Tuesday, January 2, 2018

A Impostura Psicológica



Segue-se a tradução do inglês do ensaio do Mestre da Tradição Frithjof Schuon, originalmente dado à estampa em 1966 no jornal ‘Études Traditionelles’ e em 1986 traduzido para inglês e incluído como um capítulo do ‘Survey of Metaphysics and Esoterism’, intitulado ‘A Impostura Psicológica’.

Parece-nos de importância maior deixar aos nossos leitores este pequeno texto que delineia as críticas fundamentais à moderna psicanálise nas suas várias vertentes.

Esta funciona como real instrumento subversivo que, como outros, é sintoma e causa do ataque á verdadeira espiritualidade e grilhão do encurralamento do homem moderno em conceções mentais que garantem a sua vegetação nas possibilidades mais vis do seu ser.

Dos vários argumentos lançados pelo Mestre, destacamos dois: o da falsidade da psicanálise se debruçar sobre assuntos novos que os antigos desconheciam; o da psicanálise servir, não para elevar o homem na sua componente divina, mas para procurar soluções ‘práticas’ que lhe permitam sobreviver no horizonte rebaixado e limitativo que é representado pela mundividência moderna, que concebe o ser humano ao nível da mera realidade biológica.

Sendo o moderno culto da psicanálise e da psiquiatria um dos que mais permeiam, direta e indiretamente, ativa e passivamente, a mentalidade coeva no mundo ocidental, incluindo uma grande parte da respetiva esfera religiosa, e principalmente pelos efeitos perversos que tal acarreta, contamos em breve deixar mais textos que expõe a crítica tradicional a tais conceções, cuja refutação liminar é condição sine qua non do despertar futuro.

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O que cunhamos por ‘psicologismo’ é a tendência para reduzir tudo a fatores psicológicos e colocar em questão não apenas o que é intelectual ou espiritual – o primeiro relacionado com a verdade e o segundo com a vida na e pela verdade – mas também o espírito humano como tal, e com ele a sua capacidade de adequação e, ainda de forma mais evidente, a sua interior ilimitação e transcendência. Esta mesma tendência depreciativa e verdadeiramente subversiva invadiu todos os domínios que o ‘cientismo’ reclama abarcar, mas a sua expressão mais aguda é encontrada sem dúvida na psicanálise. A psicanálise é ao mesmo tempo um ponto de chegada e uma causa, como é sempre o caso com as ideologias profanas, como o materialismo e o evolucionismo, das quais é realmente uma ramificação lógica e fatal e um aliado natural.

A psicanálise merece ser classificada como uma impostura duplamente, primeiro porque finge ter descoberto factos que sempre foram conhecidos e nunca poderia ter sido senão conhecidos, e segundo - e principalmente – porque arroga para si funções que na realidade são espirituais, e portanto assume praticamente o papel de uma religião. O que é chamado de ‘exame de consciência’ ou, pelos muçulmanos, de ‘ciência dos humores’ (‘ilm al-khawātir), ou ‘investigação’ (vichara) pelos hindus – com uma significação ligeiramente diferente em cada caso – não é outra coisa que não uma análise objetiva das causas próximas e distantes dos nossos modos de atuar e de reagir que repetimos automaticamente sem estarmos conscientes dos seus motivos reais, ou sem discernir o caráter real desses motivos. Pode acontecer que um homem habitualmente, ou cegamente, comete os mesmos erros nas mesmas circunstâncias, porque carrega consigo, no seu subconsciente, traumas, ou erros fundados na autoestima. Para ser curado, ele deve detetar estes complexos e traduzi-los em fórmulas claras; ele deve portanto tornar-se consciente dos erros subconscientes e neutralizá-los por via de afirmações contrárias; se ele sucede, as suas virtudes tornar-se-ão mais lúcidas. É neste sentido que Lao-Tzu disse: ‘Sentir uma enfermidade é não mais possuí-la’; e a Lei de Manu diz: ‘Não existe água purificadora que se compare com o conhecimento’, isto é, com a objetificação pela inteligência.

O que é novo na psicanálise, e o que lhe dá uma originalidade sinistra, é a sua determinação em atribuir cada reflexo e cada disposição da alma a causas triviais e em excluir fatores espirituais, daí a sua notória tendência para ver saúde no que é lugar-comum e vulgar, e neurose no que é nobre e profundo. O homem não consegue escapar neste mundo de provas e tentações; a sua alma é então marcada com algum tipo de tumulto, a menos que seja de uma serenidade angélica – o que ocorre em arredores altamente religiosos – ou, pelo contrário, a menos que seja de uma inércia inamovível, que por todo o lado ocorre. Mas os psicanalistas, em vez de permitirem que o homem faça o melhor do seu desequilíbrio natural, e em certo sentido providencial – e o melhor é tudo aquilo que seja vantajoso para o seu destino final – tende pelo contrário a trazê-lo de volta a um equilíbrio amorfo, como se alguém desejasse poupar um jovem pássaro às agonias da aprendizagem ao cortar-lhe as asas. Falando analogamente: se um homem se sente angustiado por uma enchente e procura um meio de se lhe escapar, os psicanalistas removeriam a angústia e deixariam o paciente afundar-se; ou de novo, em vez de abolir o pecado, abolem o sentimento de culpa, permitindo portanto que o paciente se encaminhe serenamente para o inferno. Isto não é dizer que nunca acontece um psicanalista descobrir e dissolver um complexo perigoso sem ao mesmo tempo arruinar o paciente; mas estamos aqui preocupados com o princípio, no qual os perigos e os erros envolvidos sobrepesam sobremaneira as vantagens contingentes e as verdades fragmentárias.

Como resultado, para um psicanalista médio um complexo é mau por ser um complexo; ele recusa-se a ver que existem complexos que honram o homem ou que lhe são naturais por virtude da sua deiformidade, e consequentemente que existem desequilíbrios que são necessários, e que devem ser resolvidos por cima de nós e não por baixo.1 Existe um outro erro que é fundamentalmente o mesmo: é o de considerar um equilíbrio bom por ser um equilíbrio, como se não existissem equilíbrios feitos de insensibilidade ou de perversão. O nosso próprio estado humano é um desequilíbrio, já que estamos existencialmente suspensos entre contingências terrestres e os chamamentos inatos do Absoluto; ver-se livre de um nó psíquico não é o todo da questão, deve também saber-se como e porque é que se deve livrar-se dele. Não somos substâncias amorfas, somos movimentos que são no princípio ascensionais; a nossa felicidade deve ser proporcionada à nossa natureza total, sob pena de nos rebaixarmos à animalidade, pois uma felicidade sem Deus é precisamente o que o homem não consegue aguentar sem se sentir perdido. E tal é a razão de um médico da alma dever ser um pontifex, e portanto um mestre espiritual, no devido e tradicional sentido da palavra, um profissional profano não tem nem a capacidade de ser nem, consequentemente, o direito de interferir com a alma para além de tais dificuldades elementares cujo simples senso comum pode resolver.

O crime espiritual e social da psicanálise é então a sua usurpação do lugar da religião ou da sabedoria que é a sabedoria de Deus, e a eliminação dos seus procedimentos de todas as considerações do nosso destino último; é como se, sendo incapaz de lutar contra Deus, se atacasse a alma humana que Lhe pertence e que Lhe está destinada, ao rebaixar a imagem divina em vez do seu Protótipo. Como qualquer solução que evade o sobrenatural, a psicanálise substitui à sua própria maneira o que abole: o vazio que produz pelas suas destruições intencionais e não-intencionais expande-o, e condena-a a postular um infinito falso ou a funcionar como uma pseudo-religião.

Em ordem a desenvolver-se, a psicanálise necessitava de um solo favorável, não apenas do ponto de vista das ideias, mas também do ponto de vista do fenómeno psicológico: isto significa que os europeus, que sempre foram de um tipo cerebral, tornaram-se infinitamente mais aproximadamente nos últimos dois séculos; hoje, esta concentração de toda a inteligência na cabeça é algo excessivo e anormal, e as hipertrofias a que dá origem não constituem uma superioridade, apesar da sua eficiência em certos domínios.

Normalmente a inteligência deveria residir, não apenas na mente, mas também no coração, e dever-se-ia também espalhar pelo corpo, com é especialmente o caso dos homens que são apelidados de ‘primitivos’ mas que são inegavelmente superiores em certos aspetos em relação aos ultra-civilizados; seja como for, o ponto que desejamos fazer é o de que a psicanálise é em larga mediada o resultado de um desequilíbrio mental geralmente mais ou menos prevalente num mundo onde a máquina dita ao homem o ritmo da sua vida, e, o que é ainda mais sério, o que a sua alma e o seu espírito devem ser.

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A psicanálise efetivou uma entrada mais ou menos oficial no mundo dos ‘crentes’, o que é de facto um sinal dos tempos; isto levou à introdução na auto-intitulada ‘espiritualidade’ de um método totalmente incompatível com a dignidade humana, e ao mesmo tempo estranhamente contradizendo as pretensões de ser ‘adulto’ ou ‘emancipado’. As pessoas brincam a serem semi-deuses e ao mesmo tempo consideram-se irresponsáveis; à mínima depressão, causada tanto por uma vivência demasiadamente agitada, ou por um modo de vida demasiado contrário ao senso comum, as pessoas correm para o psiquiatra, cujo trabalho consistirá em insinuar nelas algum falso otimismo ou em recomendar algum pecado ‘libertador’. Ninguém parece ter nem um vago pressentimento do facto de que existe apenas um equilíbrio, designadamente aquele que nos fixa no nosso centro verdadeiro e em Deus.

Um dos efeitos mais odiosos da adoção do método psicanalítico pelos ‘crentes’ é como o culto da Virgem Maria caiu em desfavor; só uma mentalidade bárbara que quer ser ‘adulta’ a todos os custos e já não crê em nada que não seja trivial embaraçar-se-ia por este culto. A resposta à censura de ‘ginecolatria’ ou de ‘complexo de Édipo’ é a de que, como todos os outros argumentos psicanalíticos, evita o problema; pois a verdadeira questão não é o que a acondicionação psicológica de uma atitude possa ser, mas pelo contrário, quais são os seus resultados. Quando por exemplo se é dito que alguém escolheu a metafísica como um ‘escape’ ou como uma ‘sublimação’ e por causa de um ‘complexo de inferioridade’ ou de uma ‘repressão’ tudo isto não é de qualquer importância, pois abençoado seja o complexo que é a causa ocasional de uma aceitação da verdade e do bom! Mas há também isto: os modernos; cansados que estão da suavidade artificial com que a sua cultura e a sua religiosidade é levada desde o período barroco, estendem a sua aversão – como é seu hábito – a toda a doçura e sensibilidade legítima, e portanto fecham-se, seja de uma dimensão inteiramente espiritual, se são ‘crentes’, ou até de toda a genuína humanidade, como é demonstrado por um determinado culto infantil da vileza e do barulho.

Além disso, não é suficiente perguntar qual a particular devoção apropriada em almas particulares, deve-se também perguntar o que se lhe deve substituir; pois o lugar de uma devoção suprimida nunca se mantem vazio.

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‘Conhece-te a ti mesmo’ (Helenismo) diz a Tradição, e também ‘Aquele que conhece a sua alma conhece o seu Senhor’ (Islão). O modelo tradicional do que a psicanálise deve ser, ou proclama ser, é a ciência das virtudes e dos vícios; a virtude fundamental é a sinceridade e coincide com a humildade; quem se aprofunda na busca da verdade e da retitude na sua alma acaba por detetar os nós mais subtis do inconsciente. É desnecessário procurar curar a alma sem curar o espírito: o que conta em primeiro lugar é aclarar a inteligência dos erros que a pervertem, e então criar uma fundação com vista ao retorno da alma ao equilíbrio; não apenas qualquer equilíbrio, mas ao equilíbrio cujo princípio a alma carrega consigo.

São Bernardo disse que a alma arrebatada é uma ‘coisa abjeta’ e Mestre Eckhart exorta-nos a ‘detestá-la’. Isto significa que o grande remédio para todas as nossas misérias interiores é a objetividade em direção a nós mesmos; agora a fonte, ou o ponto de partida, desta objetividade encontra-se situado acima de nós, em Deus. Aquilo que está em Deus é por essa razão refletido no nosso centro transpessoal que é o puro Intelecto; isso é, a Verdade que nos salva é parte da nossa substância mais íntima e real. Erro, ou impiedade, é a recusa de ser o que se é.



1. ‘…porque te é melhor que um dos teus membros se perca do que seja todo o teu corpo lançado no inferno.’ (Mateus, V,29).

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