Monday, December 18, 2017

Folhas Soltas (1)




O pseudo-progressista de mente aberta é o menos clemente e tolerante contra aqueles que ofendem o mantra social do momento.


A reação de progressistas quando confrontados com o comportamento mais lascivo dos seus representantes masculinos para com as mulheres: precisamos de mais progresso!


No que toca a todos os empreendimentos progressistas, seria ótimo saber qual o ponto de chegada em que estes não mais serão requeridos.


Qual é o estado de perfeição das relações entre os sexos que os progressistas ambicionam?


O que jaz no fundo da atitude progressista não é o desejo de corrigir o mal de um ponto de vista mais elevado, mas essencialmente a rebelião de um espírito que avança a vileza do que já se encontra corroído.


A mentalidade de um progressista é a mais permeável à propaganda. Note-se o quão rápido ele absorve no seu léxico as mais recentes palavras de ordem, que depois vocifera aos outros: supremacia branca, homens feministas, patriarcado, ‘trigger words’, ‘brown people’, ‘safe spaces’, etc.


Curioso como progressistas e materialistas são os primeiros a mofar o conceito religioso do paraíso ao mesmo tempo que tudo fazem para recreá-lo na Terra.


Um homem feminista é uma de duas coisas: um homossexual ou um heterossexual que, devido a dúvidas relativas à sua masculinidade, insinua-se nas boas graças das mulheres por via da proposta de ideias que julga que lhes vão agradar, fingindo ser seu aliado.


Eu ia juntar-me ao movimento #metoo na internet, até que percebi que só se aplicava às vítimas.


De todas as falsidades modernas, aquela que postula a possibilidade de melhoramento da espécie humana, é a mais perigosa.


Afirma-se religioso mas considera que a religião se deve adaptar às novas descobertas científicas? Possui sintomas progressistas!


Considera-se um católico tradicionalista mas critica o Islão como um dos grandes males da atualidade? Possui sintomas progressistas!


É conservador e também enaltece o crescimento económico e industrial como prova da superioridade do Ocidente? Possui sintomas progressistas!


Denomina-se conservador enquanto apelida as outras grandes civilizações de bárbaras e antiquadas? Possui sintomas progressistas!


É um auto-intitulado conservador que promove a igualdade de género como prova da superioridade ocidental? Possui sintomas progressistas!


Pavoneia-se como conservador mas entra em histeria quando constata que certas sociedades ainda não permitem que as mulheres conduzam? Possui sintomas progressistas!


Afirma ser monárquico dos sete costados e ao mesmo tempo exalta a Suécia como um grande exemplo de como a monarquia pode subsistir no mundo atual? Possui sintomas progressistas!


Defende a monarquia e na mesma conversa afirma estar feliz por já não habitarmos na longa noite do período medieval? Possui sintomas progressistas!


Afilia-se publicamente à doutrina conservadora enquanto se afirma partidário da teoria da evolução? Possui sintomas progressistas!


Orgulha-se de ser conservador e tenta demonstrar como os atuais regimes constitucionais são prova controvertida da superioridade do Ocidente? Possui sintomas progressistas!


A superioridade do pensamento reacionário em relação ao progressista é intuída no momento em que se apercebe que o primeiro é o único que compreende ambos. Mais, previu o aparecimento do segundo!


A mentalidade progressista brota da ignorância total do que é fundamentalmente antigo e perene.


Nos modernos movimentos de justiça social contra a opressão branca, deteto um grande complexo de inferioridade.


Guerreiros de justiça social, acreditem quando vos digo que os brancos de hoje não são, de facto, melhores que vocês!


A moderna teoria evolucionária tem menos a ver com ‘ciência’ do que com o truncar as vias de acesso a estados superiores de ser.


O libertarianismo moderno é a teorização das ações económicas terrestres de seres que habitam realidades metafísicas superiores e, portanto, não terrestres. Uma heresia total!


No fundo do pensamento libertário, como no comunismo, jaz o profetismo apocalítico hebreu de criar o paraíso na terra, sublimado em bases puramente materiais.


Não é uma coincidência que Friedman, Rothbard, Ayn Rand, David Ricardo, Marx e Trotsky partilham a mesma origem e cosmovisão.


Esta é uma verdade 'protocolar' de primeira ordem, que permite entender correntes históricas e características mentais próprias do espírito subversivo que lhes deu origem.


Desaferroar homens que se encontram hipnotizados por tais construções mentais e espirituais é tarefa mastodôntica.


Qualquer ideologia ou ideia elevada que não é concebida para durar para toda a eternidade é, no melhor, inútil; no pior, o mal indizível.


A mentalidade capitalista é ainda mais iludida que a revolucionária comunista. Pelo menos a última nutria total desprezo pelas massas.


Não é de surpreender que os antigos regimes comunistas divinizassem e idolatrassem os seus líderes. Mesmo esse nível de baixa veneração não pode ser mantido nos dias de hoje.


A mente capitalista adora todo o tipo de homens que fornece matéria e satisfação. Ela não se preocupa com os valores que eles possam professar, já que estes tornaram-se anátema.


O capitalismo é em certo sentido uma subida de grau de satanismo em relação ao comunismo, já que abandona, inclusive, o objetivo de criar o paraíso na Terra, satânico o suficiente tal já fosse.


Os modernos socialistas e comunistas são apenas preguiçosos e invejosos capitalistas.


Se há algo transversal a toda a direita modernaça é a exaltação de qualquer tipo de exploração capitalista. No fundo, esta é a sua razão de ser...


Ela pensa que faz um serviço ao País ao defender formas de exploração económicas de massa, especialmente quando estas são encabeçadas por homens que ao País tem uma devoção circunstancial, se alguma.


O capitalismo é grosso modo a mentalidade calvinista aplicada a assuntos do Estado: a moralidade existe mas deve ser deixada à discrição do indivíduo e nenhuma alta autoridade deve regulamentar assuntos de fé.


Os proponentes do ‘mercado livre’ perdem a cabeça assim que certos grupos ou indivíduos usam-no para acomodar um estilo de vida não-ateístico.


Nunca deixa de surpreender a ingenuidade dos partidários da democracia que se espantam que um sistema que produz degenerescência tem degenerados como seus representantes.


O total desconhecimento do homem moderno das estruturas políticas pré-Revolução Francesa é, ao mesmo tempo, enternecedora e inquietante.


A verdadeira revolução não se operará quando as pessoas exigirem um Império, apenas quando elas ansiosa e devotamente se submeterem a Ele, à Ideia e seus Líderes.


Hoje em dia, reclamar especial herança por se pertencer a dada raça ou terra é como esperar herdar uma fortuna de um pai pobre e moribundo.


Espanto-me ao constatar que no universo de certa direita dita musculada que insultar e menosprezar o sexo feminino é uma das formas de acentuar ‘masculinidade’.


A propaganda progressista é tão eficaz que ainda hoje os conservadores se definem por copiarem a caricatura que a Esquerda deles faz.


Se apenas as pessoas imaginassem que existem ‘papéis’ que elas podem ‘representar’ além dos que são fornecidos pelo atual sistema!


A mentalidade burguesa deleita-se na ausência de qualquer ideal mais elevado que a sua auto-satisfação e bem-estar.


Como os nossos antigos comunas apoiavam tudo o que a URSS fazia, hoje os nossos liberais veneram os EUA e Israel. Que meninos mais bem comportados, todos eles!


Hungria e Polónia, países vistos por muitos como impertinentemente conservadores e, quiçá, ninhos de futuras ‘restaurações’, têm taxas de divórcio de 40%. O futuro é radiante!


 Apenas 2 tipos de pessoas acreditam que existem na Europa países capazes de verdadeira restauração reacionária: os que embarcam na histeria dos mass media; os que nunca lá viveram.


Quem vaguear pelas ruas de Budapeste à noite ou contactar com o húngaro médio, rir-se-á imediatamente do conservadorismo destas gentes.


De qualquer modo, não deixa de ser irónico que, passados 70 anos, esta estirpe de gentes, junto com a Polónia eslava, sejam agora vistas por certa direita como a ‘melhor esperança da Europa’.


Ainda mais graça tem a atual mitologização da Rússia e de Putin como a ‘Próxima Grande Esperança Branca’. De facto, a extrema-direita agarra-se sempre a qualquer coisa que mexa, especialmente fantasmas…


Qualquer restauração da Europa só se operará quando o europeu se libertar de todas as noções burguesas de família, trabalho, cultura, pensamento e religião.


A estrutura da família burguesa é um cancro que já produziu os frutos desejados, estando portanto a ser agora descartada a velocidade alucinante. O homem reacionário tem de ambicionar a mais!


Sugestão para restaurar a dignidade do Panteão Nacional: enterrar lá Marcelo e CR7. Já!


Não sem um certo gozo constato que o sacrossanto respeito pelo Panteão Nacional é partilhado pelas mesmas pessoas que aplaudiram a integração europeia.


Não sem um certo gozo constato que esse grande respeito é também compartido por aqueles que defendem a capitalização e liberalização da nossa vida.


E confesso o choque de constatar que um governo socialista não respeite os símbolos máximos da nossa soberania. Não é essa a razão da sua existência?!


A toda a malta indignada com a profanação do Panteão Nacional, não é esse o mesmo sitio onde ainda há pouco tempo enterramos um futebolista?


Pode-se tirar uma pessoa da servidão, mas muito raramente se retira o servo da pessoa. Facto! Apenas atente-se nos nossos líderes.


A hipocrisia de criticar os homossexuais por terem tendências pedófilas revela uma moralidade rígida aplicada à sexualidade e que, no fim de contas, apenas aceita a visão formalista e igualitária dos papéis sexuais burgueses.


Uma coisa será criticar comportamentos libertinos, outra é confundi-los com outras possibilidades de realização sexual e de interação comunitária que só relativamente há pouco tempo foram proibidas, na maioria dos casos devido a uma bem oleada mentalidade puritana e burguesa.


A limitação de idade para consentir relações sexuais, especialmente nas mulheres, é no fundo uma arma subversiva, por muito que tal doa aos nossos moralistas.


Quem é capaz de descortinar o que subjaz no ritualismo e captar a profunda diferença entre comportamentos decadentes e as antigas instituições sexuais, compreenderá o nulo valor daqueles e as mais elevadas possibilidades que as últimas abriam.


Acerca dos escândalos sexuais ecoados na comunicação social, constato a coincidência de tais ocorrerem numa época em que o conceito de cavalheirismo foi aniquilado.


A igualdade no relacionamento dos sexos cria promiscuidade de ambos os lados, voluntária e involuntária.

Thursday, November 30, 2017

O Espírito Burguês



O vazio não existe. Desde o início da existência da humanidade, o homem acreditou que a sua estadia terrena era ditada por correntes e influências espirituais que penetravam a sua vida individual e coletiva, o seu modus vivendi, seja este físico, psíquico ou divino. Mesmo o homem moderno, pese o seu intenso ‘realismo’ e de desdenhar o homem tradicional que acreditava no sobrenatural, crê e vive sob a influência de mitos e correntes psíquicas que ultrapassam a sua existência individual e definem os seus pensamentos e atitudes. E não falamos aqui somente dos nossos contemporâneos que se afirmam religiosos, pois basta fazer referência aos dogmas profanos atuais como o cientismo ou o progressismo, por ora reinantes, para perceber que – consciente ou inconscientemente – as ideias chaves de uma época não são aleatórias e obedecem a uma corrente psíquica que impregna a mentalidade dos coevos. Tomando o exemplo do mito evolucionista hoje tão predominante, um pouco de reflexão sob o seu modo de implementação na menta coletiva permite concluir que tal paradigma de entendimento não foi implementado por via da reflexão racional efetuada por mentes humanas individuais, ainda mais sabendo-se que tal conceção foi sempre estranha à grande maioria da humanidade terrestre até há poucos séculos atrás, incluindo às próprias elites governativas e educacionais anteriores.

Portanto, concebemos a história humana como que saturada por diversas correntes supra-humanas que a cada momento da existência permeiam as mentes dos seres que habitam a Terra. E se de facto uma corrente tiver uma maior preponderância num dado momento ou latitude, tal não significa que outras de sentidos opostos - ou inclusive com o mesmo sentido mas de direção mais extremada – não existam, tão só que apenas subsistem em estados mais latentes. Para exercerem efeito sobre a humanidade, não dependem somente delas mesmas, mas da aptidão – melhor diríamos, da disposição – dos seres humanos para as receberem e as potenciarem. E se concordamos que a maioria – a esmagadora maioria – da humanidade é agente passivo da história, existe necessariamente elites de homens, que, por ações e omissões, funcionam como conduto entre as forças sobre-humanas que lhes são afins e a Terra, veiculando aquelas e influenciando, assim, indiretamente, as atitudes mentais da época. E se uma corrente de pensamento efetua maior influência numa dada época do que noutra, tal se deve tanto a uma diminuição das conexões estabelecidas pelos representantes terrestres da que era anteriormente a predominante, como a uma correspondente intensificação da ativação de correntes de orientação distinta por parte de seres que as desejam atiçar para assim influenciarem conjuntos de populações mais ou menos alargados que se encontram sob a sua ‘alçada’.

Não querendo soar demasiado ‘esotérico’ nem assustar os nossos leitores ‘pragmáticos’, apenas gostaríamos de realçar na nossa introdução ao tema deste ensaio que, de facto, a todas as etapas da humanidade correspondem ideias-chave que determinam os respetivos comportamentos, como se cada época fosse dominada por um - à falta de melhor termo – espírito preponderante.

Se existe um espírito que domina a época atual, tal é o espírito burguês. Avisamos que tal nome não é de modo algum perfeito e contém falhas, e inclusive poderíamos adotar outras designações, inclusivamente com conotações religiosas, mas parece-nos que a designação escolhida encaixa na perfeição ao período histórico moderno, que vai do séc. XVI até aos nossos dias e que acentua o seu caráter particular numa maior corrente subversiva de duração infinitamente maior – a qual, se adotarmos uma perspetiva religiosa sob o mesmo tema, também se pode denominar por satânica.

O espírito burguês como força predominante no mundo Ocidental surgiu com toda a sua pujança durante o Renascentismo europeu, especialmente nas regiões de Inglaterra e da Europa Central e do Norte, que foram as primeiras que assistiram à ascensão do chamado Terceiro Estado às rédeas do poder político e cultural, formalizada politicamente pela Revolução Francesa de 1789.

Esta classe de seres, que até então viam a sua influência na sociedade limitada pelas antigas classes dominantes, deixou a partir desse momento de encontrar freio na sua usurpação dos aparelhos culturais, sociais, políticos, económicos, administrativos e religiosos. A tal usurpação muito contribuiu o surgimento da heresia do Luteranismo, que assentou de feição nestas mentes individualistas e economicistas que sentiam-se destinadas para comandar comunidades de homens onde a finança, o comércio e o mercantilismo já eram os valores supremos. Com o triunfo de Lutero e o reconhecimento do novo evangelho pelos poderes de então, as antigas instituições nobiliárquicas e clericais perderam a sua autoridade e o caráter individualista da sociedade acentuou-se, passando-se a enfatizar a busca terrena da felicidade individual, que na ótica burguesa correspondia fundamentalmente ao ato produtivo e mercantil com o intuito da criação de lucro e da acumulação de riqueza.

Procuremos então analisar a mentalidade da nossa época, encapsulada pelas características do seu arquétipo - o burguês.

O burguês tem como principal função da sua estadia terrestre, como é sabido, enriquecer, o mais que pode e consegue. Para ele, a consecução da riqueza terrena é fundamental como objetivo de vida e a ele vai devotar a maioria das suas forças e energias. O dinheiro, consequência visível e a medida deste sucesso, é o barómetro que lhe permite distinguir-se dos restantes seres humanos, e portanto procura-o tanto pelo reconhecimento do seu esforço e habilidade, como para usá-lo de novo como instrumento de multiplicação do mesmo, seja em investimento em capitais produtivos, seja para influenciar decisões favoráveis nesse desiderato. Considerações de inspiração divina e religiosa são extremamente raras nesta classe de seres, e se as há, coadunam-se e subordinam-se sempre ao exercício do seu mister comercial ou mercantil – que é a sua imagem de marca adquirida por via hereditária ou por uma ambição pessoal acentuada. Todas as suas relações sociais e modos de comportamento são guiados com este fim egoísta. Mesmo quando o bem comum é considerado – entendido por ele num sentido puramente materialista – subordina-se na esmagadora maioria dos casos à consecução da sua felicidade terrena.

O burguês não pratica a atividade pela atividade em si, mas sim pelo fim que esta lhe permite alcançar: acumulação de riqueza, que por sua vez granjeará maior acumulação de riqueza. Seja qual for a atividade (comercial, financeira, industrial ou agrícola), o burguês nunca a vê como fim mas sempre como meio. Ao contrário das classes nobres e clericais cujo fim da sua atividade era a atividade em si (guerra, administração, ascetismo, estabelecimento dos ritos, etc.), o burguês, como o escravo, visa o trabalho para obter um benefício material, que no limite se resume à mera sobrevivência terrena. Tudo o que é espiritual, cultural e social, é acessório à sua função essencial.

Esta perspetiva de vida cria uma visão maniqueísta do mundo guiada pelos interesses privados, em que imperam os instintos de sobrevivência e a competição por recursos limitados onde os outros seres que pertencem à sua comunidade são: ou potenciais aliados seus - sejam sócios de negócio, fornecedores ou clientes - ou inimigos - competidores comerciais ou representantes de frentes e de correntes ideológicas que podem criar barreiras á sua atividade mercantil e financeira. Assim, é-lhe imperioso cair nas boas graças de todos e de manter uma rede de contactos a mais alargada possível que lhe permita potenciar ao máximo as oportunidades de negócio e respetiva rede de relações comerciais, assim como aniquilar os competidores atuais e potenciais. O burguês sabe que quantos mais homens conhecer e possa influenciar – sempre por via material, que no fundo é o único móbil que o guia e que projeta em todos os elementos da sua comunidade – aumenta exponencialmente as suas hipóteses de fortuna, pelo que naturalmente devota interesse às atividades coletivas da sociedade que lhe permitam publicitar o seu nome e assim ganhar credo e favores junto de uma rede o mais extensa possível. Assim, o seu ativismo social é quase sempre público, incluindo as suas atividades caritativas, que na verdade, constituem para ele investimentos que lhe trarão benefícios a algum prazo.

Este esforço constante de agradar ao máximo número de pessoas possível, manter uma aparência de caráter e de comportamento necessárias para efetuar negócios e estabelecer relações de interesse, mesmo que tal não corresponda à sua disposição interior, são das características principais do burguês. Ele é um exímio projetador da disposição e da atitude que julga serem as mais adequadas ao ambiente e aos interlocutores do momento, já que de tal depende o seu sucesso comercial. Além disso, ele deve dominar as práticas do chamado marketing e da autopromoção, enaltecendo a todo o momento a superior qualidade dos seus produtos e serviços, comparando-as favoravelmente às dos seus competidores, que subtilmente menospreza. Neste contexto, mais que a verdade e a etiqueta, ele tem de se preocupar em criar na mente dos seus interlocutores o cenário que mais lhe é favorável, por meio de artifícios variados, que no limite não correspondem de todo à realidade. Manter as aparências é mister. Quando na presença de um potencial cliente, ele tem de apreender a disposição e os gostos do mesmo, assim como a respetiva estação social e económica, de forma a adaptar a sua postura e atitude, para poder cair nas suas boas graças com o intuito de aumentar as probabilidades de efetuar a venda. A busca incessante do lucro que consome a maior parte da sua vida mental, aliada ao medo da concorrência e da erosão da sua fortuna - que teme acima de tudo o mais - causam nele uma profunda inquietação e irrequietismo, pelo que é normal vê-lo num constante afã com as suas atividades comerciais, sempre projetando futuros cenários de expansão comercial e de poupança, que para sempre consomem a sua vida, mesmo quando já é abastado.

O burguês é na essência um cosmopolita, no sentido moderno do termo, já que a busca da sua felicidade individual e material é potenciada pela constante expansão do seu círculo social, seja de que estrato, condição e latitude este consista. Se pertence formalmente a uma nação ou a uma instituição coletiva regional, a sua ambição, refletida na expansão da sua atividade, obriga ao estabelecimento de contactos e relações permanentes com interlocutores e mercados estrangeiros, pelo que a sua lealdade às instituições de origem é sempre de ordem secundária àquela atividade da qual depende o seu modo de vida.

Mais do que conhecimentos teóricos, religiosos e filosóficos, ele preocupa-se sobretudo com conhecimentos técnicos da respetiva atividade a que se encontra associado ou que possam facilitar o estabelecimento de negócios, como línguas estrangeiras, contabilidade, finanças, gestão, ou a criação de códigos e linguagens comerciais que reduzam ao máximo as barreiras mercantis. E do mesmo modo que pratica a sua atividade, ele apreende este conhecimento com o desiderato principal de assim obter mais vantagens materiais. A sua necessidade de conhecimento, limita-se quase sempre ao que de mais prosaico existe, resumindo-se na maior parte dos casos à coleção das notícias e factos que lhe permitam conceber uma ideia ou uma previsão de como navegar as águas turvas em que se movimenta na sua atividade comercial. Mesmo nas suas demandas mais intelectuais, raramente busca o conhecimento pelo conhecimento, pois quase sempre se dedica a algo que o possa beneficiar materialmente ou que lhe permita impressionar o seu círculo de relações. Mais que ser, o parecer continua a imperar.

O espírito burguês é essencialmente democrático, por várias ordens de razões. Primeiro, o burguês liberto detém um caráter subversivo, já que nutre dentro de si, originalmente ou por herança familiar, ressentimentos para com as classes que anteriormente se encontravam mais elevadas na hierarquia social – realeza, nobreza ou clérigo. Ele, quando não integrado em estruturas hierárquicas fortes e vivificadas, desconfia daquelas e vê como injusta a sua antiga ou ainda presente condição de subordinação – do seu posto, só observa a plebe do alto – e desdenha as tradições daquelas, que concebe somente como formalismos vazios pois, no fundo, sente-se inferiorizado pela mais elevada dignidade de porte que pressupõe uma superioridade que não é somente material, no fundo a única que o burguês e a plebe conhecem. O burguês, em todos os lugares em que se libertou dos grilhões da Tradição, aboliu as classes sociais superiores ou tentou usar a sua fortuna e influência para se lhes juntar, sinal já do ocaso eminente daquelas. Por outro lado, o burguês, vendo em todos os seres potenciais clientes ou parceiros de negócio, apreende a sociedade como um conjunto de seres qualitativamente iguais, mesmo que apenas formalmente. Qualquer distinção hierárquica ou imposição à liberdade individual é vista com desconfiança já que afetará a sua capacidade de expansão comercial e margens de lucro. Por outro lado, sendo a sua vida estabelecida à volta de contratos de compra e venda e de relações que se baseiam não na palavra dada ou na honra, mas na vontade escrita e legalmente ou judicialmente demandável - pois de tal depende a sua subsistência num mundo mercantilizado – tende naturalmente a expandir esta mundividência a toda a vida social e política. Partindo da sua vivência interior e dos hábitos que adota nos seus relacionamentos, concebe que todos os seres humanos são passíveis de faltar à palavra dada, pelo que cabe contratualizar o máximo de relações possíveis, maximizando assim a possibilidade do cumprimento das mesmas. Porém, o idealismo político da mente burguesa, que no fundo tem sempre um substrato utilitário, esbarra em todas as ocasiões em que as circunstâncias políticas ou económicas do momento ameaçam perturbar o seu modo de sustento. Em tais casos, quando se depara com uma oportunidade de negócio que só pode ser obtida por via política ou administrativa, ele não tem pejo em usar de táticas ilegais ou contrárias à ideologia coletiva que professa, já que, no final de contas, a sua ambição de sucesso comercial e social sobrepõe- se às convicções políticas e espirituais a que adere num dado momento, das quais se desenvencilha assim que tal se lhe depara como mais conveniente.

A visão contratualista e legalista do mundo e da vida vai efetivamente criar sistemas ideológicos que, por um lado, veem o bem privado como algo fundamental a proteger, que deve ser preservado a todo o custo da cobiça de terceiros, e que, por outro, minimizam a influência de órgãos superiores nas vontades individuais e comerciais. Este contratualismo estende-se obviamente ao seio das suas empresas e ofícios, onde, na pele de administrador de homens - vistos como meros recursos produtivos destituídos de verdadeira personalidade – uniformiza o mais possível as relações entre os trabalhadores e o detentor do capital, descurando sempre que pode as distinções qualitativas entre os homens, para focar unicamente as quantitativas (sejam físicas ou mentais) que contribuam para o maior sucesso da empresa, com a correspondente diferenciação na componente salarial de cada indivíduo, que adquire correlação com a componente produtiva. E se a exploração do fator humano na empresa mercantil é apresentado pelo burguês como sinal da sua fundamental bondade e dedicação à causa pública, justificando assim a busca crescente de mais e mais lucro, ele é o primeiro a implementar métodos de produção cada vez mais desumanos e duros, a deslocalizar empregos ou a automatizar por via mecânica e tecnológica a produção desde, quando tal lhe é mais benéfico.

Por outro lado, o burguês é essencialmente um produto do seu tempo, em todas as áreas, assumindo sempre publicamente as posições e as atitudes dominantes da comunidade. Ele vai sempre projetar-se para os outros como um esteio dos ‘melhores’ valores e conceções do momento, obrigação que estende aos elementos do seu círculo familiar mais próximo, cuja atividade e reputação podem igualmente afetar as suas atividades mercantis. E será sempre ele, seja em capacidade oficial ou como cidadão privado, a promover publicamente a moralidade reinante, os costumes sociais considerados de bom-tom ou os valores assumidos pela maioria dos concidadãos. Nunca o burguês toma publicamente posições radicais ou consideradas extremistas, já que tal afetará o seu negócio, que depende sempre de cair nas boas graças do maior número possível de potenciais clientes. No entanto, como no caso dos ideais políticas que perora publicamente, as suas práticas comerciais são suscetíveis de não se coadunarem com a moralidade que faz questão de pregar. E se a sua ambição o ‘obriga’ amiúde a práticas comerciais desleais e desonestas, não raras vezes embarca em atividades comerciais imorais e perniciosas para a sociedade que contrariam a propagada moralidade, mas que rapidamente racionaliza como criadoras de riqueza e de emprego para o coletivo.


Pensamos que o acima indicado, não sendo exaustivo, deixará ao leitor uma ideia mais bem-definida do arquétipo psíquico burguês que representa o espírito da nossa época. Não lhe será difícil transpor este espírito para o nosso tempo e observar este espírito a guiar as nossas empresas, escolas, igrejas, ministérios, partidos, ideologias, atitudes e comportamentos. Tal mereceria um outro ensaio, como também mereceria uma análise separada a crescente influência de um outro espírito, de tendência ainda mais inferior, que já corrói os alicerces do mundo burguês e que o irá destronar a médio prazo. Contamos debruçarmo-nos sobre ambos num futuro que esperamos breve.

Monday, November 27, 2017

Sobre o Desenvolvimento Tecnológico




Depois de algumas discussões e reflexões tidas nos últimos tempos, tomo a liberdade de deixar algumas considerações acerca do desenvolvimento tecnológico, e mais importante, as suas causas e consequências no mundo Ocidental.

Parece-me que estas reflexões poderão ser de uso para aqueles que pressentem o erro em que opera o mundo moderno e que só poderá levar senão à catástrofe - já pressentida em todos os domínios da vida pública e privada – e que no fundo desejam a restauração da verdadeira Ordem e Tradição.

É comum a todos os nossos contemporâneos considerarem o progresso tecnológico como um processo inelutável, consequência da descoberta pelos nossos antepassados recentes de novos meios de transformação e de produção de matéria, de invenções científicas e de novas teorias e ciências que, aplicadas a também novos meios de gestão industrial, possibilitaram, entre outros, avanços materiais notáveis, especialmente desde o século XIX, que mudaram de forma radical a vida humana, o modo de viver coletivo, o trabalho e o respetivo conforto material.

E se não deixa de haver críticas acerbas a tal processo, tais vêm mais de uma perspetiva integradora, que vê este processo como algo essencialmente benéfico ou inevitável e que representa o que de melhor existe da mente ativista e empreendedora da civilização europeia, prova cabal da nossa superioridade e inteligência em relação a outros povos ditos primitivos, cujo modo de vida não pode senão ser considerado como retrógrado e, no fundo, digno da nossa pena e compaixão.

Aqui não podemos de deixar de notar o tique progressista e marxista em ação, que considera a história em termos de um genérico progresso constante, não apenas das condições materiais da existência, mas, no fundo, de uma liberalização e emancipação progressiva do indivíduo que, por uma crescente tomada de consciência de formas mais elevadas de conhecimento da sua condição e de entendimento do seu meio ambiente, não pode senão melhorar crescentemente a sua vida interior e exterior com vias a atingir, quiçá, a perfeição nesta etapa terrestre, num futuro mais ou menos distante.

E engane-se quem pensar que tal mentalidade é perfilhada apenas pelos ditos progressistas de vertente socialista ou comunista; esta atitude está incorporada de forma mais ou menos consciente por todo o homem atual, incluindo o autoproclamado conservador que, mesmo exaltando as virtudes antigas, não deixa de se maravilhar com os grandes avanços da ciência e da técnica modernas, motivo de orgulho e marca de distinção para com as sociedades antigas e também com as coevas que ainda não tiveram o ‘privilégio’ de participar em tais empresas. Numa sociedade como a atual, profana e materializada, que critério mais importante haverá para diferenciação entre organizações humanas que não os índices produtivos, as taxas de crescimento, níveis de industrialização, capacidade técnica, índices de literacia e outros quejandos?

Com isto, não queremos significar de modo algum que não existem ainda considerações morais e religiosas, apenas que estas assumem um caráter subsidiário às acima referidas, que são vistas, pelo menos ainda em alguns casos, como de igual importância.

Estas preocupações com o bem-estar material e com o avanço tecnológico não surgiram do nada. Basta um olhar rápido para a história da humanidade para facilmente observar que descobertas científicas e materiais foram uma constante e que todas as sociedades as incorporaram de algum modo na respetiva existência. O que é novo é o facto de tal esforço, que dantes era visto como algo secundário, ser agora considerado a força motriz da existência humana, ao qual são devotadas todas as capacidades intelectuais e técnicas do mundo moderno! Mais, não é com certeza um acaso que tal desenvolvimento e obsessão pela tecnologia tenham surgido na Europa na mesma altura em que, por diversos processos, a razão passou a ser considerada como o único instrumento capaz de alcançar verdadeiro conhecimento.

Destes processos, destacamos aqui o Iluminismo e o Luteranismo. O primeiro, tomando o homem como centro do Universo e medida de todas as coisas, considerou-o o único ser capaz e responsável pela sua liberdade e independência, vistas estas em termos puramente materiais. O último, transpôs ainda antes a mesma atitude – então latente - para a doutrina religiosa, que passou a ser vista como uma experiência somente de caráter individual e subjetivo, com as matérias metafísicas dessacralizadas a um mero ato de fé racional, independentes da conduta terrena.

Neste caldo mental, o homem europeu profanou a sua existência de modo cada vez mais progressivo, e se ainda manteve formas exteriores de observância de ritos e uma fé difusa no sobrenatural e na redenção, estas tinham pouca influência na nova mentalidade, que, liberta dos antigos estritos grilhões espirituais, era agora ocupada pela especulação filosófica e científica desregrada e pela busca de satisfação material, únicos desideratos possíveis em tal ambiente.

A partir daí, de forma crescente, a vida humana enredou-se cada vez mais na exploração da terra, na produção de riqueza, na transformação de materiais e na busca constante de novos modos de torna-los cada vez mais eficientes e intensivos. Daí, a comercialização da vida, a procura de fortuna e o surgimento de centros industriais e urbanos, em detrimento de um estilo de via centrado em povoações autossustentadas, foi um passo, que por sua vez deram lugar aos mais recentes monumentos fantasmagóricos de aço e betão que constituem as metrópoles modernas e os mastodônticos centros industriais e tecnológicos, tributos prestados à nova era de eficiência e de opulência material.

Parece então óbvio que o que se apelida de progresso tecnológico moderno não passa da desenfreada busca de conforto e riqueza pelo homem moderno europeu, mentalmente liberto de toda a força ordenadora antigamente dada pela religião e pelas castas aristocráticas, que sempre ocuparam lugares cimeiros na estrutura hierárquica de todas as sociedades tradicionais antigas. Tal ‘progresso’ só se torna inevitável quando essas forças superiores e moldadoras da classe mercantil e da mentalidade burguesa perdem força e deixam estas entregues aos seus próprios meios, sem freio vindo de cima. Nessa altura, os horizontes do homem reduzem-se à visão material da vida e o que se apoda de progresso tecnológico torna-se ‘inevitável’, pois já nada refreia o irrequietismo e a ambição das castas inferiores agora libertas.

É para nós límpido que o que é novo não são as descobertas científicas ou tecnológicas, que como já afirmamos sempre existiram, mas sim o facto de que, ao contrário de antigamente, estas já não serem vistas como meros processos técnicos e secundários, que se encontram subordinados aos valores que sempre guiaram as grandes civilizações de todo o Mundo – os espirituais – mas a razão mesma da existência humana!

Não deixa portanto de ser interessante observar autoproclamados conservadores europeus desprezarem outras organizações humanas – algumas milénios mais antigas que a dita civilização Cristã – por estas não terem sido obreiras ou cúmplices destas ‘descobertas’ e destes ‘avanços’. No fundo, escapa a essas pessoas que tais organizações espirituais, onde incluímos a verdadeira civilização Europeia antiga, nunca terem considerado aquelas como dignas de importância maior. O valor e distinção destas comunidades não derivam destas ciências e técnicas mecanicistas, mas de valores de verdadeira Civilização, podendo portanto viver muito bem sem elas.

Mais, estas sociedades sempre tiveram consciência, como a têm hoje ainda alguns europeus, que muitos destes avanços e descobertas tecnológicas, na maior parte dos casos, constituem uma prisão potencial para o homem, que enredado nelas se torna seu escravo, criando necessidades falsas e supérfluas, que consomem toda a sua vida. Basta um olhar de relance pela vida ocidental de hoje para perceber como o homem moderno devota a sua vida ou a trabalhar ou na busca frenética de conforto e satisfação, hipnotizado que está com a matéria, já não sabendo há muito tempo que a verdadeira liberdade só poderá ser encontrada pelo homem que guia a sua vida terrena nos valores da verdadeira espiritualidade.

Julgar o valor civilizacional de comunidades humanas com base em conceitos profanos e subversivos – como o são o progressismo, o darwinismo, o cientismo, o racionalismo, a técnica ou evolucionismo – é no fundo jogar o jogo do inimigo, e esquecer o que verdadeiramente tornou o Ocidente notório e digno se ser restaurado.

Saturday, November 18, 2017

O Significado das Cruzadas




Para finalizar esta série de artigos sobre a missão espiritual do guerreiro, traduzimos o artigo 'O Significado das Cruzadas', de Julius Evola.

Aos leitores interessados em aprofundar a visão de Evola sobre o assunto, recomendamos a leitura da colectânea de artigos reunida pela Editora Arktos, intitulada 'Metafísica da Guerra', bem como a obra-prima de Evola, 'Revolta Contra o Mundo Moderno', especialmente a primeira parte do mesmo.


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Reiniciemos a nossa análise das tradições relativas ao heroísmo nas quais a guerra é considerada como um caminho de realização espiritual no sentido estrito do termo, e portanto adquire uma justificação e propósito transcendentes. Já discutimos as conceções do antigo mundo romano a este respeito. Depois descrevemos as tradições nórdicas em relação ao caráter imortalizante da verdadeira morte heroica no campo de batalha. Era necessário examinar estas tradições antes de considerar o mundo medieval, já que, como é geralmente reconhecido, a Idade Média, como uma cultura, surgiu da síntese de três elementos: primeiro, o Romano; segundo, o Nórdico; e terceiro, o Cristão.

Portanto, estamos agora em posição de examinar a ideia da ‘sacralidade da Guerra’ como a Idade Média Ocidental a conheceu e cultivou. Como é evidente, aqui referimo-nos às Cruzadas entendidas no seu sentido mais profundo, não no sentido reclamado pelos materialistas históricos, de acordo com os quais elas são meros efeitos de determinismo económicos e étnicos, nem no sentido reclamado por mentes ‘desenvolvidas’, de acordo com as quais estas são meros fenómenos de superstição e exaltação religiosa – nem, finalmente, consideramo-las inclusive como um simples fenómeno Cristão. A respeito a este último ponto é necessário não perder de vista a correta relação entre os meios e fins. É frequentemente dito que, nas Cruzadas, a fé Cristã fez uso do espírito heroico da cavalaria Ocidental. No entanto, o oposto é verdade: isto é dizer, a fé Cristã, e os imperativos relativos e contingentes da luta religiosa contra o ´infiel´ e a ‘libertação’ do ‘Templo’ e da ‘Terra Santa’, foram meramente os meios que permitiram ao espírito heroico manifestar-se, afirmar-se, e de realizar uma espécie de ascese, distinta daquela de tipo contemplativo, mas não menos rica nos frutos espirituais. A maior parte dos cavaleiros que forneceram as suas energias e o seu sangue para a ‘guerra santa’ apenas tinham as ideias mais vagas e os conhecimentos teológicos mais rudimentares acerca da doutrina pela qual lutavam.

No entanto, o contexto cultural das Cruzadas continha uma riqueza de elementos capazes de conferir sobre eles um mais elevado significado simbólico espiritual. Mitos transcendentes ressurgiram do subconsciente na alma da cavalaria Ocidental: a conquista da ‘Terra Santa’ localizada ‘além-mar’ estava muito mais associada do que muita gente imaginava com a antiga saga de acordo com a qual ‘no Oriente distante, onde o Sol se levanta, fica a cidade sagrada onde a morte não existe, e os felizes heróis capazes de a alcançar gozarão da serenidade celestial e da vida perpétua’.

Além disso, a luta contra o Islão tinha, pela sua natureza e desde o seu início, o significado de um teste ascético. ‘Esta não era apenas a luta pelos reinos da Terra’, escreveu o famoso historiador das Cruzadas, Kugler, ‘mas uma luta pelo Reino dos Céus: as Cruzadas não foram uma coisa de homens, mas de Deus – portanto, elas não devem ser pensadas do mesmo modo que os outros eventos humanos’.

A guerra sagrada, de acordo com um antigo cronista, devia ser comparada a ‘um banho como aquele no fogo do purgatório, mas antes da morte’. Os que morriam nas Cruzadas eram simbolicamente comparados pelos Papas e padres ao ‘ouro três vezes testado e sete vezes refinado no fogo’, uma provação purificante tão poderosa que abria a via para o Senhor supremo.

‘Nunca esqueçam este oráculo’, escreveu São Bernardo, ‘quer vivamos, ou quer morramos’ pertencemos ao Senhor. É uma glória para vós nunca abandonar a batalha [exceto se] cobertos de louros. Mas é uma glória ainda maior ganhar no campo de batalha uma coroa imortal […] Ó ditosa condição, na qual a morte pode ser aproximada sem medo, esperada com impaciência, e recebida com um coração sereno!’ Era prometido que o Cruzado obteria uma glória absoluta – gloris asolue, na língua provençal – e que ele encontraria ‘descanso no paraíso’ – conquerre lite en paradis – isto é dizer, ele atingiria a supra-vida, o estado de existência sobrenatural, algo para além da representação religiosa. A este respeito, Jerusalém, o objetivo ambicionado da conquista, aparecia num duplo aspeto, como uma cidade terrena e como um símbolo, cidade celestial e inatingível – e a Cruzada ganhava um valor interior independente de todos os significados exteriores, apoios ou motivos aparentes.

Além disso, a maior contribuição em termos humanos foi proporcionada às Cruzadas pelas ordens cavaleirescas como os Templários e os Cavaleiros de São João, que eram constituídas por homens que, como o monge ou o ascético Cristão, tinham aprendido a desprezar a vaidade desta vida; guerreiro cansado do mundo, que tudo tinha visto e de tudo desfrutado, que se refugiavam em tais ordens, fazendo-se então prontos para uma ação absoluta, livre dos interesses da vida comum, temporal, e também da vida política no sentido mais estreito do termo. Urbano VIII dirigia-se à cavalaria como a comunidade supranacional daqueles que estavam ‘prontos a correr para a guerra onde quer que esta desponte, e levar consigo o medo das suas armas em defesa da honra e da justiça’. Eles deveriam responder à chamada para a ‘guerra santa’ tão mais rapidamente, de acordo com um dos escritores do tempo, já que o prémio não seria um feudo terreno, sempre revogável e contingente, mas um ‘feudo celestial’.

Aliás, o curso das Cruzadas, com todas as suas mais extensas implicações para a ideologia geral da altura, guiava a uma purificação e a uma internalização do espírito da empresa. Dada a convicção inicial de que a guerra pela ‘verdadeira fé’ não podia ter que não fosse um resultado vitorioso, os primeiros reveses militares sofridos pelos exércitos Cruzados foram uma fonte de surpresa e de desalento; mas, no fim, elas serviram para trazer à luz o aspeto mais elevado da ‘guerra sagrada’. O infeliz destino da Cruzada foi comparado pelos clérigos de Roma aos infortúnios da virtude, que só são repostos noutra vida. Mas, ao tomar este rumo, eles já se encontravam próximos de reconhecer algo superior tanto à vitória como à derrota e de acordo com a maior importância dada ao aspeto distintivo da ação heroica que é alcançado independentemente de quaisquer frutos visíveis e materiais, quase no sentido de uma oferenda, que traz consigo, do sacrifício viril de todos os elementos humanos, a imortalizante ‘glória absoluta’.

Vê-se que deste modo eles aproximavam-se de um plano que era supra-tradicional, no sentido mais restrito, histórico e religioso da palavra ‘tradição’. A fé religiosa particular, os propósitos imediatos, o espírito antagonista, eram claramente revelados como meios, como inessenciais em si mesmos, como a própria natureza de um combustível que é usado com o único propósito de reavivar e de alimentar uma chama. O que restava no centro, no entanto, era o sagrado valor da guerra. Então tornou-se possível reconhecer que os elementos do momento atribuíam à batalha o mesmo significado tradicional.

Deste modo e apesar de tudo, as Cruzadas permitiram enriquecer a troca comercial entre o Ocidente Gibelino e o Oriente Árabe (ele mesmo centro de mais antigos elementos tradicionais), uma troca cuja significância é muito maior do que a até aqui atribuída pela maior parte dos historiadores. Como os cavaleiros das ordens cruzadas encontraram-se na presença dos cavaleiros das ordens árabes que eram praticamente seus duplos, manifestando correspondências em éticas, costumes, e por vezes também em símbolos, pelo que a ‘guerra santa’ que impeliu as duas civilizações uma contra a outra sob o nome das suas respetivas religiões, levou-os ao mesmo tempo a encontrarem-se, isto é dizer, a compreender que, apesar de terem como ponto de partida duas fés diferentes, eles tinham eventualmente concordado guerrear os idênticos e independentes valores da espiritualidade.

No nosso próximo artigo, vamos estudar o modo pelo qual, das premissas desta fé os antigos Cavaleiros árabes ascenderam ao mesmo ponto supra-tradicional do Cavaleiro Cruzado obtido pelo seu ascetismo heroico.

Por agora, no entanto, gostaríamos de lidar com um ponto diferente. Aqueles que consideram as Cruzadas, com indignação, como entre os mais extravagantes episódios da ‘negra’ Idade Média, não têm sequer a menor suspeita de que o que chamam de ‘fanatismo religioso’ foi o sinal visível da presença e da efetividade de uma sensibilidade e determinação, a ausência da qual é mais característica do verdadeiro barbarismo. De facto, o homem das Cruzadas foi capaz de se elevar, de lutar e morrer por um propósito que, na sua essência, era suprapolítico e supra-humano, e servir numa frente definida não mais pelo que é particularístico, mas antes pelo que é universal. Isto mantém-se um valor, um inamovível ponto de referência.

Naturalmente, isto não deve ser incompreendido para significar que o motivo transcendental possa ser usado como uma desculpa para o guerreiro se tornar indiferente, para se esquecer das obrigações inerentes à sua pertença a uma raça ou a uma pátria. Este não é de todo o nosso ponto, que se preocupa antes com os significados profundamente díspares de acordo com os quais as ações e os sacrifícios podem ser experimentados, apesar do facto que, do ponto de vista externo, eles possam ser absolutamente os mesmos. Existe uma diferença radical entre aquele que se envolve na guerra simplesmente como tal, e aquele que simultaneamente se envolve numa ‘guerra sagrada’ e encontra nela uma experiência mais elevada, ambas desejadas e desejáveis para o espírito.

Devemos acrescentar que, apesar de esta diferença ser primariamente interior, no entanto, porque os poderes de interioridade são permitidos encontrar expressão também na exterioridade, derivam efeitos dela também no plano exterior, especificamente nos seguintes aspetos:

Primeiro que tudo, numa ‘indomabilidade’ do impulso heroico: o que experimenta espiritualmente o heroísmo é permeado por uma tensão metafísica, um ímpeto, cujo objeto é ‘infinito’, e que, portanto, levá-lo-á perpetuamente em frente, para além da capacidade daquele que luta por necessidade, que luta por como um ofício, ou que é empurrado por instintos naturais ou sugestão externa.

Segundo, aquele que luta de acordo com o sentido de uma ‘guerra sagrada’ encontra-se espontaneamente para além de todo o particularismo e subsiste num clima espiritual o qual, a qualquer dado momento, pode muito bem fazer surgir e dar vida a uma unidade de ação supranacional. Isto é precisamente o que ocorreu nas Cruzadas quando príncipes e duques de todos os territórios se juntaram numa empresa heroica e sagrada, independentemente dos seus interesses utilitários e divisões políticas particulares, fazendo surgir pela primeira vez a grande unidade Europeia, fiel à própria civilização e ao princípio próprio do Sacro Império Romano.

Agora, neste respeito também, se formos capazes de deixar de lado o ‘integumento’, se formos capazes de isolar o essencial do contingente, encontraremos um elemento cujo valor precioso não é restrito a qualquer período histórico particular. Para suceder em referir a ação heroica também a um plano ‘ascético’, e em justificar o primeiro de acordo com o último, é aclarar o caminho em direção a uma possível unidade de civilização, de renovar todo o antagonismo condicionado pela matéria, preparar o ambiente para grandes distâncias, e para maiores frentes, e, portanto, para gradualmente adaptar os propósitos externos de ação para o seu novo significado espiritual, quando ela não é mais um território ou as ambições temporais de um território pelo que se luta, mas um princípio superior de civilização, uma prefiguração do que, apesar de ainda metafísico, se move sempre em frente, para além de todo o limite, para além de todo o perigo, para além de toda a destruição.



Thursday, November 16, 2017

A Sacralidade da Guerra




Continuando a série de artigos de Julius Evola, na revista Diorama, sobre o significado sobrenatural da batalha e da via divina do guerreiro, deixamos em baixo a segunda tradução da mesma, intitulada ‘A Sacralidade da Guerra’, onde são exploradas antigas conceções das mesmas, nomeadamente da Antiguidade Clássica, Nórdica e Iraniano-Persa.

Sem demoras, passemos a palavra ao Mestre.


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No nosso artigo prévio vimos que o fenómeno do heroísmo guerreiro tem várias modalidades que podem conter significados fundamentalmente diferentes, como visto do ponto de vista de uma conceção intencionada a estabelecer os valores da verdadeira espiritualidade.

Resumindo o nosso argumento deste ponto de vista, devemos começar por indicar algumas conceções relativas às nossas antigas tradições, as tradições Romanas. Geralmente possui-se apenas a ideia secular dos valores da antiga Roma. De acordo com esta ideia, o romano era meramente um soldado, no sentido mais limitado da palavra, e era por intermédio das suas qualidades guerreiras, junto a uma feliz combinação de circunstâncias, que ele conquistou o mundo. Esta é uma opinião falsa.

Em primeiro lugar, até ao fim do Império, os romanos consideraram um artigo de fé que as forças divinas tanto criaram como protegeram a grandeza de Roma – o Imperium e a Aeternitas. Aqueles que se querem limitar ao ponto de vista ‘positivo’ estão obrigados a substituir esta perceção, profundamente sentida pelos romanos, por um mistério; o mistério, isto é, de que um punhado de homens, sem quaisquer razões fundamentais, sem sequer ideias de uma ‘terra’ ou de ‘pátria’, e sem quaisquer dos mitos ou paixões aos quais os modernos tão voluntariamente deitam mão para justificar a guerra e promover o heroísmo, avançaram continuamente, mais e mais longe, de um país para o próximo, seguindo um estranho e irresistível impulso, baseando tudo numa ‘ascese de poder’. De acordo com o testemunho unânime de todos os autores Clássicos, os primeiros romanos eram altamente religiosos – nostri maiores religiossimi mortalhes, Sallust relembra – e Cícero e Aulo Gélio repetem este ponto de vista – mas esta sua religiosidade não estava confinada a uma esfera abstrata e isolada, mas permeava a sua experiência na sua totalidade, incluindo nela própria o mundo da ação, e portanto também o mundo da experiência guerreira.

Um especial colégio sagrado de Roma, o Fecial, presidia sobre um bem definido sistema de ritos que proporcionavam a contraparte mística a todas as guerras, desde a sua declaração até à sua conclusão. Mais genericamente, é incontrovertido que um dos princípios da arte militar dos romanos requeria deles que não se permitissem entrar em batalha antes de certos sinais místicos terem definido, por assim dizer, o seu ‘momento’. Por causa das distorções mentais e dos preconceitos resultantes da educação moderna, a maior parte das pessoas de hoje estaria naturalmente inclinada para ver nisto uma superestrutura extrínseca, supersticiosa. Os mais benevolentes poderão ver nela um fatalismo excêntrico, mas de facto não é nenhum destes conceções. Como outras disciplinas similares, a essência da arte augural praticada pelo patriciado romano, aproximadamente com as mesmas características facilmente encontráveis no ciclo das grandes civilizações Indo-Europeias, não era a descoberta do ‘fates’, que seria então seguido com passividade supersticiosa: antes, era o conhecimento dos pontos de juntura com influências invisíveis, o uso nas quais as forças dos homens podiam-se desenvolver, multiplicar e serem guiadas para atuarem num plano mais elevado, em adição ao do dia-a-dia, levando então – quando a harmonia era aperfeiçoada – à remoção de todos os obstáculos e de todas as resistências dentro do evento-complexo que era ao mesmo tempo material e espiritual. À luz deste conhecimento, não pode ser duvidado de que os valores romanos, a romana ‘ascese de poder’, possuía necessariamente um aspeto espiritual e sacral, e que eram consideradas não apenas como um meio para a grandiosidade militar e temporal, mas também como um meio de contacto e de ligação com forças sobrenaturais.

Se o fosse apropriado aqui fazer, poderíamos reproduzir vários materiais conformes a esta tese. No entanto, limitar-nos-emos a mencionar que a cerimónia do triunfo em Roma tinha um carácter que era muito mais religioso que militarístico no sentido secular, e que muitos elementos parecem demostrar que os romanos atribuíam a vitória dos seus líderes menos aos seus meros atributos humanos do que a uma força transcendente que se manifestava de modo real e efetivo através deles, do seu heroísmo e por vezes do seu sacrifício (como no rito do devotio, no qual os líderes se sacrificavam). O conquistador, na acima mencionada cerimónia do triunfo, vestia a insígnia do supremo Deus do Capitólio, como se fosse ele próprio uma imagem divina, e ia em procissão para colocar os láureos triunfais sobre as mãos deste Deus, como se o último fosse o verdadeiro conquistador.

Finalmente, uma das origens da apoteose triunfal, isto é, do sentimento que um númen imortal se encontrava escondido no Imperador, era indubitavelmente a experiência do guerreiro: o Imperador era originalmente o líder militar, aclamado no campo de batalha no momento da vitória: neste momento, ele aparecia transfigurado por uma força dos cimos, terrível e maravilhosa, que impunha precisamente a impressão do numen. Esta visão, permita-se-nos acrescentar, não é particular a Roma, mas encontra-se através de toda a antiguidade Mediterrânica Clássica, e não se restringia aos vencedores da guerra, mas por vezes também se aplicava aos vencedores dos Jogos Olímpicos e às sangrentas lutas do circus. Na Hélade o mito dos heróis emergiu com as doutrinas místicas, como o Orfismo, que significativamente unia o caráter do guerreiro vitorioso ao do iniciado, que conquistavam a morte, no mesmo simbolismo.

Estas são indicações precisas de um heroísmo e de um sistema de valores que se desenvolveram por diversas vias espirituais mais ou menos conscientes, caminhos santificados não apenas pela gloriosa conquista material que mediavam, mas também pelo facto de que representavam uma espécie de evocação ritual envolvendo a conquista do intangível.

Vamos considerar algumas das evidências desta tradição, a qual, pela sua própria natureza, é metafísica: elementos como a ‘raça’ não podem portanto possuir mais do que um lugar secundário e contingente. Dizemos isto porque, no nosso próximo artigo, pretendemos lidar com a ‘guerra santa’ praticada pelos guerreiros do ‘Sacro Império Romano-Germânico’. Essa civilização, como é bem sabido, representa um ponto de convergência criativa entre vários componentes: Romano, Cristão e Nórdico.

Já discutimos as características relevantes do primeiro destes componentes (isto é, o Romano). O componente Cristão aparecerá com as características de um heroísmo cavaleiresco, supra-nacional, nas Cruzadas. O componente Nórdico falta ser indicado. Para evitar alarmar os nossos leitores desnecessariamente, afirmamos à partida que o que agora referimos tem, essencialmente, um caráter supra-racial, e não é portanto calculado para encorajar a tomada de posição de quaisquer povos autointitulados de ‘especiais’ contra outros. Para nos limitarmos a uma pista do que aqui queremos excluir, diremos que, surpreendente que possa parecer, no revivalismo nórdico mais ou menos frenético que hoje é celebrado, ad usum delphini, pela Alemanha Nacional Socialista, encontramos maioritariamente uma deformação e uma vulgarização das tradições nórdicas que existiram originariamente e como ainda podiam ser encontradas naqueles príncipes que consideravam ser uma grande honra poderem dizer de si mesmos que eram Romanos, apesar de partilharam a raça teutónica. Em vez, para muitos escritores racialistas de hoje, ‘nórdico’ veio a significar anti-romano e ‘romano’ veio a significar, mais ou menos, ‘judeu’.

Tendo dito isso, pensamos ser apropriado reproduzir esta significativa fórmula de exortação do guerreiro como encontrada na antiga tradição Celta: ‘Luta pela tua terra e aceita a morte se assim for necessário, já que a morte é a vitória e a libertação da alma’.

A expressão mors triumphalis na nossa tradição Clássica corresponde a este conceito. Relativamente à própria tradição Nórdica, é bem conhecido de todos o aspeto que se relaciona com o Valhalla, o lugar da imortalidade celestial, reservada à divina estirpe ‘livre’ e aos heróis caídos no campo de batalha (‘Valhalla’ significa literalmente ‘do palácio dos escolhidos’). O Senhor deste lugar simbólico, Ódin ou Wotan, aparece no Ynglingasaga como o que, pelo seu auto-sacrifício simbólico na ‘Árvore do Mundo’, mostrou aos heróis como chegar à estadia divina, onde eles habitam eternamente num pico luminoso, que se mantém sob a perpétua luz solar, acima de qualquer nuvem. De acordo com esta tradição, nenhum sacrifício ou forma de oração era mais apreciada pelo Deus supremo, e rica em frutos supra-mundanos, que aquela realizada pelo guerreiro que luta e cai no campo de batalha. Mas isto não é tudo. Os espíritos dos heróis caídos juntam as suas forças à falange daqueles que assistem os ‘heróis celestiais’ que combatem no Ragnarökk, isto é dizer, o destino do ‘escurecimento do divino’, que, de acordo com esses ensinamentos, e também de acordo com os Helenos (Hesíodo), tem ameaçado o mundo desde tempos imemoriais.

Veremos este motivo a reaparecer, sob diversas formas, nas lendas medievais que se relacionam com a ‘última batalha’ que o imperador imortal lutará. Aqui, para ilustrar a universalidade destes elementos, apontaremos a similitude entre estas conceções nórdicas (as quais, diga-se de passagem, Wagner tornou irreconhecíveis por meio do seu preguiçoso e bombástico romanticismo teutónico característico) e as antigas conceções iranianas e mais tarde persas. Muitos ficam espantados ao ouvir que as bem conhecidas Valquírias, que escolhem as almas dos guerreiros destinados ao Valhalla, são apenas a personificação transcendental de partes dos próprios guerreiros, partes que encontram o seu equivalente exato nas Fravashi, das quais as tradições iraniano-persas falam – as Fravashi, também representadas como mulheres de luz e virgens retumbantes de batalha, que personificam mais ou menos as forças sobrenaturais pelo meio das quais as naturezas humanas dos guerreiros ‘fieis ao Deus da Luz’ se transfiguram e trazem vitórias terríveis, esmagadoras e sangrentas. A tradição iraniana também inclui a conceção simbólica de uma figura divina – Mitra, descrita como o ‘guerreiro que nunca dorme’ – que, à cabeça dos seus fiéis Fravashi, luta contra os emissários do negro deus até ao retorno do Saoshyant, Senhor de um futuro reino de paz ‘triunfante’.

Estes elementos da antiga tradição Indo-Europeia, na qual são recorrentes os motivos da sacralidade da guerra e do herói que não morre realmente mas que se torna parte de um exército místico numa batalha cósmica, tiveram um efeito percetível em vários elementos do Cristianismo – pelo menos naquele Cristianismo que podia realisticamente adotar a divisa: visa est militia super terram, e reconhecer não apenas a salvação através da humildade, caridade, esperança e o resto, mas também – ao incluir o elemento heroico do nosso caso – de que ‘o Reino do Céu pode ser tomado pela força’. É precisamente esta convergência de motivos que dá nascimento à conceção espiritual da ‘Grande Guerra’ peculiar à idade medieval, que discutiremos no nosso próximo artigo na ‘Diorama’, onde lidaremos mais de perto com o aspeto interior, individual, mas não menos pertinente destes ensinamentos.


Folhas Soltas (1)

O pseudo-progressista de mente aberta é o menos clemente e tolerante contra aqueles que ofendem o mantra social do momento. ...