Tuesday, August 15, 2017

Futebol - Desporto Satânico

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O aparecimento do desporto de massas é um dos fenómenos típicos da modernidade, do qual futebol é sem dúvida o seu exemplo mais proeminente.

Sendo uma atividade desportiva que consome tantos recursos e devoção pelas atuais massas humanas, é de notar – á semelhanças de outras importantes manias atuais – a pouca atenção dada às causas fundas da sua popularidade e da devoção que tributa tanto a praticantes como a seguidores. Para além das interpretações marxistas do futebol como ópio do povo – que o é a um nível superficial – e de outras explicações sociológicas, os comentadores atuais, muitos dos quais professam amor confesso a um qualquer clube, parecem admitir um certo irracionalismo nesta obsessão, mas fazem sempre referência ao amor clubístico como algo mais ou menos natural e até se diria saudável.

Cumpre reconhecer a contradição que a muitos parece passar totalmente ao lado: a de, numa sociedade que se preza por ter ultrapassado os chamados “dogmas de fé” e que afirma o positivismo e o racionalismo como móbeis da ação humana, existirem e cresceram fenómenos de adoração de massa que arrebatam as energias e paixões de setores cada vez mais extensos da humanidade.

Propomo-nos neste artigo deixar algumas bases para entender o presente culto futebolístico e explicar que não é por acaso ser esta modalidade a mais seguida no Mundo, já que ela, de todos os outros desportos disponíveis, partilhará mais do corrente pathos modernista. Mais, entendemos que o futebol, do modo como é praticado e seguido, poderá ser considerado o desporto satânico por excelência – satânico aqui entendido menos no sentido escatológico das religiões abraâmicas, mas mais como conjunto de forças subterrâneas que, não sendo mais controladas pela alta espiritualidade de caráter solar que outrora prevalecera, guiam hoje sem freio as ações e atitudes humanas sobretudo no espaço territorial a que se chama de Ocidente.


1.         O Desporto das Massas:

Na tentativa de encontrar as origens deste desporto, podemos recuar, pelo menos, à Idade Média Europeia, onde por vezes a turba dos primeiros aglomerados urbanos (o início das cidades na aceção moderna, habitadas por massas informes anónimas) exteriorizava a sua agressividade e os seus instintos mais ferozes ao pontapear um objeto de forma circular pelas ruas e campos adjacentes.

Não sendo este ainda o desporto a que hoje chamamos futebol, é de notar como o seu antecedente nasceu desta forma “espontânea” em elementos da classe popular de estrato mais baixo que, no frenesim da multidão, chutavam a bola sem destino e que no seu fulgor a seguiam para onde esta os levasse e onde a atividade do indivíduo que momentaneamente pontapeava o objeto era totalmente submergida pela força da massa ululante em que este então se perdia.

Esta expressão do irrequietismo das massas, a que mais tarde se deu o nome de desporto coletivo, nada tinha a ver com as atividades que envolviam esforço físico por parte da nobreza (cavalaria ou esgrima, por exemplo), que eram por natureza individuais, exigiam a um controlo intenso da mente e do corpo, eram precedidas por anos de preparação e obedeciam a um sem número de códigos de honra e de conduta de natureza imemorial, sem os quais as suas práticas não fariam sentido.

Podemos afirmar que o futebol surgiu como uma atividade própria do demos, de significação totalmente contrária à atividade nobre; mais, o seu surgimento nesta altura significou, acima da expressão da natureza própria daqueles que, guiados por forças subterrâneas, se juntavam à sua prática, a derrota das forças espirituais que até então as tinham contido no plano material.

Não é curioso notar como, passados séculos, o futebol é hoje essencialmente praticado por homens que provém dos elementos das camadas mais destituídas e menos cultivadas da nossa sociedade? Como o são sem dúvida os adeptos mais fervorosos das equipas que vemos a apoiar as respetivas equipas no estádio ou a celebrar na rua, raras vezes sem violência física e verbal.

O futebol é essencialmente um desporto de massas para as massas. É fascinante notar como pessoas que normalmente apresentam um módico de educação e decoro, quando num ambiente de estádio ou mesmo a jogar com os amigos, recorrem frequentemente ao palavrão e mesmo a atos físico de violência, já que nesses ambientes o que predomina é o ambiente demónico que dantes guiava as massas quando estas se empurravam uns aos outros para chutar uma bola.

Quanto ao modo como é praticado, como já fizemos referência acima, nada no futebol se pode comparar à dignidade superior de um cavaleiro, à disciplina militar de um escalador ou à paz de corpo e alma de um atirador de arco; ademais, a violência, a falta de graça e controlo das emoções dos protagonistas, o grassar das ações vis, simulações, agressões e insultos entre praticantes, não deixam dúvidas quanto à natureza desta atividade física.

O futebol como símbolo e efeito explica a consagração das forças demónicas do chamado 4º estado que venceram em quase toda em linha as viris forças espirituais que se lhes opunham, já que são aquelas que guiam as modernas massas, sejam estas de qualquer estrato socioeconómico que se julguem pertencer.


           2.       O Futebol como Anti-Religião:

Ao contrário do que o endoutrinado homem moderno pensa, o mundo espiritual não conhece o vazio. E se dantes com razão poderíamos dizer que as forças da verdadeira Tradição operavam ou, pelo menos, procuravam conter as forças ditas satânicas, hoje podemos dizer que as últimas têm livre-rédea para atuar sob uma massa disforme que, sem referências superiores, se encontra muito mais que nunca à sua mercê, sempre sem o saber.

Não é pois de admirar ver o mais vitriólico ateísta, o chefe sindical, o intelectual cosmopolita, o líder de indústria ou o moderno cacique político, depois de prezarem os tempos atuais de libertação contra as “longas noites negras” do passado, num qualquer Domingo à tarde, vestidos da mesma indumentária que o resto dos congregantes e num templo titânico de adoração, com as restantes massas, a ulular em paroxismos de êxtase e desespero os modernos deuses do desporto.

À semelhança do centro comercial, do computador e da televisão, o estádio de futebol funciona como o templo escolhido pelo homem moderno para expiar as suas frustrações e projetar os seus anseios e desejos, o qual frequenta religiosamente.

Mas se pelo menos na Igreja ainda havia a intermediação de um ser com qualidades superiores responsável por ministrar o rito e assim permitir algum contato, por pequeno que fosse, entre Deus e a congregação - que atendia à cerimónia de forma voluntária - não deixa de ser preocupante que os fenómenos de fervor religioso modernos como o futebol sejam executados de forma passiva, sob outra guisa.

E para comprovar o caráter subversivo do futebol, é interessante constatar que a intermediação com as forças espirituais não é feita por um ser dotado de preparação especial ou capacidades inatas, mas precisamente pela massa humana na sua capacidade mais vil e rebaixada – qualquer pessoa que já esteve num estádio reparará que há um conjunto de adeptos mais fervorosos (como já acima referimos, representantes maiores do 4º estado) que iniciam a maior parte das reações coletivas dos adeptos, os quais a maioria apenas os segue ou copia, tanto nos modos como nas palavras.

Haverá porventura maior exemplo de satanismo moderno que o de uma celebração coletiva ministrada (não de forma consciente, mas sim guiada por forças subterrâneas) pelos elementos mais grosseiros da sociedade, os quais são copiados na sua vileza e baixeza pela restante massa humana que assim perde toda a sua individualidade e personalidade, a pretexto de apoiar meros seres humanos embrutecidos num terreno de jogo?


           3.       O Irracionalismo no Futebol:

O moderno fenómeno futebolístico aparece como algo que apela ao lado mais irracional do ser humano, e isto visto não no que poderia de ter de positivo caso fosse uma busca das possibilidades sobrenaturais do ser humano ou de algo que potenciasse realizações metafísicas, mas precisamente no que é mais obscuro e animalesco nele, no seu substrato inconsciente e subconsciente.

Cabe notar que o adepto médio deste desporto, muito mais que uma verdadeira paixão pelo jogo, desenvolve acima de tudo um fanatismo para com o seu clube ou jogadores favoritos, com cujo sucesso, contra o que seria de esperar-se numa perspetiva puramente racional, ele totalmente se identifica e cujo destino vai contribuir para o seu estado de espírito.  
 Há uma adoração semelhante à da antiga devoção totémica por tribos antigas que se identificavam sobretudo com a adoração da Terra e animais, com os quais a respetiva estirpe comungava origem e destino.

E basta notar que há algo de mais profundo e outras forças em jogo quando se constata que a escolha de uma equipa como objeto de devoção é somente baseada em puros fatores emocionais, familiares e mesmo de integração de grupo, que são base para manter um fanatismo e tribalismo que se identificam com o que acima foi dito.

Mais se pode dizer que também tudo o que podia servir como base de apoio para realizações superiores tanto para os desportistas bem como para os adeptos (atente-se ao caráter essencialmente religiosos tanto dos originais Jogos Olímpicos como do Circo Romano), descamba numa exaltação de estados instantâneos de alegria raivosa ou de fúria profunda, imitados pelos jogadores, numa atividade que, totalmente secularizada, só funciona como leve bálsamo para as massas urbanas que o usam momentaneamente para esconder o vazio da existência moderna e o niilismo em que operam.

Como de outra maneira entender o apego fanático que alguns membros “destacados” da nossa praça mostram para com a sua equipa de futebol, traindo uma violência e agressividade da sua parte que não se coaduna de modo algum com a imagem exterior que utilizam no cumprimento das suas funções?

Faremos uma referência breve ao jogo do futebol em si que confirma a irracionalidade que o próprio jogo pressupõe: a expetativa que existe noutros desportos coletivos na marcação de um regular número de pontos para cada equipa durante uma partida, não existe no futebol, já que neste é comum a existência de um reduzido número de golos, inclusive a não existência de golo qualquer; com raras exceções, um jogo de futebol é composto essencialmente por ações mais ou menos desconexas praticadas por um conjunto de jogadores de cada equipa, que passam uma hora e meia a lutar entre si e a chutar a bola para o outro campo, com raros momentos de verdadeira beleza, composto essencialmente por um atleticismo agressivo, essencialmente de natureza bruta; jogadores e adeptos esperam acima de tudo, quase como que suplicantes, por um momento de catarse que o golo lhes proporcionará e fará todo o tempo perdido até então ter valido a pena.

Alguns comentadores políticos americanos já notaram, mais perspicazmente do que se lhes deu crédito, que a crescente popularidade deste tipo de futebol niilista, o soccer, em relação ao seu futebol americano - com o seu cariz essencialmente militar e com a sua natureza apesar de tudo mais masculina - constituía um sintoma da decadência americana no que entendiam ser uma “europeização” dos Estados Unidos, no que aquela tem de pior.


           4.       O Futebol como Desporto Global:

Como é demais sabido, o fenómeno “futebolístico” não para de crescer e, à semelhança de outros fenómenos modernos e a par da crescente globalização, ameaça submeter sociedades ainda relativamente tradicionais à sua adoração.

Já hoje o futebol funciona como o grande equalizador dentro de cada país e sociedade, onde antigas diferenças de educação e status são esquecidas aquando da celebração do culto futebolístico, mas também em termos transnacionais e transculturais – em qualquer local do mundo o futebol funciona como fator comum de conhecimento e algo que de fato aproxima as pessoas, já que a possibilidade de conhecerem as mesmas equipas e jogadores é muito grande.

E se dantes as equipas de futebol mantinham algo de nacional ou regional, hoje elas não são mais que interpostos comerciais para jogadores e homens de negócios fazerem fortuna numa indústria global que mais se assemelham a multinacionais com consumidores nas 4 partes do globo do que a associações desportivas, exploradas pelos mesmos homens sem escrúpulos que tudo capitalizam e monetizam – os que são, de facto, os principais beneficiários materiais desta devoção de muitas “almas”.

Seja no estádio ou na televisão, biliões de seres estão constantemente hipnotizados na religião moderna, umas vezes vencendo, outas vezes perdendo, mas acima de tudo partilhando uma mesma experiência espiritual regressiva.

Como se vê o futebol acaba por ser um tentáculo da moderna universalização e estandardização do homem que está em curso e para a qual caminhamos: uma aldeia global de seres equalizados e nivelados, que, vestindo todos a mesma camisola, partilham dos mesmos gostos e com as mesmas paixões e conhecimentos superficiais, acima de qualquer particularismo regional, político ou religioso que possam ter - enquanto estes ainda existirem!             

E aqui não deixa de ser de notar que, tendo o futebol nascido no Ocidente, este se expande e conquista cada vez mais o Oriente, seguindo a mesma direção de outros mitos modernos de confeção “europeia” cuja exportação para terras orientais contribuiu para a implementação também aí das ideias subversivas da Contra-Revolução, que neste momento é um cancro de que todo o Globo padece.

Numa época em que a subversão é a palavra-chave, em que se prefere o exterior ao interior, o terreno ao céu, o inferior ao superior, o plebeu ao real, só os mais ingénuos e crédulos acreditam na "coincidência" de se chamar ao futebol o “desporto-rei”.

Wednesday, August 9, 2017

Audio: Revolta Contra o Mundo Moderno - Introdução e Capítulo I

Tendo já colocado a conclusão do livro, decidi aqui ir publicando o áudio da Revolta Contra o Mundo Moderno, esperando que tal exercício aproveite a quem busca a Verdade.

Em baixo encontrarão a Introdução e o primeiro capítulo, intitulado O Princípio.

Caso alguém tenha dúvidas quanto à estrutura da obra ou outras sugestões relativas ao áudio, por favor não hesite em deixar comentário. 



Audio: Revolta Contra o Mundo Moderno - Conclusão

Deixo em baixo o áudio da conclusão do livro Revolta Contra o Mundo Moderno, de Julius Evola.

Depois das 2 partes do livro onde apresenta as características do mundo da Tradição e apresenta as civilizações e períodos da histórias que desaguaram no mundo moderno, o mundo da anti-tradição,respetivamente, Evola expõe aqui realisticamente, diríamos melhor pessimisticamente, as possibilidades de retorno da humanidade à verdadeira Tradição, avisando das falsas ilusões e das vias que estão abertas àqueles que combatem os chamados "ventos da história".


Importante o aviso feito ao homem ocidental da ilusão que um mero retorno ao catolicismo suporá, já que este não se mostrou suficientemente forte para conter as forças subversivas, mesmo em condições infinitamente mais favoráveis às do mundo atual.



Tuesday, August 8, 2017

Ofícios Antigos e a Indústria Moderna




Em baixo deixo a tradução do capítulo VIII, do livro de René Guenon intitulado “O Reino da Quantidade e os Sinais dos Tempos”, originalmente publicado em francês em 1945, e do qual aqui se traduz da edição inglesa de 2001 da Editora Sophia Perennis.

Constituindo este livro uma explanação mais desenvolvida do diagnóstico feito pelo autor no seu “Crise do Mundo Moderno”, principalmente no que toca à crescente quantificação do mundo, suas causas e, muito interessante, no que constituirá o seu apex.

O presente capítulo apresenta o contraste entre a natureza moderna do trabalho, de caráter demónico, com as antigas artes e ofícios que ligadas a sistemas verdadeiramente tradicionais permitiam uma via para o conhecimento iniciático, para além da sua função integradora no contexto social e económico. Realçar aqui que esta via esotérica estaria aberta independentemente da particular religião ou legislação exotérica prevalente na respetiva comunidade, contando que as vias de possibilidades de tal iniciação se encontrassem abertas, o que hoje já praticamente não acontece.



Ofícios Antigos e a Indústria Moderna

Existe um grande contraste entre o que os antigos ofícios costumavam ser e o que a indústria moderna é agora, e isto mostra no seu essencial outro caso particular e ao mesmo tempo uma aplicação prática do contraste entre um ponto de vista qualitativo e quantitativo, que predomina num e noutro, respetivamente. Em ordem para ver a razão de tal, é útil notar primeiro que tudo o que a distinção entre artes e os ofícios, ou entre o “artista” e o ”artesão”, é em si mesma algo especificamente moderno, como se tivesse nascido da desvio e da degeneração que tem levado à substituição em todos os campos da conceção tradicional pela conceção profana. Para os antigos o artifex era indiferentemente o homem que praticava uma arte ou um ofício; mas ele era, para dizer a verdade, algo que nem o artista nem o artesão são hoje, se essas palavras são usadas no sentido moderno (ademais a palavra “artesão” tende mais e mais a desaparecer da linguagem contemporânea); ele era algo mais que tanto um como o outro porque, ao menos originalmente, a sua atividade estava delimitada por princípios de uma ordem muito mais profunda. Se os ofícios costumavam englobar de uma forma ou outra as artes propriamente ditas, tal é porque a natureza dos ofícios era verdadeiramente qualitativa, já que ninguém pode recusar admitir que tal é a natureza da arte, mais ou menos por definição. No entanto, os modernos, por essa mesma razão, estreitamente restringiram a sua conceção de arte, relegando-a a uma espécie de domínio fechado sem conexão com o resto da atividade humana, isto é, com o que consideram que constitui a “realidade”, usando a palavra no mesmo sentido cru que esta tem para eles; e eles vão ao ponto de livremente atribuir à arte, roubada portanto de toda a sua significação prática, o carácter de um “luxo”, um termo totalmente característico da que pode sem qualquer exagero ser chamada da “parvoíce” do nosso período.

Em toda a civilização tradicional, como tem sido posto à evidência, toda a atividade humana de qualquer tipo é sempre considerada como derivada essencialmente de princípios. Isto é conspicuamente verdadeiro para as ciências, e não é menos verdade para as artes e para os ofícios, e existe adicionalmente uma ligação próxima entre elas todas, já que de acordo com uma fórmula postulada como um axioma fundamental pelos construtores da Idade Média, ars sine scientia nihil; a ciência em questão é com certeza ciência tradicional, e certamente não ciência moderna, a aplicação da qual pode dar nascimento a nada exceto à indústria moderna. Por esta ligação a princípios, a atividade humana podia dizer-se estar como que “transformada”, e em vez de estar limitada ao que é em si mesma, nomeadamente, a uma mera manifestação externa (e o ponto de vista profano consiste nisto e nada mais), ela é integrada com a tradição, e constitui para aqueles que a desempenham um meio efetivo de participação na tradição, e isto é como dizer que carregava consigo um caráter verdadeiramente “sagrado” e “ritual”. Isso é porque pode ser dito, em qualquer civilização, que “toda a ocupação é um sacerdócio”;1 mas em ordem para evitar conferir a esta última palavra uma maior ou menor extensão de sentido ilegítima, se não uma falsa, deve se claro que sacerdócio não é sacerdócio a não ser que possua algo que foi preservado apenas nas funções sacerdotais, desde o tempo em que a prévia não existente distinção entre sagrado e profano surgiu.

Para ver o que se significa pelo caráter “sagrado” de toda a atividade humana, mesmo que só de um ponto de vista exterior, ou, se preferido, exotérico, é só preciso considerar uma civilização como a Islâmica, ou a civilização Cristã da Idade Média; é fácil ver que nelas as mais comuns ações da vida têm algo de “religioso”. Em tais civilizações a religião não é algo restrito, estritamente limitado e que ocupe um lugar aparte, sem influência efetiva em nada mais, como o é para os modernos Ocidentais (pelo menos para os quais que ainda consentem em admitir a religião de todo); pelo contrário ela penetra toda a existência do ser humano, ou melhor, ela abraça dentro do seu domínio tudo o que constitui essa existência, e particularmente a vida social propriamente dita, tanto que não existe realmente nada que sobre que seja “profano”, exceto no caso daqueles que por uma razão ou por outra estejam fora da tradição, mas quaisquer desses casos representam então nada menos que uma mera anomalia. Noutros lugares, onde a palavra “religião” não pode ser propriamente aplicada à forma da civilização considerada, existe no entanto uma legislação tradicional e “sagrada” que representa um papel equivalente mesmo que tenha um caráter diferente, sendo considerações similares então aplicadas a todas as civilizações tradicionais sem exceção. Mas existe algo mais: olhando para o esoterismo em vez do exoterismo (sendo estas palavras utilizadas por conveniência apesar de não serem estritamente aplicáveis a todos os casos da mesma maneira) torna-se claro que existe, de uma forma geral, uma iniciação ligada aos ofícios e que os utilizam como a sua base ou o seu “suporte”;2 estes ofícios devem portanto ser capazes de uma significação superior e mais profunda se eles são supostos de providenciar um caminho de acesso ao domínio iniciático, e é por razão do seu caráter essencialmente qualitativo que evidentemente tal coisa é possível.

A noção que mais ajuda em direção a um entendimento deste ponto é aquela que a doutrina Hindu chama de svadharma. Em si esta noção é inteiramente qualitativa, já que implica a realização por qualquer ser humano de uma atividade conforme com a sua particular essência ou natureza, e daí ser conforme à “ordem” (rita) no sentido já explicado; e é esta mesma noção, ou antes a sua ausência, que indica tão claramente onde a conceção profana e moderna falha. De fato, de acordo com a conceção moderna um homem pode adotar qualquer profissão, e até mudá-la se tal favorece o seu capricho, como se a profissão fosse algo totalmente fora dele próprio, não tendo qualquer ligação com o que ele realmente é, isso por virtude do qual ele é ele próprio e não qualquer outro. De acordo com a conceção tradicional, de outro modo, cada pessoa tem normalmente de cumprir a função para a qual ele está destinado pela sua própria natureza, usando as particulares aptitudes essencialmente implícitas na sua natureza como tal;3 ele não pode cumprir uma função diferente exceto sob custo de uma desordem séria, a qual terá as suas repercussões em toda a organização social de que ele é uma parte; e muito mais que isto, se tal tipo de desordem se tornar geral, começará a ter um efeito no próprio ambiente cósmico, já que todas as coisas estão ligadas por rigorosas correspondências. Sem desenvolver mais este último ponto, apesar de uma aplicação às condições modernas poder bem ser feita, o que foi dito até agora pode ser então sumarizado: de acordo com a conceção tradicional, são as qualidades essenciais dos seres que determinam as suas atividades; de acordo com a conceção profana de outro modo, estas qualidades já não são tomadas em conta, e os indivíduos são considerados não mais que permutáveis e puramente “unidades” numéricas. A última conceção pode só logicamente levar ao exercício de uma atividade integralmente “mecânica”, na qual nada resta de verdadeiramente humano, e isso é exatamente o que podemos ver acontecendo hoje. É quase desnecessário dizer que as atividades “mecânicas” dos modernos, que constituem indústria propriamente dita e que são só um produto de um desvio profano, não podem oferecer qualquer possibilidade de uma iniciação de qualquer tipo, e mais, elas mais não podem ser que obstáculos ao desenvolvimento de toda a espiritualidade; de fato elas não podem propriamente ser consideradas como autênticos ofícios, se essa palavra quer reter a força do seu significado tradicional.

Se o ofício é como se fosse uma parte do próprio homem e uma manifestação ou expansão da sua própria natureza, é fácil ver como pode servir como base para uma iniciação, e porque é a melhor base possível numa maioria de casos. Iniciação tem de fato como o seu objetivo a superação das possibilidades do indivíduo humano como tal, mas não é menos verdade que pode apenas tomar tal indivíduo como ele é como ponto de partida, e então só por apoio no seu lado superior, isto é, por juntar-se ela própria áquilo que nele é verdadeiramente qualitativo; então a diversidade de caminhos iniciáticos, em outras palavras, dos meios usados como “suportes” em ordem para se adaptar às diferenças das naturezas individuais; estas diferenças tornam-se, no entanto, de menos importância à medida que o tempo passa, em proporção com ser avançar no seu caminho e que portanto se aproxima do fim que é igual para todos. Os meios empregues não podem ser efetivos a não ser que eles realmente sirvam a natureza própria do ser aos quais eles se aplicam; e já que é necessário trabalhar a partir do que é mais acessível em direção ao que o é menos, do exterior para o interior, é normal escolhê-los no seio da atividade pela qual a sua natureza se manifesta exteriormente. Mas é óbvio que esta atividade não pode ser usada de qualquer outra maneira que não seja por efetivamente expressar a natureza interior; portanto a questão realmente torna-se uma de “qualificação” no senso iniciático da palavra; e em condições normais, a mesma “qualificação” deve ser um requerimento para a prática do próprio ofício. Tudo isto está também ligado com a diferença fundamental que separa o ensinamento iniciático, e mais geralmente todo o ensinamento tradicional, do ensinamento profano. Tudo que é simplesmente “aprendido” de fora não tem qualquer valor no primeiro caso, independentemente das grandes quantidade de noções acumuladas (para aqui também “ensinamento” profano mostra claramente a marca da quantidade); o que conta é, ao contrário, um “acordar” das possibilidades latentes que o ser traz consigo (o que é, em última análise, o significado real da “reminiscência” Platónica).4

Estas últimas considerações fazem entendível que a iniciação, usando a o ofício como “suporte”, tem ao mesmo tempo, e como se fosse uma num sentido complementar, uma repercussão na prática do ofício. O artesão, tendo realizado totalmente as possibilidades das quais a sua atividade profissional é a sua expressão externa, e portanto possuindo o conhecimento efetivo daquilo que é o verdadeiro sentido da sua atividade, vai então conscientemente atingir aquilo que previamente era só uma consequência bastante “instintiva” da sua natureza; e portanto, já que o conhecimento iniciático nasce do ofício, o ofício por sua vez tornar-se-á o campo de aplicação do conhecimento, do qual não se poderá mais separar. Haverá então uma correspondência perfeita entre o interior e o exterior, e o trabalho produzido pode então tornar-se a expressão, não mais só até um certo grau e de uma maneira mais ou menos superficial, mas a expressão adequada, daquele que o concebeu e o executou, e constituir-se-á numa “obra de arte” no verdadeiro sentido da palavra.

Não há portanto dificuldade em ver o quanto afastado o verdadeiro ofício está da indústria moderna, tanto que os dois estão como que opostos, e quão é tristemente verdade que no “reino da quantidade” o ofício é, como os partidários do “progresso” tão rapidamente declaram, uma “coisa do passado”. O trabalhador em indústria não pode pôr no trabalho nada dele próprio, e muito esforço seria até posto para o prevenir se ele tivesse ainda que a mínima inclinação para o fazer; mas ele não pode nem tentar, porque a sua atividade consiste somente em fazer uma máquina andar, e porque de mais ele é considerado bastante incapaz de iniciativa pela “formação” – ou antes deformação - profissional que tenha recebido, que é praticamente a antítese da aprendizagem antiga, e cujo único objetivo é ensiná-lo a executar certos movimentos “mecanicamente” e sempre da mesma maneira, sem ter de todo que entender a razão deles ou de preocupar-se com o resultado, já que não é ele, mas a máquina, que verdadeiramente fabricará o objeto. Servente da máquina, o homem deve tornar-se a máquina ele próprio, e então o seu trabalho nada terá de verdadeiramente humano, já que não implica pôr ao serviço quaisquer das qualidades que realmente constituem a natureza humana.5 O fim de tudo isto é o que o jargão moderno chama de “produção em massa”, o objetivo da qual é só produzir a maior quantidade possível de objetos, e de objetos os mais exatamente iguais possível, com o objetivo de uso por homens que são supostos não serem menos iguais; esse é de facto o triunfo da quantidade, como foi apontado mais cedo, e é pela mesma bitola o triunfo da uniformidade. Estes homens que estão reduzidos a meras “unidades” numéricas são supostos viver no que dificilmente se podem chamar casas, já que tal seria abusar da palavra, mas em “colmeias” das quais os compartimentos serão todos planeados com base no mesmo modelo, e mobiladas com objetos feitos em “produção de massa”, de maneira a causar o desaparecimento no ambiente em que as pessoas vivem de qualquer diferença qualitativa; é suficiente examinar os projetos de alguns arquitetos contemporâneos (que descrevem os próprios as habitações como “máquinas vivas”) para ver que nada tem sido exagerado. O que então aconteceu à arte tradicional e à ciência dos antigos construtores, ou às regras rituais pelas quais o estabelecimento de cidades e edifícios eram regulados em civilizações normais? Seria inútil pressionar mais este assunto, porque um teria de ser cego para não ver o abismo que separa o normal da civilização moderna, e sem dúvida todos concordarão em reconhecer quão grande a diferença é; mas aquilo que a vasta maioria dos homens hoje vivos celebra como “progresso” é exatamente o que é apresentado agora ao leitor como uma decadência profunda, acelerando continuamente, a qual arrasta a humanidade para o esgoto onde a quantidade pura reina.


1.           A.M. Hocart, Les Castes (Paris: P. Geuthner, 1938), p27. [Caste: A Comparative Study (New York: Russell and Russell, 1968).]

2.           Deve ser notado que tudo o que ainda persiste no Ocidente de verdadeiras organizações iniciáticas, qualquer que seja o seu presente estado de decadência, não tem outra origem que não esta. Iniciações pertencentes a outras categorias desapareceram completamente há muito tempo.

3.           Deve ser notado que a palavra francesa metier é etimologicamente derivada do latim ministerium, e propriamente significa “função”

4.           Neste tema ver particularmente o Meno de Platão.

5.           Deve ser notado que a máquina é num sentido o oposto do instrumento, e não é de modo nenhum um “instrumento aperfeiçoado” como muitos imaginam, já que o instrumento é de certa maneira um “prolongamento” do próprio homem, enquanto que a máquina reduz o homem a nada mais que o seu servo; e, se fosse verdade dizer que “o instrumento cria o ofício”, não é menos verdade que a máquina mata-o; as reações instintivas dos artesões contra as primeiras máquinas falam por si próprias.


Sunday, August 6, 2017

Apologia da Barbárie





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Deuterónimo 21:18-21:
"Quando alguém tiver um filho contumaz e rebelde, que não obedecer à voz de seu pai e à voz de sua mãe, e, castigando-o eles, lhes não der ouvidos,
Então seu pai e sua mãe pegarão nele, e o levarão aos anciãos da sua cidade, e à porta do seu lugar; E dirão aos anciãos da cidade; Este nosso filho é rebelde e contumaz, não dá ouvidos à nossa voz; e um comilão e beberrão.
Então todos os homens da sua cidade o apedrejarão, até que morra; e tirarás o mal do meio de ti, e todo o Israel ouvirá e temerá".

Código de Manu, artigo 45:
"Uma mulher está sob a guarda do seu pai durante a infância, sob a guarda do seu marido durante a juventude, sob a guarda de seus filhos em sua velhice; ela não deve jamais conduzir-se à sua vontade"

Lei das XII Tábuas – Tábua 4,2:
”O pai terá sobre os filhos nascidos de casamento legítimo o direito de vida e de morte e o poder de vendê-los.”

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Da notícia em epígrafe, como esperado, resultaram as reações e os clamores frenéticos da imprensa em geral bem como dos respetivos leitores, como atestam os comentários à mesma e pelos escritos nas redes sociais, que são hoje um barómetro notável do lixo que atormenta a mente das massas humanas.

O nojo e repugnância causados ao cidadão normalizado já são viscerais, às quais se seguem campanhas indignadas, alertas furiosos e clamores frânticos para alertar contra tais atos. Os que se querem mostrar mais indignados contra o “medievalismo” e – que melhor altura haverá para marcar pontos junto do totem modernista? – vêm prontamente pedir o retorno da pena de morte, acompanhado por sevícias e torturas aos perpetradores. Medidas judiciais preventivas e reintegrativas, o ónus da prova da acusação ou e presunção da inocência só a contragosto se aplicam a este tipo de prevaricadores da ordem social.

Não me interessando falar especificamente deste caso, o qual não conheço em detalhe, parece-me por demais interessante investigar a causa da tão grande celeuma que estes atos causam na nossa sociedade, que a meu ver estão graduados acima da violência sexual contra crianças ou atos de necrofilia, no que concerne à repulsa social causada.

Porque é que uma sociedade que convive com o homicídio de forma diária (assista-se a qualquer noticiário ou a programas e séries televisíveis), que não se indigna com uma violência urbana crescente, que assiste de forma passiva ou ativamente passiva a desastres humanitários que ceifam a vida a milhões de seres humanas e que, inclusive, participa mais ou menos ativamente em campanhas militares internacionais que causam a perda de vida de milhares de pessoas anualmente - tem uma reação tão desproporcionada para com este tipo de crimes, que com certeza constituirão uma risível percentagem de assassinatos em qualquer território nacional europeu?

Parece-me que há um conjunto de razões, que serão agrupadas numa causa geral: o de estas ações constituírem o maior ato de rebeldia possível ao atual sistema de valores do chamado ocidente. Atente-se bem: 1 - os meliantes não se movem por qualquer interesse social, económico ou vantagem discernível para o cidadão comum, que são o móbil da esmagadora maioria dos crimes modernos; 2 - a ação visa muito menos uma vingança meramente retributiva, mas essencialmente restabelecimento da honra de uma entidade supra-individual; 3 - a liberdade individual de escolha e de auto-determinação, vista como ente sagrado nos dias de hoje, foi submetida a códigos familiares e religiosos; 4 – revela uma conceção da sociedade em que a liberdade individual, e em especial a da mulher, está submetida ao poder patriarcal.

Numa sociedade que vê a total libertação do indivíduo como um desiderato ideal; que se rege por padrões de comportamento que promovem a busca do individualismo acima de quaisquer outros organismos sociais, para além do estado; que não concebe valores mais elevados que a promoção de um bem-estar acéfalo e materialista de indivíduos ou grupos; que secularizou de forma total a vida social, que a religião se reduziu a uma moralidade mesquinha e que se adapta cada vez mais aos egoísmos privados e às últimas ideologias de “libertação”; onde o papel da família é reduzido cada dia a um acidente biológico que anacronicamente ainda vai subsistindo; onde o homem e a mulher são vistos como seres absolutamente iguais em direitos e deveres e que promove a todos os custos uma utopia distorcida que pretende ignorar que homem e mulher só se cumprem no preenchimento da sua natureza biológica, psíquica e espiritual; onde o papel dos pais é o de mero suporte financeiro aos filhos biológicos, que cada vez mais são indotrinados para ver a família como uma teia da cuja cabe fugir quanto antes; cujos filhos são, levados por uma psiquiatria doentia a considerar como realidade as partes mais negras da psique, onde os recalcamentos familiares e a culpa dos pais são considerados a força motriz da sua saúde mental; numa sociedade onde as noções de honra não passam de mero atavismo e onde tudo de se deve compreender e aceitar em nome do mito da tolerância e de um humanismo que mais não faz que desarmar o que de forte e nobre existe num ser orgulhoso e auto-suficiente – poderá haver crime mais sacrílego que o do Pai que mata a filha porque esta desonrou a família?

Repare-se que muitos dos homicidas de outra ordem encontram apologistas ou racionalizadores nos setores académicos, intelectuais e mesmos judiciais: o pobre que mata o rico fá-lo, muitos dizem, porque aquele se encontra oprimido por estruturas de repressão económica e social, quando não de sistemático racismo, que ajudarão a compreender se não mesmo a atenuar a culpa; o mesmo se aplica a todos os indivíduos e aos mais variados crimes: a mulher, que vive num sistema patriarcal; o pedófilo, que foi reprimido sexualmente na juventude; o negro, que viveu num clima de opressão xenófoba; o jovem, que é inimputável, etc…

 Os últimos séculos no Ocidente, em termos judiciais, foram caracterizados por uma gradual transferência da culpabilidade do delinquente para o Estado e para a sociedade, vistos pela vanguarda que tomou conta dos nossos destinos como os causadoras últimos das amarguras dos cidadãos oprimidos, o que explica em grande parte, se não na totalidade, os seus comportamentos criminais (atente-se ao crescimento desproporcional de medidas de coação preventivas e integrativas – aplicação de coimas, penas suspensas, reabilitação, multas, reabilitação, etc. - em relação à aplicação de penas punitivas pelo Estado ou pelo lesado).

Esta atitude não se aplica ao nosso “delinquente” que toma nas suas mãos a restituição da honra da sua família e restaurador da ordem - antítese do criminoso moderno – sobre o qual a reprovação pública e a severidade penal não tem igual.

Cabe-nos a nós, conscientes da total inversão de valores em que o mundo moderno vegeta, reconhecer a sua natureza heroica (não nos permita-mos pensar que os autores não conheciam as severas consequências que as suas ações acarretariam), eco de um conceito de vida que vai definhando e que se exprime por atos de afirmação absoluta, de quem acredita que a vida humana está submetida a valores absolutos e que nos encontramos na Terra para servir o sagrado, a todo custo.


Wednesday, August 2, 2017

Da Nobreza

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Que na Europa e um pouco por todo o Mundo se vive um período de decadência e dissolução é por demais evidente para todos aqueles que têm olhos de ver.

A estas nuvens negras assombradoras sempre houve forças que se opuseram. Se ainda há alguns séculos, e em alguns casos décadas, o combate ainda se fazia no seio da sociedade, na academia, no setor económico, político e inclusive no campo militar, cabe hoje reconhecer, especialmente no mundo ocidental, a derrota das forças reacionárias, já que os tentáculos progressistas podem clamar uma vitória quase total, pelo que a sua mundivisão reina incontestada, tendo tomado de assalto todas as instituições públicas.

O homem de bem, de forma consciente e inconsciente, sentindo-se instintivamente repelido pela nova ordem negra, faz por reagir: ora ainda tenta criar forças políticas (cada vez mais pequenas e de diminuta expressão), movimentos culturais, associações mais ou menos nostálgicas, debate de ideias dentro do seu círculo próprio e, aqui e ali, atos violentos de caráter desesperado.

Reconhecendo o mérito de todo tipo de reações contra o tal “estado das coisas”, parece-me que, descontando as pírricas pequenas vitórias que ainda acontecem, todos estes atos têm-se revelado inúteis face à crescente avalanche de ondas maléficas, pelo que podemos considerar tais atitudes no fundo infrutíferas no grande esquema da situação atual.

Não sendo o acima descrito surpreendente para todo aquele que olha a presente situação com distância e discernimento, cabe-me apontar uma crescente lacuna na chamada atividade de “contra-ataque”, a qual considero mesmo a mais importante: a nobreza.

Na Europa - e em todas as antigas sociedades ditas tradicionais – sempre houve uma classe “social” que incorporava em si valores sob os quais todas as outras classes e estruturas comunitárias se submetiam. Não querendo entrar aqui em discussões profundas sobre a relação da nobreza com a igreja, cabe reconhecer que aquela, no geral, sempre ocupou, nem que fosse só pela primazia que possuía em termos de força militar, o lugar de topo na antiga sociedade, que exerceu sempre em nome próprio ou por submissão voluntária ao mandato religioso.

Se a nobreza, principalmente desde o período da chamada Baixa Idade Média, esteve essencialmente ligada ao acima referido poder militar e ao domínio de largas porções de terra, como função social externa, cabe reconhecer que ela era e sempre foi – mesmo não o sabendo – a depositária de um conjunto de valores e códigos que superavam em muito tais funções seculares.

Tendo origem imemorial e divina (o seu estabelecimento está consagrado em todos os textos sagrados indo-europeus), a nobreza, especialmente na era pré-cristã, foi sempre reconhecida como a depositária dos valores de origem supranatural representantes da elevada espiritualidade que atravessava todas as verdadeiras civilizações do mundo, reflexo terrestre da herança primordial hiperbórea.

E se nos tempos mais recentes, esta “classe” (melhor diríamos - ordem) em todo o mundo se secularizou, passando a estar somente ligada a funções militares e à possessão de terras, a sua importância, como depositária espiritual desse legado primordial, esteve no fundo ligada à sua função de ponte entre o elemento terrestre e o elemento sobrenatural, que é a razão primeira da sua existência em todas as sociedades tradicionais, da América ao Japão.

Esta função natural, fruto da dignidade própria de seres portadores deste legado supra-pessoal, era reconhecida pelos restantes elementos da sociedade, que livremente se submetiam a esta estirpe superior, que simbolizavam o elemento divino ao qual todas as estruturas sociais, atividades, atos e comportamentos se subordinavam e que tinha no seu vértice a figura do Rei, portador máximo desta dignidade, o mais nobre dos nobres.

Aos nossos contemporâneos é quase impossível entender (incapacitados que estão pela historiografia moderna de vertente historicista, secular e materialista) a verdadeira natureza deste organismo piramidal, comum a toda a antiga humanidade que se regia por princípios imemoriais de alta espiritualidade, que não era mantida nem pela força militar ou pela violência (e muito menos por superestruturas de opressão económica, como são de grosso modo as sociedades contemporâneas), mas pelo facto de aquelas se orientarem pelo elemento divino e que reconheciam uma classe de seres que possuíam em si essa componente divina – a nobreza, os únicos homens livres.

Olhando agora para o mundo moderno, parece então fútil perder tempo e entrar em discussões estéreis sobre possíveis alternativas políticas, modelos económicos, análises sociológicas, interpretações “geo-políticas”, acções militares, etc., sem fazer referência ao que causou verdadeiramente o estado presente e é a causa de todas as confusões presentes: o desaparecimento de uma estirpe humana que servia de farol ao resto das massas humanas, que pela sua condição funcionava como reflexo da luz divina e mantinham, mais por estas qualidades que por meras acções externas, presentes no campo terrestre elementos desta solaridade espiritual que moldavam o organismo social e as acções dos homens submetidos a elas, refreando o elemento demónico que sempre anseia por espalhar o caos por entre as brechas abertas.

Acima de tudo, o apelo que tem de ser feito é aquele que relembra a todos os homens que sentem dentro de si o chamamento para reconectar o seu ser com esse elemento solar que permeia uma classe especial de homens, já que, não havendo hoje instituições iniciáticas que permitam a sua ativação, tal só se poderá fazer por um ato de vontade individual de atingir o absoluto.

Esta estirpe de seres nada tem a ver com as “nobrezas” modernas, que no seu esclerosismo mais não são que relíquias vegetativas de um passado que também não compreendem e cuja ligação é feita somente pelo brazão ou apelido, já que o espírito há muito o perderam, pelo que, sem acção interna, continuarão a ser meros espantalhos a caminho da extinção final.


Os verdadeiros nobres do futuro serão aqueles, como os nobres da antiguidade, que não se revêem no fluxo da matéria; aquele que se conhece como sujeito e não objeto; que desdenha as massas; que se mantém sempre digno, centro de si próprio; que não é “atuado” mas que atua; soberano da sua mente e demais sentidos; que não é influenciado e também não se incomoda; o que age em função do bem e justo, porque tal é a sua natureza; aquele que possui e que nunca é possuído; que não se rege por códigos externos nem porque teme o pecado; o que sabe que a manutenção da ordem e justiça depende da sua conduta externa e interna; que se mantém vertical e para qual a mentira é tão grave como o mais abjeto crime; aquele para quem a experiência religiosa será sempre uma afirmação da sua vontade e identificação desta com o ato, que se manifesta na sua atualização.

Tuesday, August 1, 2017

O Século XIX: A Revolução Acorda




Aqui deixo a tradução para português do primeiro capítulo da obra de Emmanuel Malynski, intitulada A Guerra Oculta, 1940.

Este livro polémico que tenta desvendar a história profunda, as forças secretas responsáveis pelos ventos históricos que varrem a história humana desde os finais do século XVIII, revela a audácia do autor em tentar articular esta história invisível e dar nomes aos autores escondidos.

Qualquer pessoa que queira perceber a história humana sem tentar perceber as correntes profundas da história, ficar-se-á por um entendimento superficial da mesma, arriscando-se a ser objeto da história, em vez de sujeito. 

Para ler o livro todo com a mente aberta e sem um pouco de cuidado, pela delicadeza do tema e pela grandeza da empresa a que o autor se propõe.



O Século XIX: A Revolução Acorda

A chave da inteira história do século XIX é a evolução do movimento revolucionário de 1789 até ao bolchevismo russo.

A luta subterrânea iniciou-se com a Revolução Francesa, iniciada pelos Illuminati reunidos no Congresso de Wilhelmsbad debaixo da presidência do professor bávaro Weishaupt. Um setor da cidade, já assediado desde dezenas de anos atrás (já ela o estava desde os tempo de Rosseau, do Enciclopedismo e da difusão das lojas), um dos setores mais belos, foi tomada de assalto e os seus habitantes foram chamados a atacar os setores próximos. Como sucede nos assaltos verdadeiros, esta parte da cidade foi recuperada pelos outros assediados, depois dos encarniçados combates da era napoleónica. Os assediantes, então, retiraram-se e voltaram às suas posições de segurança. No entanto eles deixaram na praça assediada um germe infeccioso que ali frutificou, provindo de França no século XIX o l’enfant terrible de toda a Europa.

É em França que tiveram nascimento aquelas revoluções que, debaixo das ideias liberais, nobres e generosas, com a sua realização gradual, modificaram insensivelmente o rosto do mundo cristão e a estrutura interna da sociedade europeia, em benefício de elementos revolucionários, entre os quais os hebreus estavam na primeira fila. Toda a história profunda do século XIX, até à Primeira Guerra Mundial, é a história desta luta muda e surda na maior parte dos casos; luta entre os assediantes, que sabiam muito bem o que faziam e os assediados, que não se davam conta do que sucedia.

Dito processo durou exatamente um século e dois anos (1815-1917) e conduziu a dois resultados.

O primeiro é a transformação da sexta parte do mundo habitado num foco revolucionário, impregnado de maçonaria e judaísmo, em que a infeção já madura se torna consciente das forças que a organizavam, com a segurança total com vista à segunda parte do programa.

O segundo é a transformação do resto do planeta num ambiente brando, desarticulado e dividido interiormente por rivalidades irascíveis e ódios regionalistas. Ela tornou-o incapaz de toda a iniciativa de caráter ofensivo e também defensivo, contra um inimigo cuja força e cuja audácia também aumentaram consideravelmente e que, seguro da sua imunidade, acreditava que podia sempre atacar, sem correr o risco de ter que se defender nunca.

Definitivamente, isto deveu-se a um ambiente mundial tão dominado pelo capitalismo, tão anemizado pela democracia, tão sacudido pelo socialismo e dividido por nacionalismos mal entendidos, que já não foi capaz de contrapor resistência firme a um ataque similar.

No ano de 1813 a Europa tradicional por fim havia decidido reagir contra a revolução, personificada por Napoleão. Tratava-se propriamente da revolução, e não da França, do mesmo modo que se combate contra a doença que apoquenta uma pessoa e não contra a pessoa em si. A melhor prova disso é que o Congresso de Viena não abusou em absoluto da sua vitória com respeito à França vencida, a qual não perdeu nada do seu território, a qual volveu a ser uma monarquia honorável e honrada. Os monarcas de direito divino da Europa não fizeram senão reparar a sua culpa capital, por causa da qual haviam corrido o risco de perder a coroa e que tinham empurrado os seus povos a convulsões democráticas já um século antes do momento fixado pelo destino.

Esta culpa referia-se ao fato de todos os monarcas, em quanto a miopia, haviam superado inclusive Luís XVI. Este havia-se obstinado em não ver nada mais que os movimentos acidentais de revoltas devidos a descontentamentos ocasionais, ali onde em vez começava a era revolucionária. Do mesmo modo, estes monarcas só pensaram em rivalidades de nacionalismos regionalista, em vez de se porem de acordo como um só homem, esquecendo as suas divergências crónicas que, em comparação, eram somente divergências de famílias, para eliminar o germe, antes que este pudesse manifestar-se e difundir-se, o perigo que ameaçava o mundo.

Como demasiados dos nossos contemporâneos, eles tão pouco pareceram dar-se conta que se iniciava um novo capítulo da história. A guerra por excelência do século XIX devia der aquela dos estratos sociais sobrepostos: a guerra da democracia universal contra a elite universal; a guerra do de baixo contra o de cima; e a guerra do mundo inferior contra o mundo divino será em geral a consequência lógica. Onde a democracia triunfará, ali o baixo transformar-se-á no alto e deverá defender-se contra algo ainda mais baixo, que por sua vez, encontrar-se-á na mesma situação apenas chegado ao poder e ao vértice. Em linha máxima, tem sempre sido uma guerra da democracia contra uma aristocracia relativa, e assim deviam as coisas suceder-se fatalmente, até ao dia em que se tocou no fundo.

No dia de hoje, só a Rússia alcançou esse zero absoluto, debaixo do qual já nada mais resta; assim, ela é o único país na história, em que a revolução está estacionária, que não aumenta já em profundidade: ela tende só à expansão e não poderia ser de outra maneira. Contra os nossos argumentos, que a revolução bolchevique alcançou o último grau de profundidade, poder-se-ia objetar que as coisas não são assim, posto que ela todavia não ganhou a maior parte do povo russo, nos seus estratos realmente profundos. Quem postulasse tal argumento e fosse realmente sincero, posto que muitos utilizam-no para não deixar entrever a verdade, demonstraria ter-se ficado no ponto de considerar a revolução moderna ou a democracia, que é a sua continuação, como uma manifestação “do povo, feita pelo povo, para o povo”. A verdade é que, ao contrário, a revolução e a democracia são só meios empregues no conjunto de um plano de conspiração geral, para arrancar o poder sobre o povo das mãos daquele grupo e daquela ideia positivamente aristocrática, que sempre esteve acima e mais além da maioria do género humano.

Revolução burguesa, democracia, revolução “social”, comunismo, não são senão episódios de um duelo gigantesco entre dois princípios, personificadas um pela tradição e outro pela anti-tradição. E se Satanás se rebelou, em nome da liberdade e da igualdade em relação a Deus, tal aconteceu não só para não servir, senão para submeter, substituindo-se à autoridade do Altíssimo.

O povo não é portanto o sujeito senão o objeto desta revolução do suposto progresso democrático, constelado por revoluções violentas que aceleram a sua marcha.


Sobra ainda toda a hierarquia humana quando nos começamos a separar da tradição: o Renascimento. Sobram os príncipes e os reis, quando nos separamos da hierarquia religiosa e do emperador: a Reforma. Sobra a burguesia quando nos separamos da nobreza dos príncipes e reis que são os ápices desta: Revolução Francesa. Sobra ainda o povo, quando se ultrapasso o estado da burguesia: 1848 – 1917. Não sobram senão e escória e um mundo sub-humano quando se vai mais além das massas: 1917, bolchevismo. Quando a revolução completa-se em profundidade como o é na Rússia, e por extensão, como o poderá ser só quando o mundo se pareça ao império decaído dos czares, ela não se preocupará no que o povo pensa, mais do que a nós nos preocupa aquilo que os nossos cordeiros ou os nossos bois poderão ter na cabeça, posto que sabe que bastam umas poucas bactérias para exterminar sem perigo algum para as nossas pessoas, a totalidade de todas as bestas do rebanho.

Futebol - Desporto Satânico

O aparecimento do desporto de massas é um dos fenómenos típicos da modernidade, do qual futebol é sem dúvida o seu exemplo mais proe...