Wednesday, January 3, 2018

A Falácia da Razão

  


O psicólogo habita os subúrbios da alma, como o sociólogo a periferia da sociedade (Nicolás Gómez Dávila, ‘Escolios A Un Texto Implícito’)

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Desde o iluminismo renascentista os principais pensadores ocidentais acreditaram que por intermédio da reflexão dita racional, o homem, sem necessitar de apelar a quaisquer outras muletas humanas ou divinas, poderia alcançar conclusões tendencialmente perfeitas que lhe permitiriam atingir a realização plena na vida individual e comunitária.

A razão, já então força motriz das ciências naturais e das técnicas de produção e transformação, foi elevada à categoria de guia único  também das decisões individualísticas, da moralidade, dos sistemas espirituais e de todas as ideologias políticas e filosóficas nascidas no pós Revolução Francesa.

E se, no processo, os resultados do exercício da mesma não corresponderam ao desejado, tal se deveu, dizem os racionalistas, ao facto da razão ainda não ter sido estabelecida na sua plenitude, pois, ora a execução da mesma foi imperfeita e obedeceu ainda a critérios irracionais, ou ainda subsistem nos homens farrapos civilizacionais do tipo arcaico e supersticioso que precludem a implementação do Jerusalém racional.

Mesmo após centenas de anos da sua implementação progressiva - descontando a circunstância da razão ter servido de base à criação dos sistemas mais opressores que o homem conheceu - nas sociedades autoproclamadas livres de hoje, onde a razão é propagada com mais alarde, parece claro que a felicidade humana e o bem-estar ainda estão longe de serem alcançados e tais objetivos aparecem cada vez mais aos respetivos cidadãos como quimeras fátuas.

É de realçar que é nestas sociedades humanas que cada vez mais se interioriza a impressão de que tal felicidade e respetiva busca de sentido pela razão são desideratos fúteis e, se não impossíveis, no fundo nem merecedoras de uma consecução séria face ao absurdo da vida – conclusão também racional, por paradoxal que à primeira vista tal pareça. Não admira que a atual subsistência vegetal do moderno, baseada no consumismo e na busca de felicidades e êxtases temporários, esteja encimada nesta conceção niilista da vida onde a existência terrena terá de ser gozada ao máximo, pois não possui qualquer significado de outra ordem.

É digno notar que a sacrossanta razão é-nos apresentada como um dado de facto; algo que existe por si, que deve ser almejada pelo aventureiro-homem que busca a perfeição. Pois desconstruamo-la. E desde já avisamos o leitor donde vimos: a razão, como os modernos a entendem, é, em si, um mito. Ela pura e simplesmente não existe. Existem os pensamentos, existe o cérebro, existem os cálculos e as elucubrações mentais, existem juízos de valor, existe a análise do meio natural em que o homem se insere – não existe razão entendida como ente moral autónomo.

Teceremos algumas considerações que alumiarão o caminho. Só o facto de podermos pensar a razão e percebermos que pode ser usada como instrumento, permite-nos colocar fora do seu âmbito - a razão não é um fim em si mesmo. O homem utiliza a dita nos seus desideratos práticos de tentar compreender o meio-ambiente, externo e interno, apenas e tão-só. Para qualquer outro tipo de considerações de categoria eticamente superior, como por exemplo o estabelecimento de um modo de vida ou a razão da existência, obedecer-se-á sempre a considerações éticas, de natureza variada - claro está - que a razão, por sua vez, permitirá explicitar e compreender - ou julgar compreender.

Não é pois de admirar que pessoas das mais elevadas inteligências tenham conceções de vida e de significado da existência as mais díspares. Vejam-se os exemplos de um Trotsky e de um C. S. Lewis, no século XX. O primeiro usou a razão para fundamentar a sociedade comunista ateística mundial; o segundo, para fundamentar a existência de Cristo e o propósito da Igreja Católica Romana. Em ambos os casos, houve considerações de ordem extra-racional que serviram de base ao posterior uso da razão. Tanto Trotsky como Lewis não podiam, como ninguém pode, demonstrar racionalmente a existência ou a ausência de Deus. Estas são conceções a-priori cujo ‘racionalismo’ vai depois justificar e elaborar. A razão é tão só o método da elaboração interior – primeiro, por via do pensamento – e exterior – posteriormente, por via da fala, gestos, escrita, etc. – de conceções que o indivíduo sente possuir no momento ou que intui. Portanto, haverá considerações externas à razão que determinarão indelevelmente as posteriores considerações racionais, mesmo que aquelas sejam falsas.

Tomemos o exemplo das ideologias modernas. Todas elas - capitalismo, socialismo, anarquismo, social-democracia, comunismo, libertarianismo, etc., têm uma coisa em comum – arrogam-se de serem racionais. Todas, teoricamente, ordenam o homem racionalmente e tomam o próprio ser humano como ente racional e atómico cuja existência é governada por decisões ditadas pela razão, sejam estas egoístas ou altruístas. Nestas ideologias, por muito que tal custe a alguns, não existem quaisquer injunções de tipo moral ou espiritual. Mesmo admitindo a conceção de que o homem não contém em si dimensões de ordem espiritual e que se reduz à sua natureza biológica, é por demais evidente, após alguma reflexão, que tais ideologias aplicam-se a um ser que não existe em parte alguma e que nada tem em comum com os homens terrestres.

Expliquemos. Partir do princípio que os homens se comportam racionalmente é considerar que a humanidade se encontra num estado perfeito de racionalidade. Assume, primeiro, que o homem é guiado apenas pela razão e, segundo, coarta à partida outras dimensões do homem, sejam elas as divinas – suprarracionais – sejam as mais rudes – as infra-racionais – onde incluímos aqui tudo o que são desejos, atavismos, espasmos físicos e mentais, irrequietações, superstições, necessidades biológicas, ambições, sonhos, medos, etc. Mais, assume apenas o estado mental do homem quando este se encontra acordado, e não reporta ao estado humano dormente ou ao sonambúlico, que são esquecidos ou considerados dispensáveis de qualquer atenção, o que não é de espantar já que estes são estados em que o homem não utiliza a razão como ela é hoje entendida, pese, grosso modo, ocuparem pelo menos um terço da nossa existência.

Basta olhar para os nossos hábitos diários para percebermos que a nossa vida apenas muito superficialmente é governada por fenómenos ditos racionais; se de todo, no limite. Ante-se aos tiques que a maioria dos nossos conhecidos mantêm quando os encontramos, seja o bater constante da perna, o nervosismo revelado nas expressões faciais ou o uso de reações e esgares nervosos que traem a fachada original. Note-se o constante correr dos pensamentos, preocupações e imagens que povoam o nosso cérebro no dia-a-dia quando não nos focamos seriamente num qualquer exercício mental ou físico que exija a nossa concentração total, que só a custo conseguimos manter durante períodos prolongados. Retenha-se como a nossa atenção divaga quase automaticamente e salta de assunto em assunto, de pensamento em pensamento, involuntariamente, quando estamos ‘distraídos’. Para não falar dos nossos modos de comportamento, que rapidamente adaptamos de acordo com a pessoa que fala connosco ou da circunstância particular, quase inelutavelmente, ou dos humores variados que experimentamos durante o dia, onde momentos de serenidade são facilmente entremeados por angústias e estados de preocupação, que temem em aparecer mesmo em circunstâncias que julgamos conducentes ao nosso bem-estar. E que dizer das reações instintivas que temos quando nos assustamos ou experimentamos situações limite de existência, que traem o que jaz de mais irracional e subterrâneo no nosso substrato vital. Se nos começamos a aperceber do que boia no nosso fundo existencial, rapidamente notaremos que a maior parte das nossas ações internas e externas - por muito que tal choque o cidadão médio ocidental que julga viver na era iluminada racionalista - são ditadas por fatores irracionais, cuja propalada razão é, na maior parte dos casos, mero subproduto. A própria constatação de que gastamos grande parte da nossa existência em atividades supérfluas, quando não contraproducentes e nefastas para o nosso bem-estar, demonstra claramente que o nosso comportamento raras vezes é determinado  por ela.

E não se pense que tal se limita a atos individuais da nossa vida íntima. Na decisão de comprar determinado bem qual a percentagem que devemos alocar a considerações meramente ‘racionais’, em comparação com outras influências, a maior parte das quais nem temos consciência, ou das quais possuímos tão-só o mais leve dos pressentimentos? Se formos sinceros, perceberemos que a aparência do objeto desejado, a moda do momento, a astúcia e a simpatia do vendedor, a pressão da altura, o estado de ânimo, a vaidade e um sem número de outras considerações inconfessáveis, mais ou menos intuídas, contribuem numa proporção tão preponderante que o pretenso racionalismo praticamente se dilui e aparece mais como um fator pós-facto de ‘racionalização’ para os outros e, inclusive, para o próprio. Mais, a própria decisão de adquirir determinado bem, como todas as outras decisões da vida, partilhará igualmente de um conjunto de componentes éticas e sub-racionais superiores ao que gostaríamos de admitir. Se tal não fosse o caso, duas pessoas, partilhando exatamente as mesmas componentes materiais, biológicas e circunstanciais, escolheriam sempre o mesmo bem. Tal só acontece por acaso, como é óbvio, já que as razões das nossas decisões contêm no substrato um imensa cadeia de fatores, cuja impenetrabilidade é mastodôntica.

O mesmo tipo de raciocínio pode ser transplantado a montante para as organizações coletivas onde a cadeia de fatores e de correlações conducentes às respetivas decisões e ações é exponencialmente mais complexa. Pensar que instituições comunitárias, empresas e governos possuem uma qualidade autónoma racional é mais uma das ilusões sob a qual vive o homem ‘racionalizado’. O que constitui a ação externa destas organizações não é em menor grau o reflexo dos apetites e dos instintos dos respetivos componentes humanos acima mencionados.

Portanto, mesmo a racionalidade de uma decisão ou pensamento, quaisquer sejam, é sempre o produto final - e o mais exterior - de todo um processo, que, mais uma vez, se apenas nos limitarmos às circunstâncias terrestres, não constituirá mais que o culminar de toda uma teia emanharadísssima de fatores, a esmagadora maioria dos quais, infelizmente, não estamos conscientes. Perceber que estes fatores estão fora do nosso controlo e só muito a custo, alguns, poderem ser compreendidos, é suficiente para intuir as amarras que constringem o ser humano e as suas ações, o como somos sempre ‘atuados’ de algum modo e o quão fátuo é falar da independência e da liberdade racional de cada indivíduo.

O esquecimento de tal não pode senão ter efeitos perversos na conduta individual e social, como é flagrantemente o caso nos tempos que vivemos. Não é de espantar que a elevação da razão humana a guia supremo - e, cada vez mais, único - da mundividência moderna coincide com o período em que observamos os instintos mais básicos a guiarem as ações do homem; sempre, como é óbvio, enroupados nos slogans do racionalismo, do livre-arbítrio e da liberdade individual. A razão humana é o artifício onde campeia a exploração do homem pelo homem, onde as relações humanas mais são ditadas pelos instintos de domínio animalesco e primitivo, onde os apetites mais inconfessáveis se propagam.

As antigas normativas comunitárias, vistas pelos modernos como fardos escravizantes impostos pelo forte ao fraco, mais do que limitadores da individualidade, eram vistas como necessárias e desejáveis, tendo em vista não a exploração do homem oprimido, como hoje nos é ensinado, mas a salvaguardar o homem de si próprio, ou do que nele subsistia de irracional. Elas tinham a sua razão de ser numa conceção muito mais realista e profunda da natureza humana, que sabia que o homem verdadeiramente livre era a exceção, não se encontrando tal fora de uma seleta elite de espírito ou de vocação. O líder, antes de poder exercer a sua soberania e autoridade sobre os respetivos sujeitos, teria que exercê-la sobre si próprio, não de modo meramente exterior, mas de um modo absoluto, ontológico mesmo. E mesmo que tal não acontecesse ou não fosse já possível, tal era a justificação longínqua da sua autoridade.

Deste ponto de vista, não choca que antigamente todas as relações sociais se baseassem nos mais estritos códigos e formalismos, desde os círculos institucionais e sociais até aos familiares e íntimos. O controlo da postura, a importância dos rituais, os formalismos requeridos no dia-a-dia, o desprezo pelo livre-pensamento e pelas divagações de tipo individualista sempre estiveram presentes em todas as grandes civilizações antigas – de cujas hoje apenas herdamos alguns ‘hábitos’ e ‘costumes’, entendidos cada vez mais como anacrónicos - que viam nestas injunções os meios necessários para a elevação humana e libertação da condição animalista do homem, que, deixado aos seus meios - incluindo à sua racionalidade - não conseguiria ‘salvar-se’ de si próprio.

Esquecidas que estão as causas de tais modos de existência, vemos hoje o ser humano, diminuído à sua condição de mero ser pensante, racional, subsistir cada vez mais prenhe dos seus apetites, medos e ambições. As relações humanas, que dantes se estabeleciam num quadro de formalismo, são hoje exercidas como instrumento dos seus instintos rebaixados, onde o homem estabelece contacto com outros seres por via da ambição ou dos instintos egoístas, quando não da auto-preservação. Ninguém nota a coincidência de, numa altura em que racionalmente nos afirmarmos todos iguais e merecedores do mesmo respeito e dignidade, os homens e as mulheres se juntarem com base na aparência física e no mero desejo sexual, ou que as relações sociais se baseiem no interesse egoísta, comum e individual? Ou das organizações humanas serem usadas por homens ambiciosos que, antes de servir, procuram servir-se delas? Onde os seres formam camarilhas de poder em que os mais astutos e manipuladores regem outros que a eles se submetem e dos quais dependem do ponto de vista material e financeiro? Como também é uma coincidência que os horizontes humanos se tenham limitado cada vez mais a ver no mundo apenas um local temporário de diversão, no fundo, sem muita diferenciação para com o jardim zoológico onde um grupo de macacos habita? Em que tudo o que antigamente servia para elevar o homem e afastá-lo da sua natureza animal é visto como retrógrado e obscuro? Tudo isto racionalmente!

A avaliar pelos resultados, fica claro que o objetivo profundo do estabelecimento do discernimento racional como critério único da decisão humana não é um fim em si mesmo, mas, como acima referimos, possui uma componente ética e mesmo espiritual prévia, que consiste primariamente na revolta contra o pensamento antigo que estabelecia o divino como base, não só da existência, como da respetiva conduta. E sendo o pensamento racional, como acima afirmamos, neutro em si mesmo, estabelecem-se assim, consciente ou inconscientemente, vias de conduta para o surgimento de influências que, não sendo guiadas de cima, sê-lo-ão necessariamente de baixo.


Não nos iludamos ao pensar que os acasos existem. O destino da humanidade é algo muito sério e importante para ser deixado ao livre-arbítrio ou ao acaso; tal nunca aconteceu nem nunca acontecerá. Vemos com grande preocupação o atual estado para o qual a humanidade se precipita, pois não estando consciente que se encontra sob o domínio de um mito falso – o da razão – mais facilmente será guiada para propósitos obscuros por mais altas inteligências, hoje soberanas.

1 comment:

  1. De facto, é interessante considerar a "sacrossanta" razão como meio/instrumento, ao invés, de um fim em si mesma. O ordenamento racional está à vista de todos, nas dimensões várias da nossa vida, basta sermos capazes de retirar tais conclusões.
    O tema do mito da razão, embora complexo e intangível qb, pode no entanto, do meu ponto de vista, colidir com a acepção - quase dogma - do ser humano tido enquanto ser eminentemente social (que, no limite, é um produto daquela) pois as decisões, as organizaçoes colectivas, ou até os hábitos e costumes, são quase sempre implementados num contexto socialmente aceite, i.e., determinados pela "maioria da razão".
    Abr,
    Jc

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