, não está desligada da perspetiva – inteiramente ‘lógica’ – que aqui se encontra em questão. Não sabemos se para a escola de Levy-Bruhl os pigmeus são ‘primitivos’, mas em todos os eventos a existência, pela sua parte, da ideia do Deus Supremo não é posta em dúvida (cf. R. P. Trilles, L’Ame du Pygmee d’Afrique, Paris, Editions du Cerf, 1945).

6  É valioso apontar o abuso da palavra ‘magia’. Autores que a qualquer oportunidade falam da ‘imagem mágica do mundo’ (magisches Weltbild) são obviamente de todo ignorantes do que ela trata, ou antes apenas possuem uma vaga noção das analogias cósmicas que a magia desencadeia.

7  No que concerne estas expressões índias, tão desnecessariamente objetos de controvérsia, não vemos razão para não as traduzir como ‘espírito’, ‘mistério’ ou ‘sagrado’, dependendo do caso. É obviamente irrazoável supor que estas expressões não possuem significado, que os índios falam em ordem a nada dizerem, ou que eles adotam modos de expressão sem saberem porquê. Que não existe equivalência completa entre uma língua e outra – ou entre um pensamento e outro – é uma questão inteiramente diferente.

8  Esta é a razão – seja dito de passagem – de desconfiarmos de considerações condescendentes de uma ‘puridade primitiva’ ou de uma ‘concretude’ que desdenha ‘especulações’, daí todas estas reversões anti escolásticas à ‘simplicidade dos Pais’; pois em tais casos é frequentemente uma questão de mera incapacidade, a qual, em vez de admitir o que é, se prefere esconder por detrás da ilusão de uma atitude superior.

9  O oposto apenas é verdade num sentido superior, que não mais possui qualquer ligação com  a ordem sensível. Para o metafísico, pensar é ‘ver’ princípios ou ‘ideias’.

10  Do mesmo modo, uma doutrina metafísica pode perder as suas características ao degenerar-se, através de sucessivos graus de incompreensão até ao nível de um sistema puramente lógico – e portanto fragmentário e estéril. A idolatria no sentido estrito do termo é talvez um fenómeno primariamente semítico; com os antigos árabes não tinha inclusive a desculpa de derivar de um simbolismo, pois os seus ídolos possuíam frequentemente origens puramente humanas e empíricas.

11  Similarmente, de acordo com o testemunho de um sioux no final do século 19: ‘O Homem Vermelho dividiu a mente em duas partes: a mente espiritual e a mente física. A primeira é espírito puro, apenas preocupada com a essência das coisas, e foi isto que ele procurava fortalecer através da oração espiritual, durante a qual o corpo é submetido pelos jejuns e provações. Neste tipo de oração não existiam súplicas de favor ou de ajuda. Todos os assuntos de natureza pessoal ou egoísta, como o sucesso na caça e na guerra, alívio de doença, ou a poupança de um ente amado, eram definitivamente relegados para o plano da mente mais baixa ou material, e todas as cerimónias, encantamentos e feitiços desenhados para assegurar um benefício ou evitar um perigo, eram reconhecidos como emanando do ser físico’. Ver Charles A. Eastman (Ohiyesa), The Soul of the Indian, Lincoln, University of Nebraska Press, 1980. [A Alma do Índio, Planeta Vivo, 2005].

12  Um eco disto encontra-se no Poverello de Assisi.

13  Deve ser dito que os gregos do período clássico, com o seu empirismo científico, foram os primeiros a destituir a Natureza da sua majestade, sem, contudo, a destronarem na consciência popular. Existiam Dodona e outros santuários a céu aberto, mas não deve ser esquecido que o templo antigo é oposto à Natureza virgem como a ordem se opõem ao caos, ou a razão ao sonho. Obviamente que isto é igualmente verdade, em determinada medida e pela natureza das coisas, de toda a arte humana, mas a mente greco-romana é peculiar em ser muito mais atraída para a ideia de ‘perfeição’ que à de ‘infinito’; ‘perfeição’ ou ‘ordem’ tornam-se no próprio conteúdo da sua arte, ao pondo de excluírem toda a recordação das Essências. – Sem dúvida esta verdade parcial deveria ser complementada por outra, nesta altura positiva em caráter: um amigo uma vez afirmou, corretamente, que o Deus dos gregos, que é um ‘geómetra’, não ‘criou’, mas ‘media’ o mundo, como a luz ‘mede’ o espaço. Portanto o templo grego, com a sua claridade, as suas linhas retas, os seus ritmos precisos, incarna ou antes ‘cristaliza’ a luz, e a este respeito opõe-se, não à Natureza como tal, mas à terra, daí também à matéria, peso e opacidade; por outras palavras, não apenas constitui uma sistematização abstrata e limitativa, mas também uma revelação do Intelecto e uma totalidade. A mesma afirmação também poderia ser feita acerca do Taj Mahal e outros edifícios islâmicos do tipo, mas com esta diferença, de que nos últimos casos a luminosidade é concebida de um modo menos ‘matemático’, e de um modo que é muito mais próximo da ideia do infinito.

14  Para a teologia cristã, o único propósito da Natureza parece ser o de servir o homem terrestre – poder-se-ia perguntar de que lhe serve um qualquer paquiderme dos trópicos ou um monstro marinho – tanto que o Jerusalém Celestial, onde o homem não mais encontra necessidades físicas, não contém animais nem plantas; contrariamente ao simbolismo muçulmano, é um paraíso de cristal. Os jannāt do Islão, é verdade, são ‘feitos de pérola, rubi e esmeralda’, mas eles no entanto são jardins que contêm árvores, frutos, flores e pássaros. Não é nossa intenção aqui criticar qualquer simbolismo – tal é claro – mas apenas certas especulações que de tal são derivadas; então, tem sido mantido que a alma do animal apenas existe através da matéria, da qual não é mais que a reflexão interior; mas isto deixa sem explicação, primeiramente, as diferenças de forma – qualitativas e psicológicas – entre os animais, e mesmo os traços afetivos, e mesmo contemplativos, que eles manifestam. Quando a Bíblia afirma que o homem deve reinar sobre os animas, parece-nos que isto não implica que eles apenas ali estão para o servir.

15  Prontamente se fala em ‘conquistar’ o Matterhorn, o Evereste, o Anapurna, os hindus, a lua, o espaço, e aí por adiante. Na prática a Natureza é simplesmente o oponente a ser abatido: o mundo encontra-se dividido em dois campos, seres humanos e Natureza. Sem dúvida, existe um certo módico de verdade nisto, mas tudo depende no significado dado a esta oposição.


16  É essencial não confundir simbolismo e ‘naturismo’, como os entendemos, com os movimentos filosóficos e literários que abusivamente se apropriaram destes termos. Nada se encontra mais afastado do simbolismo védico, xintoísta ou norte-americano que o naturalismo artístico dos greco-romanos e as suas interpretações anedóticas dos mitos.

Monday, January 8, 2018

Um Olhar às Crenças, Ideologias e Objetivos de Imam Khomeini (2)



Na perceção do Imam, o governo Islâmico, sem contar com as diferenças substanciais de objetivos e de ideais de um ponto de vista organizacional, possui também diferenças básicas para com o sistema político contemporâneo. De acordo com aquele ponto de vista ou teoria, a “maioria” torna-se legítima com base na “verdade” (haq) e, na senda desta, a necessidade de realizar velayat - tutela - depende da presença das suas condições, incluindo a aceitação pública, a qual é realizada por via da seleção natural direta ou através da eleição pelos peritos da nação. 

Portanto, a ligação entre o povo, a liderança e o Governo Islâmico é profunda e fiel e, por causa disso, Imam Khomeini pôde conduzir e instituir um dos mais populares tipos de governo. Neste tipo de governação, ao contrário dos restantes sistemas políticos mundiais existentes, o povo, após determinação da liderança e realizando eleições, não renega a sua responsabilidade, nem é deixado a si próprio. Antes, a sua presença nos episódios de gestão do Sistema Islâmico é garantida como um dever religioso incumbente. De acordo com Imam Khomeini, o pilar do governo Islâmico é o amor e a confiança recíprocos entre o povo e a chefia competente. Nesta conexão, Imam Khomeini afirmou: “Qualquer jurista que atue ditatorialmente será expulso da curadoria… O líder e a liderança, nas religiões divinas, incluindo o Islão, não são em si mesmas algo grande que sirva para tornar o homem orgulhoso e presunçoso”. Foi tal ponto de vista que fez Imam Khomeini afirmar: “Chamarem-me servidor é melhor do que me chamarem líder. A liderança não é o que conta; o que conta é o serviço; o Islão tornou necessário que sirvamos… Sou um irmão do povo Iraniano e considero-me seu servo e soldado… No Islão, só uma coisa comanda e tal coisa é a lei. A Lei também imperava durante o período do honorável Profeta; Ele foi o implementador”. Dirigindo-se a regimes que se consideravam governantes absolutos e superiores aos seus povos, Imam Khomeini disse: “Um governo é um pequeno conjunto de pessoas que serve a nação. Tais governantes não entendem que o governo sirva o povo, que ele não existe para governar sobre eles… A atenção do povo, a sua participação, cooperação e supervisão do governo escolhido por eles, são por si próprias uma enorme garantia de proteção da sociedade”. A diferença entre esta teoria da soberania nacional e a segurança social e a teoria que define o governo e a soberania – até nos sistemas políticos mais democráticos – apenas dentro do âmbito do “poder” e dos seus acessórios, e que portanto considera o poder como o pilar mais importante da segurança social, é bastante clara. Imam Khomeini afirmou: “Um grande poder não se consegue manter sem ter uma base nacional”. A desintegração do aparentemente poderoso sistema Comunista, por um lado, e, por outro lado, a perpetuação da República Islâmica do Irão e a sua estabilidade, apesar da animosidade dos maiores poderes mundiais existentes e a imposição de uma guerra de oito anos de duração, constituem as melhores provas da legitimidade da teoria de Imam.

É óbvio que a visão de Imam Khomeini acerca do governo islâmico e a posição que o povo nele ocupa nada tem a ver com o autoproclamado “nacionalismo” da cultura política mundial. Antes, é o exato oposto de tal. O nacionalismo, quando aparece como uma ideologia, aparte a sua inabilidade prática, resulta numa antítese de valor. Porque tal visão, se as imaginações nacionalistas de cada nação são introduzidas como factos defensáveis, significa que não existem factos e valores estáveis e que eles variam e mudam constantemente, de acordo com o número de nacionalidades, de geografias e de fronteiras políticas que são modificadas em cada momento. Também o são a interpretação dos factos, dos valores e dos assuntos como a justiça, a paz e a liberdade, sendo estes também numerosos, mutáveis e antitéticos. Naturalmente, em tais condições, a nação, que por qualquer razão possui mais instrumentos e ferramentas de poder, considerará a imposição do seu domínio sobre as nações mais fracas como seu legítimo direito. Porque o nacionalismo extremo não é mais do que superioridade de raça, cor, língua e posição geográfica e histórica. Na base da evidência documental histórica, Imam Khomeini acreditava que a promoção do “nacionalismo e da etnocracia”, a instituição de movimentos como os do Pan-arabismo, Pan-turquismo, Pan-iranianismo e aparentados, no Terceiro Mundo e em países Islâmicos, são o resultado de estudos e de esforços realizados pelos colonialistas para dividir os respetivos países, semear a discórdia e impor o seu domínio.

Imam Khomeini costumava afirmar “O plano dos grandes poderes e dos seus afiliados no Terceiro Mundo é o de virar estratos muçulmanos uns contra os outros e de dividir os respetivos crentes, para os quais Deus Todo-Poderoso concedeu o espírito de irmandade, e de designá-los pelos seus nomes étnicos, i.e., nação Turca, nação Árabe, nação Curda, etc., e inclusive torná-los inimigos um do outro. Isto é exatamente o oposto da via Islâmica e contradiz o Sagrado Corão”. Concluindo, Imam Khomeini afirmava: “O nosso Movimento é Islâmico antes de ser Iraniano”.

Na visão de Imam Khomeini, o estabelecimento da verdadeira paz no mundo com a presença dos poderes arrogantes dominantes e enquanto se aceitar a sua existência e dominação, é senão um pensamento vão. Costumava dizer: “A paz mundial e a sanidade estão orientadas em direção ao derrube do arrogante e enquanto estes corpos sem cultura e sedentos de dominação existirem na terra, os dóceis não herdarão o legado que Deus Todo-Poderoso lhes concedeu…. Esse dia será uma bênção para nós, no qual a dominação do belicoso sobre a nossa inocente nação e sobre outras nações oprimidas será quebrada e removida, e então cada nação tomará o seu destino nas suas próprias mãos…. A América pode derrotar-nos, mas não a nossa Revolução, e por esta razão estou confiante na nossa vitória. A América não entende o conceito de martírio!”.

Em relação à natureza do usurpador governo de Israel e das suas raízes, Imam disse: ”A América, este terrorista natural, é um governo que pegou fogo a todo o mundo e o seu aliado é o Sionismo mundial, o qual, para alcançar os seus objetivos gananciosos, executa crimes que canetas e línguas se envergonham de pronunciar…. Do ponto de vista do Islão, do ponto de vista muçulmano e de todos os critérios internacionais, Israel é um agressor e usurpador…. Eu considero o plano para a independência e reconhecimento de Israel uma catástrofe para os muçulmanos e uma explosão para os governos Islâmicos”. Após a vitória da Revolução, Imam Khomeini denominou a última sexta-feira do mês de Ramadão de “Dia de Al-Quds” e pediu a todos os muçulmanos do mundo que realizem demonstrações anuais nesse dia enquanto Al-Quds permanecer nas mãos dos inimigos do Islão, e que portanto demonstrem o seu apoio aos combatentes palestinianos.

Na opinião de Imam Khomeini, o único modo de libertar Al-Quds é o de acreditar em Deus e de abraçar a escola do martírio e da cruzada armada até à completa alienação de Israel.

Em relação ao Comunismo, Imam Khomeini afirmou: ”Desde o primeiro dia do seu surgimento, os líderes comunistas têm sido e são os mais ditatoriais, sedentos de poder e monopolísticos líderes do mundo”. No que respeita ao progresso do mundo Ocidental, ele afirmou: “Aceitamos o seu progresso mas não a sua corrupção da qual eles próprios se queixam…. A educação ocidental removeu a espécie humana do seu humanismo…. Não nos opomos à civilização, opomo-nos à civilização exportada, queremos uma civilização baseada na honra e no humanismo.”

Sua Santidade, Imam Khomeini, enfatizou o papel infraestrutural da cultura e frequentemente dizia: “A cultura é a origem de toda a felicidade ou miséria…. O que constrói as nações é a cultura saudável…. A barriga, o pão e a água não são critério, a principal questão é a da honra humana…. O homem não é humano e não pode alcançar os seus fins humanísticos enquanto procurar continuar a viver na sombra de metralhadoras, canhões e tanques… Deves tentar, pelas tuas palavras e canetas, arrumar as metralhadoras e abrir a arena por via das letras, conhecimentos e ciências”. Imam Khomeini negava e considerava sem valor as artes que estão ao serviço do colonialismo. Ele também negava a ‘arte pela arte’. Ele costumava afirmar: “No misticismo islâmico, a arte é a descrição clara da justiça, da honra e da equidade. Deve refletir a aflição do povo esfomeado, anatemizado pelo poder e pela riqueza”.

Na área da educação Imam Khomeini foi tanto um teórico como um especialista prático. Pelos seus métodos educativos, ele foi capaz de estabelecer, como pioneiro do grande movimento religioso, uma comunidade cujas culturas e valores tinham, até então, sido esmagados pela traição da dinastia Pahlavi e dos seus afiliados e que se tinham inclinado em direção à indiferença. É dito que durante o ‘levantamento de 15 Khordad de 1342 A.H./1963 D.C.’1, nessas dolorosas condições de estrangulamento social, os seus amigos perguntaram a Imam: contra aquela força quereria ele levantara-se e afirmar o primado da Justiça? Imam apontou para o berço de um bebé. Estranhamento, quinze anos mais tarde, a juventude muçulmana iraniana foi dos principais atores nas arenas do levantamento.

Imam Khomeini considerava que o autoconhecimento e a purga regular de todas as impuridades diabólicas e egotísticas ao longo do curso da vida de cada um constituíam um pré-requisito para obter a verdade e a perfeição (kamal-e haqiqi), e ele acreditava que o auxílio ou a educação devem começar desde a infância e mesmo durante a própria vida fetal, e portanto ele afirma: “Nenhuma ocupação é mais honorável que a da maternidade…. A primeira escola de uma criança é o colo da sua mãe”. Dirigindo-se à comunidade de professores, Imam Khomeini disse: “Tomem cuidado, o ensino da escola elementar é mais importante que a universidade, porque o desenvolvimento mental tem lugar na infância…. Os professores são os depositários que, para além de outras coisas, têm seres humanos confiados ao seu cuidado…. Todas as prosperidades e misérias encontram as suas raízes na escola e os professores possuem as chaves”. Imam Khomeini tinha em conta o ensino como a profissão dos profetas e considerava a orientação da comunidade em direção a Alá como a mais importante ocupação dos professores, aparte do ensino formal das ciências.

Imam Khomeini considerava a humanidade o sumo ou a essência de todos os seres no universo. Ele disse: “O homem é uma maravilha que tanto se pode tornar numa criatura divina ou diabólica…. Pelo treino e educação adequados o mundo inteiro reforma-se”. Ele considerava a educação e a expurgação como tendo prioridade sobre a instrução de sala de aula. Ele acreditava que a ciência, com toda a sua posição exaltada, se não acompanhada por expurgação, é um instrumento ao serviço de objetivos diabólicos; como ele disse “O conhecimento numa mente perversa é mais nocivo que a ignorância!”

Uma das maiores consequências do movimento de Imam Khomeini foi a reintegração do papel da mulher no âmbito das atividades sociais. Arriscamos dizer que em nenhuma altura da história do Irão a mulher ganhou tanta consciencialização geral e política como nessa época, nem nunca estiveram mais envolvidas nos seus próprios destinos como hoje. Durante os dias finais da Revolução, as mulheres estiveram presentes ombro a ombro com os homens e por vezes, inclusive, à frente dos homens, em todos os cenários. Durante a guerra imposta2, o papel da mulher iraniana em prover mantimentos para as frentes de guerra, o seu encorajamento aos respetivos maridos e irmãos para participarem na defesa do Islão e da Revolução, incluindo a sua própria participação no fornecimento de mantimentos para as frentes de combate, foi algo sem precedentes nas guerras contemporâneas.

Neste momento, as mulheres estão bem ativas, com os homens, em todas as atividades sociais, na educação, nas universidades e também nas organizações de saúde, bem como nos órgãos de governo, etc., etc., enquanto antes do triunfo da Revolução Islâmica, devido à atmosfera desfavorável e poluída que o regime do Xá tinha desenvolvido, a maior parte das mulheres islâmicas iranianas tinham-se necessariamente refugiado na atmosfera das quatro paredes de suas casas e muitas raparigas, especialmente nas áreas provinciais e rurais, estavam privadas de educação. Aquelas que, nas grandes cidades, podiam participar em atividades sociais defendiam a sua honra e virtude em condições por demais complicadas, sentindo-se muitas impelidas a desistir da educação ou das suas profissões.

As mudanças que ocorram na sociedade iraniana feminina têm sido, mais do que qualquer outra coisa, um resultado da consideração de Imam Khomeini pela personalidade da mulher e da sua estação, bem como da sua defesa dos seus direitos. Imam costumava dizer: “Na ordem Islâmica as mulheres gozam dos mesmos direitos que os homens possuem: o direito a estudar, a trabalhar; o direito de propriedade, de votar e de ser votada…. Do ponto de vista dos direitos humanos, não existe diferença entre homens e mulheres, pois ambos são seres humanos e as mulheres são admitidas nos assuntos que afetam os seus destinos como os homens…. Ao que o Islão se opõe e considera proibido é a corrupção e o vício, seja da parte das mulheres ou da parte dos homens…. Queremos mulheres que se ergam na sua imponente estação humana e que não sejam brinquedos… O Islão não quer mulheres que sejam joguetes ou bonecas nas mãos dos homens. O Islão deseja proteger a personalidade das mulheres e desenvolvê-las em seres humanos sérios e capazes…. As mulheres são livres, como os homens, de escolherem os seus próprios destinos e atividades…. A liberdade na sua forma ocidental que corrompe raparigas e rapazes é condenada pelo Islão e pela sabedoria”.

As posições e as recomendações económicas de Imam Khomeini foram baseadas na justiça e em dar prioridade aos direitos dos membros da comunidade desamparados e oprimidos. Ele exortava ao serviço dos desamparados como a maior oração e referia-se a eles como os benfeitores da sociedade e dele próprio. A maior parte das recomendações de Imam Khomeini aos agentes da ordem Islâmica era sobre os cuidados para com os indigentes e o de evitar o desenvolvimento de condutas palacianas. Ele acreditava que o governo e os seus empregados e gestores são serventes do povo e um servente não tem o direito de exigir para si próprio melhores circunstâncias que as do público. O Imam afirmou: “Um fio de cabelo dos despossessos e daqueles que deram mártires é muito superior, em honra, a todos os palácios e respetivos hóspedes do mundo…. Aqueles que estão connosco até ao fim da linha são aqueles que experimentaram a dor, a privação e a opressão…. No dia em que o governo se tornar focado no palácio, esse será o dia em que teremos que tocar o dobre de finados do governo e da nação.”

Uma das mais extraordinárias características de Imam Khomeini é a de que todas as suas palavras eram baseadas na crença e na verdade e que, antes dos outros, praticava o que ensinava. O estilo de vida de Imam era o perfeito exemplo de ascetismo, contentamento e simplicidade e este estilo não se confinava ao período pré-liderança. Mais, ele acreditava que o estilo de vida de um líder deve estar ao nível ou ainda mais abaixo que o do mais inferior estrato populacional. Ele esteve ligado ao estilo ascético de existência toda a sua vida. Apesar de volumosos tomos terem sido escritos e publicados acerca deste aspeto da vida de Imam, as dimensões do seu apego ao ascetismo e à vida simples ainda se encontram, em larga medida, inexploradas.

Para fazer uma ideia do estilo de vida de Imam e da sua crença no cuidado extremo com que se deve gastar o Bayt al-mal (Casa do Dinheiro) 3, é o suficiente notar que foi de acordo com o seu ênfase no artigo 142 da Constituição da República Islâmica que o Supremo Tribunal é obrigado a investigar os bens do líder e dos restantes elementos do escalão superior da Ordem Islâmica, anterior e posteriormente à respetiva incumbência ou designação, para garantir que nenhuns aumentos ilegais tenham sido realizados. Imam Khomeini foi a primeira pessoa a submeter uma lista dos seus parcos ativos à consideração do Supremo Tribunal (24/10/1359; 14 de Janeiro de 1979). Imediatamente após a Ascensão de Imam, o seu filho, numa carta impressa nos jornais, pediu ao poder judiciário para investigar de novo os bens de Imam de acordo com a Lei Constitucional. O resultado da investigação foi publicado na consequente homologação pelo Supremo Tribunal, datada de 11/4/1368 (2 de Julho de 1989). Esta declaração revelou que, durante o respetivo lapso de tempo, não apenas nada tinha sido acrescentado ao património de Imam, mas pelo contrário um lote de propriedade que foi herdado de Seu pai foi doado, durante a sua vida e por sua ordem, à indigente população local.

O único ativo imobiliário de Imam Khomeini é a sua antiga casa de Qom, a qual, desde a sua partida em 1343 (1964), foi e, na verdade, tem sido dedicada aos objetivos do Movimento e usada como um centro para reuniões por estudantes-clérigos e visitantes e portanto não possui a natureza de propriedade privada. A dita lista de ativos, que foi preparada em 1359 (1979) na altura da Ascensão de Imam, depois do devido controlo legal, não revelou qualquer adição mas sim redução. Foi mencionado que o falecido não possuía ativos pessoais à exceção de alguns livros. Os poucos utensílios rudimentares necessários para uma vida simples que se encontravam na casa pertenciam à sua mulher. Os dois tapetes em segunda mão não constituíam propriedade pessoal e deveriam ser legados aos Sadat4 (plural de Seyyed, a progenitura do Profeta do Islão) necessitados. O dinheiro líquido era nulo; se alguma coisa existisse, eram as esmolas religiosas provenientes do público que foram deixadas à Autoritária Religiosa para gastos religiosos, não podendo os herdeiros tocar tais fundos. Os restantes ativos de um homem que tinha passado quase 90 anos de vida sob extrema popularidade incluíam uns óculos, um corta unhas, rosários, o Corão, um tapete de oração, um turbante, vestimentas de clérigo e alguns livros religiosos.

Esta era a lista de todos os ativos de um homem que não apenas foi o líder de um país rico em petróleo com dezenas de milhões de habitantes, mas que também comandava os corações de muitos mais milhões, pessoas que, quando Imam emitiu a ordem de mobilização, se alistaram como candidatos a martírio. Estas foram as pessoas que, ao escutaram da doença de coração de Imam, se alinharam nas entradas dos hospitais prontos para oferecer-Lhe o seu. O segredo de tanta popularidade apenas pode ser encontrado na Sua fé, ascetismo e veracidade.

Imam Khomeini favorecia ou, ainda melhor, acreditava profundamente na programação e na disciplina na vida. Ele costumava passar diariamente horas específicas da noite e do dia em oração e em devoção, em rezas e em recitações do Sagrado Corão. Caminhar enquanto invocava Deus e pensava era outra das atividades do seu programa diário. Aos noventa anos de idade ele era um dos líderes políticos mundiais mais ativos. Ele não se abstinha do êxtase do serviço do caminho de exaltação da comunidade Islâmica e de resolver os seus problemas, até nas mais inclementes circunstâncias. Em adição à leitura das principais notícias, dos relatórios de imprensa oficiais e de volumes de boletins, de escutar as notícias na rádio e na televisão locais, Imam Khomeini escutava, várias vezes ao dia, a análise das notícias de rádios estrangeiras de língua persa para que se pudesse familiarizar com o processo de propaganda dos inimigos da Revolução e de planear modos de a combater. As atividades diárias urgentes e as frequentes reuniões com autoridades da Ordem Islâmica não podiam impedir Imam de ter contato com a população, que ele cunhava como o bem mais essencial do Movimento Islâmico. Os detalhes de mais de 3700 encontros com cidadãos comuns nos anos após o triunfo da Revolução estão gravados em dois volumes do livro “Mahzar-eNoor”. Isto com a intenção de indicar o profundo interesse e a relação de Imam com a população do seu tempo. Imam nunca tomou uma decisão que afetasse o destino do povo sem que ele primeiro, fielmente, a discutisse com a população. Ele considerava o povo como o mais digno de confiança, por conhecer os fatos. Imam Khomeini possuía uma face doce e determinada. O seu olhar era solenemente atrativo e repleto de espiritualidade. Qualquer multidão, perante ele, involuntariamente se sentia atraída pela sua espiritualidade e muitos inconscientemente vertiam lágrimas. O povo do Irão tinha um direito de, nas várias palavras de ordem e slogans, rezar a Deus para levar as suas vidas e acrescentar, em vez, mais um momento à de Imam Khomeini. O mundo, alienado de espiritualidade, poderá não crer em tal mas aqueles que cresceram com Imam apreciaram cada momento da vida deste ser adorável, cuja inteira existência foi devotada a Deus e ao serviço do povo.

Não obstante, o Mundo Arrogante e a mass media ocidental fizerem uma grande injustiça a Imam e, ainda mais, à humanidade. Durante anos a sua disseminada propaganda teve como alvo aviltar a personagem de Imam e a Revolução Islâmica. Mesmo hoje, vários anos após a sua Ascensão, numerosas estações de rádio e de televisão estão dia e noite, em volume crescendo, a emitir em pársi mensagens depreciativas para com Imam, a Revolução e os respetivos ideais. A América e a maior parte dos países europeus disponibilizam extensas infraestruturas a grupos antirrevolucionários, incluindo pró-monarquia, a esquerdistas e a Mujahedins5. Cada ano dezenas de livros e centenas de artigos e de periódicos são publicados com a intenção de distorcer os fatos do Movimento de Imam Khomeini. Mas o sol da verdade irá rasgar as negras nuvens de tumulto e de fraude. O mundo ocidental, cuja existência tem sido baseada, desde há vários séculos, na dominação e na exploração de outras nações e na fraude da opinião pública, diagnosticou o cancro incorretamente6. Que pessoa de vistas largas existe que, ao tornar-se familiarizada com a vida e com as mensagens despertadoras de Imam Khomeini, não se atraia pelo seu caminho? E mais, que não se levante contra esta ordem cruel que domina o mundo?

Na verdade, porque é que a publicação, a distribuição e o estudo da Última Mensagem (Testamento) de Imam Khomeini proibida na maior parte dos países islâmicos e árabes cujos governos são regimes fantoches? Porque é tal considerado um crime? Tão extensiva mobilização de infraestruturas e a aliança, de chefes de estado, para encobrir o pensamento e o movimento de Imam Khomeini; do que se trata tudo isso? Será não outra coisa que o facto de que Imam defendia algumas verdades e valores por falta dos quais a humanidade tem ardido desde há séculos? Para aqueles que estão familiarizados com a vida imaculado de Imam Khomeini, que escutaram a sua mensagem e que conheciam a sua personalidade, não há dúvida que a tocha que Imam alumiou não poderá perecer, nem ser distorcida por entre todas estas ladainhas hostis e ruinosas tempestades de distorções. “Pretendem extinguir a Luz de Deus com as suas (infames) bocas; porém, Deus completará a (revelação de) Sua Luz, embora isso desgoste os incrédulos.” (Sagrado Corão, Surá 61 ‘As Fileiras’, versículo 8).




1  [N.T.] Khrodad é o mês persa que em 1963 corresponde ao mês de Junho, durante o qual ocorreu o massacre de manifestantes afetos ao Imam Khomeini. Durante esse ano, o Xá Pálavi anunciou e implementou medidas tendentes à reforma económica do Irão e uma abertura do País ao investimento estrangeiro. Tais medidas foram fortemente contestadas por Imam Khomeini, que galvanizou a cúpula religiosa xiita na oposição à denominada ‘Revolução Branca’, que tanto submetia o país aos interesses geopolíticos dos E.U.A e de Israel, como atentava à influência do Islão no mesmo. A 3 de Junho de 1963, no feriado sagrado de Ashura, Imam Khomeini denunciou nos mais fortes termos o Xá e comparou o seu regime ao do Califado Omíada, cujo soberano Yazid I derrotou o filho do Profeta em Karbala. Tal discurso recebeu esmagador apoio popular, tendo nesse mesmo dia cerca de cem mil apoiantes do Imam marchado à porta do palácio real em Teerão, entoando cânticos de ‘Morte ao Xá’. Na madrugada do dia 5 de Junho, forças paramilitares, sob ordens do regime, detém o Imam em Qom – cidade sagrada onde este proferiu o seu discurso – e tropas militares prendem manifestantes nas várias cidades onde a contestação ao Xá e o apoio ao Imam se tinham alastrado, alguns deles já marchando em direção Teerão sob o slogan ‘Khomeini ou a morte’. Os milhares de vítimas mortais por ocasião da brutal repressão das forças policiais e militares afetas ao então regime são relembradas anualmente neste dia, dando o mesmo o nome a uma das principais ruas do centro de Teerão, situada junto do Palácio do Golestão, residência do Xá na capital e local da sua coroação.

2   [N.T.] O autor refere-se à Guerra Irão-Iraque ocorrida entre 1980 e 1988.

3  [N.T.] Termo arábico que se refere á instituição financeira pública, cujos antecedentes datam do Antigo Califado, cujo propósito é o de administrar os impostos.

4  [N.T.] Título honorífico (Saíde em português) que designa as pessoas aceites como descendentes do Profeta por via dos seus netos  Hasan ibn Ali e Husayn ibn Ali, filhos de Fátima, filha de Maomé, e do seu genro Ali ibn Abi Talib, o primeiro Imam xiita e . Não havendo estatísticas fiáveis, estima-se o número de Saídes em dezenas de milhões.

5 [N.T.] O autor refere-se à Organização dos Mujahedins do Povo Iraniano, conhecida internacionalmente por abreviaturas diversas - EK, PMOI ou MKO. Tendo sido criada por muçulmanos em 1965 com vista ao derrube do Xá do Irão, foi ainda antes da Revolução Islâmica tomada por membros de tendências marxistas. Com a Revolução e após divergências políticas com o braço político do novo Ayatollah, que resultaram em vários ataques bombistas, o grupo passou ao exílio, considerando-se ainda hoje o legítimo governo do país, sendo apoiado por vários governos ocidentais, incluindo os E.U.A. Nas suas fileiras conta com cerca de 5000 elementos, estando a liderança e operacionais espalhados principalmente pela França, Iraque e E.U.A..

6  [N.T.] A tradução em inglês contém a palavra ‘correctly’ (corretamente), que assumimos ser uma gralha dado o sentido da frase.



Saturday, January 6, 2018

Um Olhar às Crenças, Ideologias e Objetivos de Imam Khomeini (1)

 

Após os mais recentes acontecimentos desestabilizadores que pretendem ameaçar a unidade da República Iraniana, parece-nos apropriado deixar aos nossos leitores a tradução do que é, para nós, o mais importante capítulo do livro ‘A Narrativa do Acordar’, de Hamid Hansari – ‘Um Olhar às Crenças, Ideologias e Objetivos de Imam Khomeini’.

Dada a extensão do mesmo, publicaremos agora apenas a primeira metade do texto, contando publicar a segunda muito em breve.

Neste olhar à biografia política e espiritual do precursor da Revolução Islâmica de 1979, cuja missão é mantida pelo atual regime que comanda o Irão, pretende-se revelar as verdadeiras motivações do Imam na criação e liderança deste movimento único na história do século XX.

Especialmente para nós, Ocidentais, que nos encontramos cada dia mais abismados e impotentes perante as forças titânicas que destroem tudo o que é São e Bom, o exemplo da Revolução Islâmica não pode deixar de tocar fundo. A chama desta representa um foco de luz e esperança que - não nos enganemos - sendo cada vez mais ténue, nos dá o conforto de saber ainda existir neste mundo de trevas um regime agregador de milhões de seres que, como nós, rejeita os frutos da modernidade; mais, luta junto das mais altas esferas políticas e militares mundiais por manter esta esperança.

Este governo teocrático, liderado por uma elite de jurisconsultos islâmicos; que baseia toda a sua atividade na Lei Divina; que compreende que o destino do Homem apenas se cumpre se encaminhado na via de Deus; que anteviu a perversidade tanto da democracia liberal como da sua irmã gémea comunista; que entende que nesta Idade de dissolução em que a Humanidade se encontra apenas medidas pujantes e restritivas são viáveis para manter a ordem moral e social da comunidade e que sem pejo denuncia as forças maléficas que tudo e todos querem subjugar na sua denominação despótica – só por hipocrisia, total engano ou - o que nos parece a maior parte das vezes, infelizmente – o por ainda se operar sob preconceitos subversivos, não pode um reacionário digno desse nome deixar de se afirmar de corpo e alma junto do Regime Islâmico Iraniano.

Que todos nós que antevemos o abismo em que a Humanidade se precipita, seja qual for a denominação religiosa a que se pertença, tenhamos o discernimento de distinguir o real inimigo comum e darmos a mão apenas aos que também buscam a Vida Eterna. 


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Agora que este artigo, na busca da senda da vida de Imam Khomeini, se aproxima dos últimos dias da sua vida, será apropriado deitar um olhar, apesar de rápido e curto, a alguns dos mais importantes aspetos dos seus pensamentos e ideologias. Obviamente, uma imagem clara e completa dos fundamentos religiosos e dos objetivos do Imam apenas pode ser adquirido por via estudo das suas obras completas, escritas e faladas, e prestando atenção à sua própria conduta.

Imam Khomeini foi um muçulmano xiita que fundamentalmente acreditava na unidade do Islão (independentemente dos seus cismas). Ele acreditava que esta unidade é necessária vis-à-vis os colonialistas e os inimigos do Islão. Os chamamentos a formas de unidade são uma parte importante das mensagens e dos discursos de Imam Khomeini.

Sua Santidade, o Imam, afastou de hipótese qualquer ação que quebrasse as linhas dos muçulmanos e conduzisse à dominação pelos colonialistas. Pela emissão de decretos únicos e pelo seu apoio à ‘Semana da União’ no mundo muçulmano e pelas suas repetidas mensagens, ele mostrou vias práticas tendentes à unidade entre as denominações sunitas e xiitas. Durante a sua liderança, ele opôs-se a qualquer ação que conduzisse à divisão e à disputa entre estes dois grandes setores do Islão.

Imam Khomeini acreditava que a fé na unidade de Deus e na missão do Profeta do Islão, a fé no Sagrado Corão como o capítulo eterno de orientação, e a aceitação dos seus motes e decretos, como as orações, jejum, dar esmolas, Hajj1 e Jihad2, são pilares sólidos para todos os seguidores das várias seitas islâmicas se juntarem em unidade e erguerem-se contra os politeístas.

O levantamento reformista do Imam e as suas mensagens não são dirigidos apenas à sociedade iraniana. Ele acreditava que a intuição do homem é baseada no monoteísmo, na caridade, na procura da verdade e da justiça e, se a consciência geral aumenta e o mal do ego (nafs-e ammarech) e o Satã exterior são domados e fragilizados, então toda a sociedade humana devotar-se-á à busca de Deus e viverá em ambientes ricos de justiça e paz. Por esta razão, em todas as suas mensagens públicas, o Imam urgia as nações cativas do Terceiro Mundo e os povos oprimidos a erguerem-se contra o mundo arrogante. Depois da vitória da Revolução Islâmica, Imam Khomeini propôs abertamente a ideia de formar o ‘Partido dos Povos Oprimidos’ e a defendê-lo. A primeira assembleia universal dos movimentos de libertação internacionais reuniu-se no Irão durante a liderança do Imam.

Ele frequentemente enfatizava que a Revolução Islâmica é o inimigo dos objetivos dominadores das cabeças e dos órgãos governativos dos E.U.A, do Ocidente e da (antiga) União Soviética, e não das nações destes países, que são elas mesmas vítimas de neocolonialismo. O lema de Imam Khomeini era o de combater o opressor e de defender o oprimido e costumava afirmar: “Nós não somos nem cruéis nem toleramos crueldade”.

Para se fazer uma melhor ideia das crenças religiosas de Imam Khomeini, o melhor seria ler a sua responsa a um correspondente do London Times que Lhe colocou questões sobre as mesmas.

“A minha crença e aquela de outros muçulmanos são os assuntos que o Corão contém ou aqueles que forem proferidos pelo Profeta do Islão e pelas legítimas autoridades depois dele. A causa e a essência de todas essas crenças, que são as nossas crenças mais queridas e valiosas, é o monoteísmo. De acordo com este princípio, acreditamos que o Criador deste mundo e de todos os seres no universo, incluindo a espécie humana, é o uno e único Deus Exaltado Que tudo sabe e de todas as coisas é capaz e a Ele todas as coisas e objetos pertencem. Este princípio ensina-nos a ser submissivos apenas ante o poder de Deus e não obedecer a nenhum homem a menos que obedecer-lhe seja equivalente a obedecer a Deus. Com base neste princípio, nenhum indivíduo tem o direito de forçar qualquer outro homem a ele se submeter. Além do mais, este princípio de fé ensina-nos o princípio da liberdade humana, isto é, nenhum homem tem o direito de privar um indivíduo ou comunidade de liberdade, de legislar por eles, de regular a sua conduta de acordo com o seu próprio entendimento dela, que é geralmente deficiente, ou de regular a conduta de outros de acordo com as suas vontades ou desejos. Ademais, deste princípio, vimos a acreditar que a legislação para o progresso do homem encontra-se apenas com Deus, assim como as leis da criação e do ser são por Ele desejadas. A felicidade e a perfeição do homem e aquelas das comunidades estão dependentes da obediência a leis divinas, das quais a humanidade é informada através dos profetas. A degradação e a queda do homem são devidas à privação dos seus direitos e à sua submissão a outros seres humanos. Portanto, o homem deve levantar-se contra estes grilhões e correntes de dominação e desafiar aqueles que nos convidam à servitude, e de libertar a comunidade, e a nós mesmos, para que possamos todos ser servos de Deus e nos submetermos a Deus. É por esta razão que as nossas normas sociais e regulações começam com a oposição aos poderes despóticos e colonialistas. Em acréscimo, deste princípio de fé e crença no monoteísmo, recebemos a inspiração de que todos os homens são iguais aos olhos de Deus, Que a todos criou, e todos são Suas criaturas e servos. Este é o princípio de igualdade de todos os homens e que a única distinção do homem e preferência a um ou outro baseia-se na sua virtude e liberdade de distorção e de culpa. Portanto, todas as coisas que disturbam esta igualdade e que instituem distinções vãs e sem sentido na comunidade devem ser combatidas”.

Imam Khomeini costumava dizer: “No Islão o ponto de referência é o consentimento de Deus e não o dos indivíduos. Nós pesamos e medimos os indivíduos pela verdade e não vice-versa. A medida é a retidão e a verdade”. Sua Santidade, o Imam, considerava a natureza e a intuição dos homens amassada e nascida em amor pela perfeição absoluta, que a Deus pertence exclusivamente. É Ele Quem é a fonte de todas as perfeições e poderes. O Imam costumava lembrar os seus seguidores: “O universo é a Presença de Deus; portanto, não pequem na presença de Deus… Nada temam exceto Deus e coloquem a vossa confiança apenas em Deus.”

Sua Santidade, o Imam, considerava a filosofia das missões proféticas como meios pelos quais os homens são guiados em direção à teosofia, para ativar o poder da busca da perfeição do homem, em negação de todas as trevas, na reforma da sociedade e no estabelecimento da equidade e da justiça, como ele disse: “Um objetivo da missão profética é o de salvar das trevas o caráter das pessoas, os seus egos, as suas almas e os seus corpos. Almeja a colocar de lado toda a escuridão para salvar os homens dos abismos das trevas e guiá-los em direção à luz”. Frequentemente ensinava: “Não existe luz exceto Deus Todo Poderoso, o resto é tudo escuridão”.

Imam Khomeini considerava o Islão como o selo complementário de todas as religiões divinas e a mais excelsa e compreensiva escola divina de orientação. Ele enfatizava: “O Islão é o mais elevado grau de civilização… As leis do Islão são progressivas, compreensivas e complementárias… No Islão existe apenas uma lei, e essa é a lei divina”. O Imam considerava o Islão como a religião da oração e da política e frequentemente comentava: “O próprio Islão tem sido um dos fundadores das notáveis civilizações do mundo”. Ele aconselhava os seus seguidores: “Cuidem por nunca confundirem o Sagrado Corão e a religião da salvação, o Islão, com qualquer dessas escolas falsas, criadas pelo homem e depravadas”. Noutro lugar, Imam Khomeini disse: “A principal dificuldade dos muçulmanos é a de que eles largaram o Sagrado Corão e juntaram-se sob os estandartes de outros… A escola de pensamento xiita que é uma escola revolucionária e é a continuação do verdadeiro Islão do Profeta, como os próprios xiitas o são, tem sempre estado sob ataques malvados dos déspotas e dos colonialistas”.

Em relação aos seus motivos e aos objetivos do seu levantamento e desafio, Imam Khomeini frequentemente enfatizava: “O nosso objetivo integral é o Islão”. Imam considerava a Revolução Islâmica como uma radiação do eterno levantamento de Imam Hussayn3 no dia da Ashoora, que foi feita para salvar o Islão dos tentáculos dos corruptores cruéis. Ele enfatizava: “O Islão não é uma religião de uma nação particular; não reconhece diferenças entre turcos, iranianos, árabes ou não-árabes. O Islão pertence a todos independentemente de raça, tribo, língua ou cor, que não contam nesta religião. Todos são irmãos e iguais. A honra encontra-se na virtude e na castidade, no caráter superior e na boa conduta.”

Imam Khomeini via o martírio no caminho de Deus como uma honra eterna, o orgulho dos santos, a chave para a felicidade e o segredo para a vitória. Ele via a busca do martírio como o resultado do amor por Deus. Sobre o martírio e a sua essência e valor, Imam disse: “Quão ignorantes são os mamomistas e os mal-informados que buscam o valor do martírio nas crónicas do universo, e buscam as suas descrições em canções, épicos e poesia, e para a sua descoberta eles buscam a assistência da arte da imaginação e do volume dos pensamentos!... Longe disso; a resolução deste puzzle não é possível exceto através do amor!“ Foi com tal lógica que Imam disse: ”Digo-vos, fiéis irmãos, se formos exterminados da face da terra pelas traidoras mãos dos E.U.A. e da União Soviética, e com o nosso sangue rubro, encontrarmos o nosso Deus em honra, é de longe preferível que viver luxuriosamente sob a bandeira vermelha do exército vermelho do Leste ou do exército negro do Ocidente”.

Imam Khomeini foi um filósofo divino e um místico, um jurisconsulto, uma autoridade religiosa e ao mesmo tempo o líder da Revolução Islâmica, e o fundador da República Islâmica do Irão. Ele estava familiarizado com os princípios da filosofia Ocidental e era também bem versado nos princípios e argumentos da lógica e na filosofia Islâmica, em ambas, a peripatética e as aproximações luminosas. Talvez seja seguro afirmar que o discernimento filosófico do Imam se inclinava de certo modo em direção ao Iluminacionismo (Eshraqi e Presentatividade) ou de algum modo próximo do estilo eclético do divino hakim Mullah Sadra4 com algumas diferenças e distinções: Imam Khomeini ensinou filosofia em altos níveis durante quinze anos. Ele seguia a filosofia como uma via para o reconhecimento do estádio e do degrau que permitisse entender as realidades de existência e das criaturas, e portanto o seu entendimento filosófico em relação à verdade da existência e ao panteísmo e as suas etapas é profundamente influenciado pela sua escola de misticismo.

O misticismo de Imam Khomeini é baseado nos versos corânicos, nos hádices dos grandes da religião e na sabedoria completa dos profetas, dentro da estrutura da sagrada religião do Islão. Ele opunha-se ao misticismo negativo, que restringe a fé e a religião a alguns recitais e cantos e que encorajava a vida em isolamento, evitando responsabilidades sociopolíticas. O Imam acreditava que conhecer-se a si próprio é a base da teologia e que a purga em cada um da corrupção ética e dos vícios e a aquisição de excelências são pré-requisitos para conhecer Deus; e a obtenção da gnose divina e das estações morais elevadas não é possível exceto no caminho que os grandes profetas e as “provas” de Deus na terra apreenderam e examinaram. Portanto, Imam Khomeini era oposto a vias e a ascetismos que se situam fora da estrutura da religião, desprezava a santimónia, o misticismo hipócrita e as atitudes beatas.

Imam Khomeini acreditava que no folgo arriscado da grande Jihad ou Jihad-e-Akbar (combater as inclinações do ego), e os modos e as maneiras de viver, e nas jornadas peripatéticas a caminho das Quatro Jornadas (Asfar-e Arbaeh), deve-se procurar a assistência dos verdadeiros guias e dos verdadeiros possuidores de descobertas e de milagres e não dos que simulam tais poderes. Ainda, deve-se agarrar à grande proteção (velayat-e-uzuma - o Governo Islâmico) que é a barca salvadora, e tudo que seja de outro modo é mera divagação. A alma pura de Imam Khomeini, o seu espírito exaltado e a sua passagem bem-sucedida através das etapas práticas da jornada espiritual são a melhor prova da retidão da sua viagem. Nesta via ou passagem, Imam Khomeini alcançou tal estação moral e experimentou uma tal compreensão intuitiva e alienação em Deus que ele, inclusivamente vis-à-vis reivindicações como as de Hallaj5, onde se afirmava “Eu sou a Verdade Criativa”, tornava-se empertigado, não porque os simples de espírito aliados do misticismo tinham excomungado tais reivindicadores; antes, porque na vastidão da existência, eles testemunharam coisas que não a Haq (verdade) e reclamaram auto-asserção - anniyat - e intercessão. Onde, na visão do Islão, apenas Deus Todo-Poderoso é luz (noor) e todas as outras coisas são escuridão - e escuridão é ausência de luz e a não-existência não possui ser - a existência é toda a manifestação de Deus (Haq) e nada que não seja Ele.

Ademais de ser altamente versado em filosofia, misticismo, exegese, ética e teologia, Imam Khomeini foi um excecional jurisconsulto com conhecimento total da fiqh6 e dos princípios, que ensinou durante trinta anos ao mais alto nível. Presentemente, aparte os numerosos livros escritos pelo Imam sobre a fiqh e os princípios, tomos de lições e de cursos por ele ministrados foram compilados pelos seus estudantes e encontram-se hoje disponíveis. Das características especiais atribuídas à escola de fiqh ou de jurisprudência do Imam, uma é de que ele acreditava que a fiqh e os princípios gozavam de uma genuinidade especial. Na etapa dedutiva dos preceitos, ele evitava associar pontos de vista filosóficos, místicos e teológicos aos decretos de fiqh. Imam Khomeini considerava a investigação da qualidade da fiqh e dos princípios como um pré-requisito para obter uma visão dedutiva (ejtehadi), e ele mantinha que os fatores de tempo e lugar têm um papel determinante no razoamento independente da lei islâmica (ejtehad) e ignorá-los resulta numa inabilidade de entender e responder aos assuntos diários emergentes. Ele, além do mais, acreditava que a busca de ação por via da fiqh não significa tornar inválido o processo dedutivo da ejtehad convencional. Ele portanto enfatizava que as assembleias teológicas deveriam aderir ao fiqh tradicional como uma salvaguarda das vias e dos métodos dos antepassados competentes na dedução de decretos, e o desvio de tal via conduziria à heresia, e constituiria perigos enormes. Sua Santidade, o Imam, queria que as assembleias teológicas reformassem e mudassem dentro deste estrutura, da qual foi pioneiro. Ao emitir decretos revolucionários, o Imam abriu a porta a mudar o ângulo de perceção e a sua extensão aos problemas vitais e essenciais da sociedade e portanto reavivou os capítulos esquecidos da jurisprudência, e provocou de facto a inevitável intervenção de fatores do tempo e do espaço.

Imam Khomeini disse: “Nas visões de um grande jurisconsulto, o governo é a filosofia prática de toda a jurisprudência no âmbito completo da vida do homem. O governo representa os aspetos práticos da jurisprudência ao confrontar toda a escala das diferenças sociais, políticas, militares e culturais. A jurisprudência é a teoria verdadeira e total da gestão do homem do berço à cova”.

Com base em tal ponto de vista, Imam Khomeini elaborou a teoria da “Formação do Governo Islâmico com base na tutela do Jurista durante a Ocultação”, e perseguiu durante anos a sua realização. Apesar da teoria da tutela do jurisconsulto (velayat-e faqih), à parte as diferenças de pontos de vista que existiram acerca da extensão da autoridade do Vali-ye Faqih, ter gozado do consenso de opiniões dos jurisconsultos xiitas, as suas dimensões, no entanto, não foram adequadamente exploradas e a sua implementação prática não foi realizada no passado porque as condições não se encontravam dispostas para tal. Portanto, Imam Khomeini é a primeira pessoa em séculos que alcançou estabelecer um movimento religioso com base na liderança de mujtahid, jurisconsultos plenamente qualificados. Dos pré-requisitos para tal liderança encontram-se: auto-purificação e preservação, integridade, ingenuidade para a administração pública, audácia, justiça e perícia em jurisprudência islâmica e nas leis divinas. Imam costumava dizer: “O governo islâmico é o domínio da lei divina sobre as pessoas.”


[CONTINUA]


1  [N.T.] Peregrinação anual a Meca, a mais sagrada das cidades para os muçulmanos, é uma dever que deve ser levado a cabo por todos os muçulmanos que tenham capacidade para tal e que possam suster a sua família na sua ausência. A intenção de percorrer o caminho até Meca aplica-se tanto ao caminho físico percorrido, bem como à intenção interior de alcançar o Divino. Este é o maior evento anual de fé islâmica, apenas ultrapassado pela peregrinação á cidade de Karbala, em comemoração do martírio do neto do Profeta, Al-usayn ibn Ali ibn Abi Talib, às mãos de Yazid I.

2  [N.T] Jihad pode tanto ser entendida no sentido mais exterior, de guerra santa de ação militar e guerreira por via do combate físico ao infiel com vista a propagar a fé islâmica – al-jihad al-asghar, a Menor Jihad – bem como na aceção interior de combate interior de cada um às respetivas inclinações diabólicas com vista ao melhoramento individual tendente ao encontro com Deus – al-jihad al-akbar, a Grande Jihad.

3   Imam Hussayn, o terceiro Imam xiita, é o filho de Amir al-Mo’menin (‘a) e de Fatemeh (‘a), filha do santo Profeta. Nasceu no ano 4 A.H./625 D.C. em Medina. O seu treino inicial foi no colo do Profeta, nos ensinamentos do seu nobre pai e na sua presença prolongada nos eventos político-militares dos primeiros dias do Islão, e que melhor desenvolveram a sua distinta personalidade. Em 61 A.H./680 D.C., Imam Hosseyn, com um pequeno número de seguidores, levantou-se contra o domínio de Yazid I. A confrontação com o exército de dez mil homens de Yazid I ocorreu na terra conhecida como Karbala (no Iraque). Neste épico evento sanguinário, Imam Hosseyn e os seus homens, que totalizavam setenta e duas unidades, incluindo os seus filhos, foram martirizados e as suas famílias foram tomadas como cativas pelo exercido de Yazid I.

4  Sadrol Moteallehin Shirazi, também conhecido como Mulla Sadra (falecido em 1050 A.H./1640 D.C.), foi o fundador da hekmat-e motealliyeh (filosofia transcendental ou Sophia). A frase hekmat-e motealliyeh foi usada por Boo Ali (Avicenna) no seu livro Esharat mas a filosofia de Boo Ali não se tornou conhecida por este termo. Sadrol Moteallehin cunhou formalmente esta filosofia de hekmat-e motealliyeh e tornou-se conhecida por este termo. O método de Mulla Sadra é similar à escola do Iluminacionismo, isto é, acredita na mesma argumentação, intuição e revelação mas difere para com ela fundamental e conclusivamente. Na escola de Molla Sadra, muitos pontos da filosofia iluminativa e peripatética foram resolvidos. Também a diferença entre a própria filosofia e o misticismo e as diferenças entre filosofia e “kalam foram para sempre resolvidas. A filosofia de Safrol Moteallehin não é eclética. Antes, é um particular sistema filosófico na emergência do qual vários métodos Islâmicos de pensamento foram efetivados; no entanto, deve ser considerado como um sistema de pensamento independente. Molla Sadra digeriu tudo o que foi legado na área de filosofia dos antigos gregos, especialmente de Platão e de Aristóteles, e tudo o que foi explicado por filósofos islâmicos tais como Farabi, Avicenna, Sheykh-e Eshraq, e/ou pela sua própria iniciativa, foi acrescentado à filosofia, e tudo o que os grandes místicos, pela sua intuição interior e pelo poder do misticismo descobriram. Molla Sadra então engendrou desde o início uma nova fundação e baseou-a em prontos e impregnáveis comandos e princípios. De ponto de vista da argumentação e da prova, ele deu aos problemas filosóficos – como aqueles da matemática – uma tal ordenação que eles podem ser derivados e aduzidos uns dos outros e, fazendo-o tal, resgatou a filosofia dos dispersos modos de raciocínio e de argumentação.

5  Hossseyn ibn Mansoor, também conhecido por Hallaj, é um dos místicos do terceiro século A.H. (309 A.H./922 D.C.). Ele foi detido e preso durante anos por conta das suas crenças, e finalmente o ulama emitiu um decreto declarando que ele merecia a morte. Sofreu mil chicotadas, as suas mãos e pés foram decepados, o seu corpo queimado e atirado ao rio Tibre (em Baghdad). A acusação contra ele levantada, que se manteve nas mentes, foi a de que, em estado de transe místico, gritou “ANAL-HAQ” (Eu sou a Verdade ou Deus). [N.T.]


6. [N.T.] Fiqh constitui o entendimento e a aplicação concreto da Lei Sagrada – Sharia – como revelada no Corão e nos ensinamentos do Profeta. A fiqh é o entendimento humano da Sharia, sendo portanto mutável e falível, e é interpretada por juristas islâmicos por via de fatwas.

Mensagem ao Povo Iraniano

  Não é fácil habitar no Irão. Desde há décadas este país é o local de variados episódios que testaram as fibras da nação e a capac...