Saturday, October 21, 2017

Tradução: O Centro Supremo Oculto Durante o Kali-Yuga






Em baixo tradução do capítulo “O Centro Supremo Oculto Durante o Kali-Yuga”, do Livro “O Rei do Mundo”, de René Guénon.

O autor, nesta obra, debruça-se sobre o mito da existência de um ser ou local que, no planeta terra, representaram ou ainda representam o ponto de contacto com a Tradição Primordial e com o Princípio Universal, o qual é referenciado em lendas e mitos tradicionais das mais diversas épocas e geografias, como por exemplo o do Rei Artur, que intui a uma conhecimento esotérico ligado a um centro a ser atingido por um ser eleito dotado de poderes sobrenaturais, ou de Melquisedeque, da qual Jesus Cristo teria sido um Sumo Sacerdote da sua Ordem (Epístola aos Hebreus, 5,10).

Neste curto capítulo, o autor reflecte sobre as possibilidades de existência no Ocidente da manutenção de centros iniciáticos que permitam a transmissão própria deste princípio a quem assim esteja disposto e capacitado, especialmente dadas as presentes condições da humanidade, que desde há milénios se encontra mergulhada na dita “Idade de Ferro”; quem foram os seus legítimos portadores e os processos que levaram ao seu desaparecimento para outras paragens terrestres.


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Agarttha, é dito, nem sempre existiu de forma subterrânea, e não subsistirá assim para sempre. Um dia virá quando, de acordo com Ossendowski, “o povo de Agharti irá sair das grutas e reaparecerá à superfície da terra1”. Antes da sua desaparição do mundo visível, o centro tinha um outro nome já que “Agarttha”, que significa “inalcançável” ou “intangível” (e também “inviolável” assim como é também Salem, “a morada da paz”), ainda não se tinha tornado apropriado. Ossendowski data a sua retirada subterrânea desde há “mais de seis mil anos atrás”, o que corresponde, numa aproximação razoável, ao início do Kali-Yuga, ou a “Idade Negra”, “a Idade de Ferro” do antigo Ocidente, que é o último dos quatros períodos em que o Manvatara está dividido2. O seu reaparecimento deverá portanto coincidir com o fim do mesmo período.

Referência já foi feita a algo que está perdido ou escondido, comunicado em todas as tradições, e a qual é representada por diferentes símbolos; num sentido geral esta perda bate exactamente com as condições da humanidade durante a Kali-Yuga. O período corrente é um de obscurecimento e de confusão3, as suas condições são tais que o conhecimento iniciático deve permanecer escondido enquanto este perdure, o que explica a natureza dos “Mistérios” da antiguidade histórica (a qual não data sequer do início do nosso período)4 e as sociedades secretas de todos os povos. Tais organizações fornecem uma iniciação efectiva apenas onde ainda existe uma autêntica doutrina tradicional, oferecendo apenas uma sombra quando o espírito da doutrina já não vivifica os símbolos que são meramente as suas representações exteriores; isto acontece quando, por diversas razões, a ligação consciente com o supremo centro espiritual do mundo é ultimamente quebrada. Esta perda de uma ligação direta e efectiva com o centro supremo é o aspecto mais significativo da perda de uma tradição, a qual afeta particularmente os centros secundários e dependentes.

É importante compreender que deveríamos estar a falar de algo que se encontra escondido em vez de estar verdadeiramente perdido, porque não se encontra perdido para todos mas é ainda possuído na sua plenitude, apesar de o ser por uns poucos. Isto conduz à possibilidade de alguns a redescobrirem, desde que a busquem da maneira própria, o que significa que a sua intenção deve estar direcionada de tal modo que, através das vibrações harmoniosas que desperta, permite que uma comunicação espiritual efectiva seja feita com o Centro Supremo,5 através da lei das “acções e reações concordantes”.6 Em todas as formas tradicionais a correta intenção é sempre geralmente representada simbolicamente por uma orientação ritual, propriamente direcionada em direcção a algum centro espiritual que – seja qual for – é sempre uma reflexão do verdadeiro “Centro do Mundo”.7 No entanto, à medida que o Kali-Yuga progride, mais difícil se torna alcançar a unidade com este centro, que por sua vez se torna cada vez mais fechado e oculto; ao mesmo tempo esses centros secundários que o representam externamente tornam-se mais raros;8 no entanto quando este período terminar a tradição irá necessariamente de novo manifestar-se na sua totalidade, já que o início de cada Manvantara coincide com o fim do seu predecessor, implicando então o retorno inevitável do “estado primordial” para a humanidade na terra.9

Na Europa, toda a ligação conscientemente estabelecida com o centro através da mediação de organizações ortodoxas encontra-se agora quebrada, como tem estado desde há vários séculos. Esta separação foi gradual, completada em várias etapas sucessivas em lugar de uma só vez.10 A primeira destas quebras ocorreu no início do século catorze, quando uma das principais funções das Ordens de Cavalaria era o de realizar a ligação direta entre o Oriente e o Ocidente. A importância de tal ligação será rapidamente entendida quando é relembrado que o centro tem desde sempre, pelo menos desde os tempos “históricos”, sido descrito como estando localizado no Oriente. Depois da destruição da Ordem dos Templários, a ligação foi mantida de uma forma menos aberta pelos Rosacruzes, ou por aqueles aos quais esse nome foi depois atribuído.11 A Renascença e a Reforma marcaram outra fase crítica, depois da qual, como Saint-Yves parece sugerir, a ruptura completa e final coincidiu com os tratados de Vestefália que acabaram com a Guerra dos Trinta Anos em 1648. É um facto notável, que vários escritores concordam, que os verdadeiros Rosacruzes deixaram a Europa pouco tempo depois da Guerra dos Trinta Anos para se refugiarem na Ásia: será recordado que os adeptos Rosacruzes eram doze, assim como os membros do círculo íntimo de Agarttha: ambos cumpriam, portanto, com a constituição comum a tantos outros centros espirituais formados à imagem do centro supremo.

Desde este último período, o acervo de conhecimento iniciático efectivo não tem sido devidamente mantido por qualquer civilização ocidental. De acordo com Swedenborg, o “Mundo perdido” deve portanto ser procurado entre os Sábios do Tibete e da Tartária, onde o misterioso “Monte dos Profetas” da visão de Anne-Catherine Emmerich também se localiza. A informação fragmentária que a Senhora Blavatsky conseguiu juntar nesta matéria sem a perceber na sua verdadeira acepção – deu nascimento à sua concepção da “Grande Loja Branca”, à qual não deveríamos chamar uma imagem de Agarttha, mas simplesmente uma caricatura ou uma paródia imaginária da mesma.12



1 Estas são as últimas palavras de uma profecia que o “Rei do Mundo” é suposto ter feito em 1890, quando apareceu num mosteiro em Narabanchi.

2 O Manvantara, ou a era de um Manu, também designado por Maha-Yuga, é composto por quatro Yugas ou idades secundárias: Krita-Yuga (ou Satya-Yuga), Treta-Yuga, Dwapara-Yuga e Kali-Yuga, as quais são identificáveis com a “idade do ouro”, “idade de prata”, “idade de bronze” e “idade de ferro”, da antiguidade greco-latina, respetivamente. Na sucessão destes períodos existe um tipo de materialização progressiva resultante de um distanciamento gradual do Princípio que acompanha o desenvolvimento do ciclo de manifestação no mundo corpóreo, desde o “estado primordial”.

3 O início desta idade está, no simbolismo bíblico, representado pela Torre de Babel e pela “confusão das línguas”. Podia-se logicamente pensar que a queda e o dilúvio correspondem ao fim das duas primeiras idades; mas, na realidade, o ponto de partida da tradição hebraica não corresponde ao início do Manvantara. Não deve ser esquecido que as leis cíclicas aplicam-se em diversos graus, para períodos de extensão desigual, os quais que por sua vez por vezes se sobrepõem; portanto, as complicações que, à primeira vista, parecem inextrincáveis e que podem com efeito ser resolvidas apenas por considerar a ordem de subordinação hierárquica dos correspondentes centros tradicionais.

4 Parece que nunca houve reconhecimento do facto de que os historiadores acham praticamente impossível em todas as culturas estabelecerem uma cronologia inquestionável para tudo o que é anterior ao século sexto antes da era Cristã.

5 O que dissemos permite-nos interpretar as seguintes palavras do Evangelho de um modo muito preciso: “procurem, e hão-de encontrar; batam à porta, e ela há-de abrir-se, pois o que pede, recebe; o que procura, encontra; e a quem bate, a porta se abrirá. Aqui deve-se naturalmente referir as indicações que já demos relativo à “boa intenção” e à “boa vontade”; a explicação da expressão Pax in terra hominibus bonae voluntatis [Paz na Terra aos homens de boa vontade] é facilmente compreendida neste contexto.

6 Esta expressão foi emprestada da doutrina Taoista; além disso, entendemos aqui a palavra “intenção” no exato mesmo sentido que o niyah arábico, o qual é assim usualmente traduzido, para além de isto se conformar à etimologia latina (de in-tendere, “tender a).

7 No Islão, esta orientação (qiblah) é como se fosse a materialização, se podemos utilizar a expressão, da intenção (niyah). A orientação das igrejas Cristãs é outro caso particular que está essencialmente ligado a esta ideia.

8 Apenas uma relativa materialização é, claro está, pretendida, já que estes centros secundários têm eles mesmo sido mais ou menos estritamente fechados desde o início do Kali-Yuga.

9 Esta é a manifestação da celestial Jerusalém, que é, em conexão com o ciclo que está a terminar, a mesma coisa que o Paraíso Terrestre em conexão com o ciclo que está a começar, como explicado no livro L´Esoterisme de Dante.

10 Do mesmo modo, de um ponto de vista mais alargado, existem graus para a humanidade nos distantes confins desde o centro primordial, e é a estes graus que a distinção dos diferentes Yugas corresponde.

11 Aqui de novo nos referimos ao nosso estudo L´Esoterisme de Dante, onde fornecemos toda a necessária informação de suporte.


12 Aqueles que entendem todas as considerações aqui expostas irão ver como consequência clara porque não podemos tomar seriamente as muitas pseudo-organizações iniciáticas nascidas no Ocidente contemporâneo: nenhuma delas, se sujeita a um exame rigoroso, poderia provar a menor prova de “regularidade”.

Tuesday, October 17, 2017

René Guénon - A Crise do Mundo Moderno




Na continuação da senda de disponibilizar conteúdos dos Mestres da Tradição, tanto em forma escrita como em áudio, em língua portuguesa, é com prazer que comunicamos que o áudio do livro "A Crise do Mundo Moderno", de René Guénon, se encontra já disponível no youtube.

Este tomo é uma introdução fundamental a toda à vasta obra do autor e ao Perenialismo em geral, já que Guénon expõe aqui, em traços gerais, a morfologia e os paradigmas do mundo moderno, criticando-o por esta ser o caso nos anais da história da presente humanidade em que uma dita "civilização" se construiu com base na negação dos princípios metafísicos que sempre regeram os assuntos do povos.

Praticamente desconhecido pela dita intelligentsia que ocupa no tempo presente as universidades e os meios culturais ocidentais - por razões que se tornarão muito óbvias a quem se debruçar na sua obra - este autor único do século XX escapa a qualquer apodo que se tente colar à sua figura e legado, já que as palavras 'místico', 'ocultista', 'filósofo', 'intelectual', 'matemático', 'tradicionalista' ou 'orientalista' não conseguem captar a essência da obra ímpar que nos deixou (que se estende do campo matemático à crítica da filosofia modernista, da metafísica hindu ao esoterismo cristão e islâmico, da escoriação dos pretensos movimentos religiosos e pseudo-ocultistas do século XX aos estudos da simbologia real e religiosa, da interpretação da história do mundo antigo à análise da atual e da antiga função da maçonaria e grupos ocultistas, e por aí adiante) e cuja leitura aprofundada  é fundamental para todos os que se dizem amantes da Verdade e buscam de coração limpo o Uno, o Imutável, o Universal.

Humildemente deixamos este áudio que, não sem defeitos, tem o objetivo de ser um ponto de partida para o estudo sincero das profundíssimas matérias a que Guénon dedicou toda a sua vida e que considerou ser a sua missão nesta sua etapa terrestre.

Monday, October 16, 2017

Tradução: A Visão Cíclica da História

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Temos o prazer de deixar abaixo traduzido, do inglês, o primeiro capítulo da obra maestra de Savitri Devi, "O Raio e o Sol".

Não tendo conhecimento de qualquer tradução em português deste livro, esta parece-nos ser uma boa introdução à visão cíclica da história, comungado no fim de contas por todos os grandes credos mundiais - com ênfase dado às religiões prévias ao dito monoteísmo que hoje predomina no Ocidente.

A primeira parte desta obra é composta de 3 capítulos, incluindo o de baixo, e trata de introduzir o leitor, que não se encontra familiarizado com tal visão cosmogónica, à doutrina das 4 Idades, da qual a presente humanidade se encontra, de momento, na mais decadente e negra delas – Kali Yuga.

De acordo com a visão Hindu, religião - diríamos melhor, cosmovisão - a que a autora se converteu ainda jovem, o mundo terrestre não pode ser dissociado do mundo dito espiritual, comungando dele influências. Nos casos mais extremos, aparecem na Terra, inclusivamente, seres raros dotados de influências cósmicas excecionais, que são eles mesmos personificações destas no seu aspeto mais puro, verdadeiros Deuses na Terra. 

Savitri Devi, nas três partes principais do livro, faz em cada a análise da vida e obra de seres humanos que, segunda a qual, foram as personificações mais acabadas de que há registo dessas forças cósmicas, que podem ser de 3 tipos, segunda a doutrina Hindu: a favor do tempo - forças de carácter destrutivo que ganham cada vez mais força à medida que nos aproximamos do final do ciclo (Gengis Khan foi a sua personificação mais acabada); forças acima do tempo, que se encontram acima dos acontecimentos terrestres, do devir, e estão em permanente contacto com o Absoluto e o Uno metafísico (Aquenáton, o Faraó da XVII dinastia egípcia que criou um culto solar e trasladou a capital do Egipto para uma nova capital dedicada à adoração do Deus Solar, Aton, terá sido o seu incorporador, a par de outras figuras como Buda ou Jesus Cristo); forças contra o tempo, as forças cósmicas que representam a influência no domínio terreno da eterna solaridade e pureza primordial, cuja restauração se acabará por fazer de forma definitiva no período mais decadente da humanidade - para Savitri Devi, Adolfo Hitler foi a sua personificação, já que o seu uso de meios tenebrosos para evitar a decadência em que o mundo caiu com vista a uma restauração de uma Ordem superior só falhou temporariamente, já que a mesma ideia-força, irá reencarnar ultimamente sob a figura de Kalki Avatar, o profetizado redentor da Humanidade que na altura designada - o ponto mais decadente do Kali Yuga - irá restaurar a Idade de Ouro e eliminar as forças sinistras que só temporariamente poderão declarar vitória.

Recomendamos este livro que tanto pelo lado de fantástico que as assunções feitas pela chamada “Profetiza de Hitler” - a que queria fazer de Hitler o que São Paulo fez de Jesus - e pioneira do que mais tarde veio a ser designado por Nazismo Esotérico, expõe um radicalismo tanto de visão como de ação que não pode deixar de ser admirado por todos aqueles que hoje em dia se dizem contra o sistema.

Mais importante ainda, a introdução por uma europeia a uma visão clara da cosmogonia hindu com uma correspondente crítica sem quartel ao período que os antigos textos Hindus designam por “Idade do Vício” - cujos detalhes, que atualmente estão a ser vividos, foram profetizadas em textos sagrados de há milhares de anos e só chocarão o leitor mais desatento - não pode deixar de ser salutar, especialmente em relação aqueles que pensam que a verdadeira sabedoria só pode ser encontrada entre Lisboa e Vladivostoque.



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A ideia do progresso – melhoramento indefinido – não é necessariamente moderna. É provavelmente tão velha como a mais antiga bem-sucedida tentativa humana de melhorar os seus arredores materiais e de aumentar, através de capacidade técnica, a sua capacidade de ataque e de defesa. Capacidade técnica que, pelo menos por muitos séculos, tem sido tão apreciada como detestada. Quando demonstrada a um grau excecional, tem sido, mais que uma vez, elogiada como algo divino. Lendas fabulosas têm sempre sido produzidas, por exemplo, à volta de homens dos quais foi dito terem sido capazes, por alguns meios, de se terem elevado, fisicamente, acima da terra, tenha sido Etana de Uruk que subiu aos céus “levado sob as asas da águia” ou o famoso Ícaro, infeliz predecessor dos nossos modernos aviadores, ou o irmão de Manco Capac, Auca, do qual foi dito ter sido presenteado com asas “naturais”, as quais demonstraram não serem melhores que as artificiais de Ícaro.

Mas à parte de tais feitos incríveis de um par de indivíduos, os Antigos como um todo distinguiram-se em muitos feitos materiais. Eles podiam-se gabar do sistema de irrigação da Suméria; da construção das pirâmides, revelando, tanto no Egipto como centénios mais tarde na América Central, um incrível conhecimento de dados astronómicos; dos banhos e dos escoamentos no palácio de Cnossos; da invenção do carro de guerra depois da do arco e da flecha; e da invenção da ampulheta depois da do relógio do sol – suficientes para os tornar cheios de presunção e com excesso de confiança no destino das respetivas civilizações.

No entanto, apesar de terem reconhecido totalmente o valor do seu trabalho no campo prático, e seguramente muito cedo conceberam a possibilidade – e talvez tenham adquirido a certeza - de um progresso técnico ilimitado, eles nunca acreditaram no progresso como um todo, num progresso em todas as frentes, como quase todos os nossos contemporâneos parecem fazer. Da análise de todas as evidências, eles fielmente agarraram-se à ideia tradicional da evolução cíclica e tinham, a somar a isso, o bom senso de admitir que viviam (apesar dos seus feitos) no início do prolongado processo descendente, que constituía o seu ‘ciclo’ particular – e do nosso. Fossem hindus ou gregos, egípcios ou japoneses, chineses, sumérios, ou antigos americanos, - ou até romanos, os mais “modernos” entre os povos da Antiguidade – todos colocavam a “Idade de Ouro”, a “Idade da Verdade”, o domínio de Cronos ou de Rá, ou de quaisquer outros Deuses na Terra – o glorioso Começo do lento, descendente desfraldar da história, qualquer que seja o nome dado – bem atrás deles no passado.

E eles acreditavam que o retorno de uma Idade similar, pressagiada nos seus textos sagrados e nas suas tradições orais, dependia, não do esforço consciente do homem, mas de leis de ferro, inerentes à própria natureza da manifestação visível e tangível, e que tudo permeavam; de leis cósmicas. Eles acreditavam que o esforço consciente do homem não é mais do que a expressão dessas leis em ação, levando o mundo, consciente ou inconscientemente, onde quer que o seu destino se encontre; numa palavra, a história do homem, como a história do resto dos seres, não é mais do que um detalhe da história cósmica sem início ou fim; um resultado periódico da inerente Necessidade que liga todos os fenómenos no Tempo.

E como os Antigos podiam aceitar a visão da evolução do mundo enquanto tiravam o máximo partido de todo o progresso técnico ao seu alcance, também podem – e assim o fazem – até este dia, milhares de homens criados à sombra de culturas milenares centradas à volta das mesmas visões tradicionais, e também, mesmo no meio das arrogantes culturas industriais, uns poucos indivíduos isolados capacitados a pensarem por si próprios. Eles contemplam a história da humanidade numa perspetiva similar.

Enquanto vivem, aparentemente, como homens e mulheres “modernos” – usando ventoinhas elétricas e ferros elétricos, telefones e comboios, e aviões, quando o podem – eles cultivam nos seus corações um desprezo profundo pela presunção infantil e pelas esperanças inchadas da nossa idade, e pelas várias receitas para “salvar a humanidade”, as quais filósofos zelosos e políticos põem em circulação. Eles sabem que nada pode “salvar a humanidade”, já que a humanidade está a atingir o fim do ciclo presente. A onda que a carregou, por tantos milénios, está a ponto de rebentar, com toda a fúria da velocidade acumulada, e de se fundir nas profundezas do Oceano imutável da existência indiferenciada. Irá ressurgir; de novo, algum dia, com majestade abrupta, pois tal é a lei das ondas. Mas no entretanto nada pode ser feito para a parar. Os infelizes – os patetas – são aqueles homens que, por alguma razão melhor conhecida pelos próprios – provavelmente à conta da sua exagerada estima por aquilo que se irá perder no processo – gostariam de a parar. Os privilegiados – os sábios – são aqueles poucos que, enquanto totalmente conscientes da cada vez maior inutilidade da atual humanidade e do seu muito aplaudido “progresso”, sabem o quão pouco há para perder na vindoura colisão e olham com anseio para ela com alegre expetativa como a condição necessária para um novo começo – uma nova “Idade de Ouro”, cume iluminado da próxima longa desenhada onda descendente sobre a superfície do Oceano da Vida sem fim.

Para aqueles privilegiados – entre os quais nos contamos – toda a sucessão dos “correntes eventos” aparece sob uma perspetiva inteiramente diferente daquela que tanto os crentes desesperados no “progresso” ou daquelas pessoas que, apesar de aceitarem a visão cíclica da história e portanto de considerarem o choque vindouro inevitável, sentem pena de verem a civilização na qual vivem precipitar-se para a sua ruína.

Para nós, os muito-sonantes “ismos” aos quais os nossos contemporâneos nos pedem para darmos a nossa aliança, agoraem 1948, são todos igualmente fúteis: destinados a serem traídos, derrotados, e finalmente rejeitados em geral pelos homens; destinados a gozarem, pelo tempo presente, algum tipo de popularidade sonora; se suficientemente vulgares, pretensiosos e sem alma para apelarem ao cada vez maior número de escravos mecanicamente condicionados que rastejam sobre o nosso planeta, fazendo-se de homens livres; todos destinados a provar serem, finalmente, desprovidos de qualquer valor. As perenes religiões, a passarem de moda rapidamente à medida que os “ismos” do nosso tempo se tornam mais e mais populares, não são menos fúteis – se não mais: estruturas de superstição organizada despidas de todo o verdadeiro sentimento do Divino, ou – entre as pessoas mais sofisticadas – meros aspetos convencionais da vida social, ou sistemas de ética (e de éticas muito elementares), temperadas com borrifos de ritos ultrapassados e de símbolos cujos significados originais raramente preocupam alguém a buscar o seu significado original; instrumentos nas mãos de homens inteligentes no poder para embalarem os simplórios em obediência permanente; nomes convenientes, à volta dos quais será fácil juntarem aspirações nacionais convergentes ou tendências políticas; ou serão apenas o último recurso de débeis e caprichosos; isso é, praticamente, tudo o que eles são – todas a isso foram reduzidas no curso de poucos séculos – todas elas. Elas estão mortas, de facto – tão mortas como os antigos cultos que floresceram antes deles, com a diferença de que esses cultos há muito deixaram de exalar o fedor da morte, enquanto elas (as chamadas religiões “vivas”) ainda estão no palco na qual a morte é inseparável da corrupção. Nenhuma – nem Cristianismo, nem Islão e nem ainda Budismo – podem ser expetáveis de agora “salvar” nada desse mundo que uma vez conquistaram parcialmente; nenhuma tem qualquer lugar normal na vida “moderna”, a qual é essencialmente destituída de qualquer noção do eterno.

Não há atividades na vida “moderna” que não são fúteis, com a exceção talvez daquelas que visam satisfazer a fome do corpo: produzir arroz; produzir trigo; colher castanhas nos bosques ou batatas num jardim. E a única política sensata pode ser aquela que deixa as coisas tomarem o seu curso e esperar o vindouro Destruidor, destinado a aplanar o terreno para a construção de uma nova “Idade da Verdade”: Aquele cujos Hindus chamam Kalki e aclamam como a décima e última Incarnação de Vishnu; o Destruidor Cujo advento é a condição para a preservação da Vida, de acordo com as leis eternas da Vida.

Todos sabemos que tudo isto soará a tolice total para aqueles, mais e mais numerosos, que, apesar dos indizíveis horrores da nossa idade, se mantêm convencidos que a humanidade está a “evoluir”. Aparecerá como cinismo até para muitos daqueles que aceitam a nossa crença na evolução cíclica, que é a crença universal, tradicional, expressa de forma poética em todos os textos sagrados do mundo, incluindo a Bíblia. Não temos nada a responder a este último criticismo, já que é inteiramente baseado numa atitude emocional que não é a nossa. Mas podemos tentar apontar a vaidade da crença popular no “progresso”, seja apenas em ordem para salientar a racionalidade e a força da teoria dos ciclos que forma a estrutura do triplo estudo que é o tema deste livro.


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Os proponentes da crença no “progresso” expõem muitos argumentos para provar – para eles e para os outros – que os nossos tempos, com todos os inegáveis recuos, são no seu todo melhores que qualquer outra época do passado, e que inclusive mostram sinais inegáveis de melhoramento. Não é possível analisar todos os seus argumentos em detalhe. Mas pode-se facilmente detetar as falácias escondidas nos seus argumentos mais difundidos e, aparentemente, mais “convincentes”.

Todos os defensores do “progresso” põe um ênfase enorme em coisas tais como a literacia, a “liberdade” individual, a igualdade de oportunidades para todos os homens, a tolerância religiosa e a “humanidade”, no progresso nesta última linha que cobre todas as tendências que encontram a sua expressão na preocupação moderna pelo bem-estar infantil, reformas prisionais, melhores condições de trabalho, ajuda estatal aos doentes e destitutos e, maior bondade, pelo menos num tratamento menos cruel para com os animais. Os resultados espantosos obtidos, em anos recentes, na aplicação de descobertas científicas a objetivos industriais e a outras práticas materiais, são, é claro, os exemplos mais populares destinados a mostrar os quão maravilhosos são os nossos tempos. Mas esse ponto não o vamos discutir, já que não queremos de modo algum negar ou minimizar a importância do progresso técnico. O que de fato negamos é a existência de qualquer progresso no valor do homem como tal, quer seja individualmente ou coletivamente, e que as nossas reflexões sobre a alfabetização universal e outras “marcas” altamente elogiadas de melhoramento sobre as quais os nossos contemporâneos têm tanto orgulho, todas brotam desse ponto de vista.

Acreditamos que o valor do homem – como ultimamente o valor de todas as criaturas – não se baseia no mero intelecto mas no espírito: na capacidade de refletir no que, pela falta de uma palavra mais precisa, escolhemos por designar “o divino”, isto é, aquilo que é verdade e belo para além de toda a manifestação, aquilo que se mantém intemporal (e por isso imutável) dentro de todas as mudanças. Acreditamo-lo com a diferença que, aos nossos olhos – contrariamente ao que o Cristianismo mantém – a capacidade para refletir o divino está intimamente ligada com a saúde racial e física do homem; noutras palavras, que o espírito nunca pode ser algo de independente do corpo. E falhamos notar que os diferentes melhoramentos que hoje testemunhamos na educação ou no campo social, na governação ou até em matérias técnicas, não tornaram nem o homem nem a mulher individual mais valiosos nesse sentido, ou sequer criaram qualquer tipo de civilização duradoura no qual as possibilidades do homem de total perfeição, assim concebidas, estejam a ser promovidas. Os hindus parecem ser, hoje, o único povo que, por tradição, partilha das nossas visões; e eles têm, no decurso do tempo, falhado em manter a ordem divina – o comando das castas naturalmente dirigentes. E nós, os únicos no Oeste que a têm tentado restaurar nos tempos modernos, temos sido arruinados materialmente pelos agentes dessas forças da falsa igualdade que o mundo moderno chama de forças do “progresso”.

Progresso? – É verdade que, hoje, pelo menos nos países altamente organizados (tipicamente “modernos”), quase toda a gente pode ler e escrever. Mas de que tal vale? Estar capacitado a ler e a escrever é uma vantagem – e uma considerável. Mas não é uma virtude. É um instrumento e uma arma; um meio para um fim; uma coisa muito útil, sem dúvida; mas não um fim em si mesmo. O último valor da literacia depende do fim para a qual é usada. E para que fim é geralmente usada hoje? É usada por conveniência ou para entretenimento, por aqueles que leem; para publicidade, ou para qualquer propaganda objecionável – para fazer dinheiro ou para adquirir poder – por aqueles que escrevem; por vezes, claro está, por ambos, para adquirirem ou espalharem conhecimento desinteressado das poucas coisas que têm valor de serem sabidas; para encontrar expressão ou para dar expressão para os poucos muito profundos sentimentos que podem elevar o homem à consciencialização das coisas eternas, mas não mais frequente do que nos dias nos quais um homem entre dez mil podia compreender o simbolismo da palavra escrita. Geralmente, hoje, o homem ou a mulher cuja educação compulsória tornou “letrados” usa a escrita para comunicar assuntos pessoais a amigos ou familiares ausentes, para preencher formas – uma das ocupações internacionais da moderna civilização humana – ou para decorar coisas de pequeno uso, e de outro modo insípidas, como o seu endereço ou número de telefone, ou a data de qualquer marcação com o cabeleireiro ou com o dentista, ou a lista de roupa lavada para ser levantada da lavandaria. Ele ou ela lê para “passar o tempo” porque, fora das horas do lúgubre trabalho, o pensamento não é mais intenso ou interessante o suficiente para servir tal propósito.

Sabemos que existem também pessoas cujas vidas inteiras foram direcionadas para um belo destino por um livro, um poema – uma mera frase – lida na infância distante, como Schliemann, que prodigamente gastou em escavações arqueológicas a fortuna junta paciente e deliberadamente durante quarenta anos de lúgubre trabalho, tudo pela impressão causada nele, em criança, pela história imortal de Troia. Mas tais pessoas sempre viveram, mesmo antes da educação compulsória se ter tornado moda. E as histórias ouvidas e relembradas eram não menos inspiradoras que as histórias hoje lidas. A verdadeira vantagem da alfabetização geral, se alguma, deve ser procurada noutro lugar. Ela jaz não na melhor qualidade tanto do homem e da mulher excecional ou dos milhões alfabetizados, mas antes no fato de que os últimos se estão a tornar rapidamente mais preguiçosos intelectualmente e portanto mais crédulos do que nunca – e não menos; mais facilmente iludidos, mais permeáveis a serem guiados como ovelhas sem sequer a sombra de um protesto, desde que o despropósito que se deseja que eles engulam lhes seja apresentado em forma impressa e seja feito aparecer como “científico”. Quanto mais alto o grau de literacia, o mais fácil é, para um governo em controlo da imprensa diária, dos negócios editoriais ou radiofónicos – os mais irresistíveis modos modernos de ação sobre a mente – de manter as massas e a “intelligentzia” sob o seu controlo, sem estes sequer o suspeitarem.

Entre os povos amplamente iletrados mas mais ativamente pensantes, abertamente governados sob a velha maneira autocrática, um profeta, megafone direto dos Deuses ou de genuínas aspirações coletivas, podia sempre aspirar a elevar-se entre autoridade secular e o povo. Os próprios sacerdotes nunca estavam seguros de conseguir manter para sempre a obediência do povo. O povo podia escolher escutar o profeta, se tal lhes aprazesse. E assim o faziam, por vezes. Hoje, onde a alfabetização universal é prevalente, exponentes inspirados da verdade eterna – os profetas – ou até proponentes desinteressados de mudanças práticas oportunas, têm menos e menos hipóteses de aparecer. Pensamento sincero, pensamento realmente livre, pronto, sob o desígnio da autoridade sobre-humana ou do modesto senso comum, a questionar as bases do que é oficialmente ensinado e geralmente aceite, é cada vez menos verosímil de frutificar. É, repetimo-lo, muito mais fácil escravizar um povo alfabetizado do que um analfabeto, estranho que tal possa parecer à primeira vista. E a escravatura é mais passível de ser de longa duração. A verdadeira vantagem da alfabetização universal é o aumento do controlo do poder governatório sobre os milhões de tolos e presunçosos. Essa é provavelmente a razão por que é imposto nas nossas cabeças, desde a infância, que a “alfabetização” é uma tão grande dádiva. E tal foi e sempre será o privilégio de uma minoria, uma vez reconhecida e respeitada como uma elite natural. Hoje, a educação massificada compulsória e a literatura cada vez mais estandardizada para o consumo dos cérebros "condicionados" – sinais de “progresso” sem igual – tendem a reduzir essa minoria às menores proporções possíveis; em última análise, para a suprimir totalmente. É isso que a espécie humana quer? Se sim, a espécie humana está a perder a sua raison d´être, e o mais cedo possível o fim desta assim chamada “civilização”, o melhor.

O que dissemos sobre a alfabetização pode de grosso modo ser repetido sobre aquelas outras duas glórias da Democracia moderna: “liberdade individual” e a igualdade de oportunidades para todas as pessoas. A primeira é uma mentira – e uma cada vez mais sinistra já que as correntes da educação compulsória estão a ser cada vez mais inexoravelmente apertadas à volta de todo o ser dos povos. A segunda é um absurdo.

Uma das inconsistências mais divertidas do cidadão médio do moderno mundo industrializado é a maneira como ele critica todas as instituições das mais antigas e melhores civilizações, como o sistema de castas dos hindus ou o todo-absorvente culto da família do Extremo-Oriente, com base de estas tenderem a limitar a “liberdade do indivíduo”. Ele não nota o quão exigente – mais, o quão alienador – é o mandato da autoridade coletiva a que ele obedece (metade do tempo, sem o saber) comparado com aquele da autoridade coletiva tradicional, em sociedades aparentemente menos “livres”. Os povos da Índia e do Extremo Oriente que são dominados pelos sistemas de castas e familiares podem não ser permitidos tudo o que quiserem, em muitos aspetos relativamente frívolos e em poucos assuntos realmente importantes da vida diária. Mas eles são deixados a acreditar no que quiserem, melhor dito, no que podem; para sentir de acordo com a sua própria natureza e para se expressarem livremente sobre um grande número de matérias essenciais; eles são permitidos a conduzir a sua vida mais elevada da maneira que eles julgam a mais sábia para eles, depois das suas obrigações para a com a família, casta e rei terem sido cumpridas. O indivíduo que vive sob o comando de ferro e de aço do “progresso” moderno pode comer aquilo que quiser (em larga medida) e casar quem desejar – infelizmente! – e ir onde quiser (em teoria, pelo menos).Mas ele é feito acreditar, em todos os assuntos extra-individuais, – os assuntos que, para nós, contam realmente – as crenças, a atitude perante a vida, a escala dos valores e, em grande extensão, as visões políticas, que tendem a robustecer o todo-poderoso sistema de exploração socioeconómico a que ele pertence (ao qual ele é obrigado a pertencer, em ordem a ser apto a sobreviver) e do qual é uma mera roda-dentada. E, ainda, ele é feito acreditar que é um privilégio dele ser uma roda dentada em tal organismo; que os não importantes assuntos em que ele sente ser o seu próprio mestre são, de fato, os mais importantes – os únicos realmente importantes. Ele é ensinado a não valorizar aquela liberdade de discernimento sobre a verdade última, estética, ética ou metafísica, da qual ele é sutilmente desprivado. Mais ainda, a ele é dito, - pelo menos nos países democráticos – que ele é livre em todos os aspetos; que ele “é um indivíduo, que não presta contas a ninguém a não ser à sua consciência”… depois de anos de inteligente condicionamento que moldaram tão intensivamente a sua “consciência” e todo o seu ser de acordo com o padrão, que ele não é mais capaz de reagir de modo diferente. Bem pode tal homem falar da “pressão sobre o indivíduo” em qualquer sociedade, antiga ou moderna!

Pode-se perceber a extensão a que a mente dos homens foi dobrada, tanto deliberadamente como por condicionamento inconsciente, no mundo em que hoje vivemos, quando nos deparamos com povos que nunca estiveram sob a influência da civilização industrial, ou quando se é tão sortudo de ter desafiado, desde a infância, a pressão perniciosa da educação estandardizada e se ter mantido livre entre a multidão daqueles que reagem como foram ensinados, em todas as matérias fundamentais. O fosso entre o pensamento e o não-pensamento, entre os livres e os escravos, é assombroso.

Quanto à “igualdade de oportunidades”, tal coisa não pode existir de forma alguma, falando propriamente. Ao produzir homens e mulheres diferentes tanto em grau como em qualidade de inteligência, sensibilidade e força de vontade, diferentes em carater e temperamento, a própria Natureza dá-lhes as mais desiguais oportunidades para preencherem as suas aspirações, quaisquer sejam estas. Uma pessoa fraca e  demasiado emocional nunca pode, por exemplo, conceber o mesmo ideal de felicidade nem ter as mesmas possibilidades de as atingir em vida, como uma que nasce com uma mais balançada natureza e uma vontade mais forte. Tal é óbvio. E a acrescentar a isso as características que diferenciam uma raça de homens a outra, o absurdo da própria noção de “igualdade humana” torna-se ainda mais notável.

O que os nossos contemporâneos querem dizer quando falam de “igualdade de oportunidades” é o fato de, na sociedade moderna – assim o dizem – qualquer homem ou mulher ter, cada vez mais, tantas oportunidades que o seu ou a sua vizinha de manter a sua posição ou de fazer o trabalho para o qual ele ou ela é naturalmente capaz. Mas isso é também só parcialmente verdadeiro. Já que, mais e mais, o mundo de hoje, - o mundo dominado pela indústria de larga escala e pela produção de massa, - só pode oferecer trabalhos nos quais o que de melhor há no trabalhador joga uma pequena ou nula parte se ele ou ela é algo mais que uma pessoa esperta e materialmente eficiente. O artífice hereditário, que podia encontrar a melhor expressão para o que convenientemente é chamado a sua “alma” na sua tecelagem, fabrico de tapetes, laqueagem, etc., até o lavrador do solo, em contacto permanente com a Mãe Natureza e com o Sol e as estações, torna-se cada vez mais uma figura do passado. Existem cada vez menos oportunidades, também, para o buscador da verdade – orador ou escritor – que recusa ser o expositor de ideias comummente aceites, produtos do condicionamento de massas, os quais ele ou ela não representa; para o buscador de beleza que recusa dobrar a arte dele ou dela às demandas do gosto popular que ele ou ela sabem ser de mau gosto. Tais pessoas têm de perder muito do seu tempo fazendo de forma ineficiente – e de má vontade – qualquer trabalho para o qual não estão ajustados, em ordem a sobreviver, antes de poderem devotar o resto dele áquilo a que os hindus chamariam sadhana – o trabalho para o qual a sua natureza profunda os convocou: a dedicação da sua vida.

A ideia da moderna divisão do trabalho, condensada na frequentemente citada frase “o homem certo no lugar certo”, reduz-se, na prática, ao facto de que qualquer homem – qualquer um dos aborrecidos e anónimos milhões – pode ser “condicionado” a ocupar qualquer lugar, enquanto os melhores seres humanos, os únicos que ainda justificam a existência da cada vez mais degenerativa espécie, não são permitidos qualquer lugar. Progresso…


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Resta a “tolerância religiosa” dos nossos tempos e a sua “humanidade” comparada com a “barbárie” do passado. Duas piadas, para dizer o mínimo!

Relembrado alguns dos maiores horrores da história – a queima dos “heréticos” e das “bruxas” nas estacas; o total massacre dos “pagãos” e outras não menos repulsivas manifestações da civilização Cristã na Europa, na Améria conquistada, e Goa e noutros locais, - o homem moderno enche-se de orgulho no “progresso” alcançado, numa linha ao menos, desde o fim das épocas negras do fanatismo religioso. Por tão maus que sejam, os nossos contemporâneos têm, de todo o modo, ultrapassado o hábito de torturarem por questões tão “espúrias” como as da conceção da Divina Trindade ou as suas ideias de predestinação e purgatório. Tal é o sentimento do homem moderno – porque todas as questões teológicas perderam toda a importância na sua vida. Mas nos dias em que as Igrejas Cristãs perseguiam e encorajavam a conversão de nações pagãs por meios de sangue e fogo, tanto os perseguidores como os perseguidos, os Cristãos e aqueles que se queriam manter fiéis aos credos não-Cristãos, olhavam para tais questões como as mais vitais, fosse qual fosse o prisma de observação. E a verdadeira razão porque ninguém é colocado sob tortura, hoje, por razão das suas crenças religiosas, não é por a tortura se ter tornado de mau gosto para todos, na civilização “avançada” do século vinte, não é por indivíduos ou Estados se terem tornado “tolerantes”, mas apenas por, entre aqueles que tem o poder de infligir dor, quase ninguém tem um vívido e vital interesse em religião, muito menos em teologia.

A chamada “tolerância religiosa” praticada pelos Estados modernos e indivíduos brota de tudo menos de um amore e de um entendimento inteligente por todas as religiões como expressões multidinárias, simbólicas, dessas mesmas poucas verdades essenciais e eternas – como a tolerância hindu faz e sempre fez. É, antes, o produto de um rude desprezo ignorante por todas as religiões; de indiferença para essas mesmas verdades cujos vários fundadores procuraram reivindicar, uma e outra vez. Não é tolerância de todo.

Para julgar quanto os nossos contemporâneos têm ou não o direito de proclamar o seu “espírito de tolerância”, o melhor é observar o seu comportamento para com aqueles que são olhados como os inimigos dos seus deuses: os homens que acontece manterem pontos de vista contrários aos seus em relação não a meras questiúnculas teológicas, nas quais não estão interessados, mas qualquer Ideologia política ou sociopolítica que eles consideram ser uma “ameaça à civilização” ou ao “único credo através do qual a civilização pode ser salva”. Ninguém pode negar que em tais circunstâncias, e especialmente em tempos de guerra, todas eles praticam – na medida em que têm o poder – ou condenam – na medida em que não têm, eles próprios, a oportunidade de praticar – ações em todos os aspetos tão feias como aquelas ordenadas, praticadas ou toleradas no passado, em nome de diferentes religiões (se de facto as últimas foram tão vis). A única diferença é, talvez, que as modernas atrocidades perpetradas a sangue-frio só se tornam conhecidas quando os escondidos poderes em controlo dos meios de condicionamento do rebanho – da imprensa, da rádio e do cinema – decidem, com fins tudo menos humanitários, que elas deve ser, isto é, quando acontece serem as atrocidades do inimigo, não as suas – nem as dos “galantes aliados” – e quando a sua história é, portanto, considerada “boa propaganda”, à conta da indignação que é suposta criar e do novo incentivo que é expetável dar para o esforço de guerra. Mais, depois de uma guerra, lutada ou supostamente lutada por uma Ideologia – o moderno equivalente dos amargos antigos conflitos religiosos – os horrores que, bem ou mal, são supostos terem sido perpetrados pelos conquistados são os únicos que são transmitidos por todo o mundo, enquanto os vitoriosos tentam tão arduamente quanto podem fazer acreditar que o seu Alto Comando pelo menos nunca fechou os olhos a quaisquer horrores similares. Mas na Europa do século dezasseis, e antes, e entre os guerreiros do Islão, conduzir “jihad” contra homens de outras fés, cada lado estava bem consciente dos meios atrozes usados, não apenas pelos seus oponentes com vista a alcançar os seus “fins imundos”, mas pelas suas próprias populações e pelos seus próprios líderes com vista a “extirpar a heresia” ou para “lutar o papado”, ou para “pregar o nome de Alá aos infiéis”. O homem moderno é mais um covarde moral. Ele quer as vantagens da intolerância violenta – o que é apenas natural – mas repudia a responsabilidade da mesma. Progresso, isso também.

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A tão chamada “humanidade” dos nossos contemporâneos (comparada com a dos seus antepassados) é apenas falta de nervo ou falta de sentimentos fortes – cobardia crescente, ou apatia crescente.

O homem moderno é melindroso relativamente a atrocidades – até em relação à brutalidade ordinária e prosaica – apenas quando acontece que os objetivos para as quais as atrocidades ou as meras ações brutais praticadas são detestáveis ou indiferentes para ele. Em todas as outras circunstâncias, ele fecha os olhos a quaisquer horrores – especialmente quando sabe que as vítimas nunca poderão retaliar (como é o caso com todas as atrocidades cometidas pelo homem sobre os animais, por qualquer propósito que seja) e ele exige, ao menos, não ser relembrado deles demasiado frequentemente ou sonoramente. Ele reage como se classificasse as atrocidades sob 2 títulos: as “inevitáveis” e as evitáveis. As “inevitáveis” são aqueles que servem ou supostamente servem o propósito do homem moderno – geralmente: “o bom da humanidade” ou o “triunfo da Democracia”. Elas são toleradas, não, justificadas. As “evitáveis” são aquelas que são ocasionalmente cometidas, ou dizem ser cometidas, por pessoas cujo propósito é estranho ao dele. Elas apenas são condenadas, e os seus autores reais ou supostos – ou inspiradores – são considerados pela opinião pública como “criminosos contra a humanidade”.

Quais são, afinal, os alegados sinais dessa “humanidade” deslumbrante do homem moderno, de acordo com aqueles que acreditam no progresso? Hoje já não temos – dizem – as horríficas execuções de tempos passados; os traidores já não são
“pendurados, esticados e esquartejados”, como era o costume na gloriosa Inglaterra do século dezasseis; algo que se aproxime em desgraça à tortura e à execução de François Damien, na praça central de Paris, em frente a milhares de pessoas que de propósito vieram para assistir, no dia 28 de Maio, 1757, seriam impensáveis na França moderna. O homem moderno também já não defende a escravatura, nem justifica (em teoria, pelo menos) a exploração das massas sob qualquer outra forma. E as suas guerras – até as suas guerras!, monstruosas que possam parecer, com o seu elaborado aparato de custosa maquinaria diabólica – estão a começar a admitir, dentro do seu código, (assim se diz) alguma quantidade de humanidade e de justiça. O homem moderno horroriza-se ao mero pensamento dos hábitos de guerra dos povos antigos – ao sacrifício de doze jovens troianos à sombra do herói grego Pátroclo, para não falar dos menos antigos mas mais atrozes sacrifícios de prisioneiros de guerra ao deus da guerra azteca Huitzilopochtili. (Mas os aztecas, apesar de relativamente modernos, não eram Cristãos, nem, quanto sabemos, crentes no todo-envolvente progresso. Finalmente, diz-se, o homem moderno é mais gentil, menos cruel, para os animais que os seus antepassados foram.

Apenas um enorme preconceito a favor dos nossos tempos pode permitir que se seja levado por tais falácias.

Seguramente que o homem moderno não “defende” a escravatura; ele denuncia-a veementemente. Mas ele pratica-a no entanto – e numa escala maior que nunca, e muito mais intensamente que os Antigos o podiam – seja no Oeste capitalista ou nos Trópicos, ou (pelo que se ouve fora de muros impenetráveis) mesmo no Estado que é suposto ser, hoje, o “paraíso dos trabalhadores”. Há diferenças, é claro. Na Antiguidade, mesmo o escravo tinha horas de lazer e de divertimento que eram só dele; ele tinha os seus jogos de dados sob a sombra das colunas do pórtico do seu senhor, as suas piadas rudes, a sua tagarelice livre, a sua vida fora da sua rotina diária. O escravo moderno não tem o privilégio da indolência, completamente despreocupada, por meia hora que seja. O seu chamado ócio ou é preenchido com entretenimento quase compulsório, tão exigente e frequentemente sombrio como o seu trabalho, ou – em “terras de liberdade” – é envenenado por preocupações económicas. Mas ele não é abertamente comprado e vendido. Ele é apenas controlado. E controlado, não por um homem de algum modo pelo menos superior a si próprio, mas por um enorme sistema impessoal tanto sem um corpo para pontapear ou uma alma para condenar ou uma cabeça para responder pela sua travessura.

E similarmente, os antigos horrores desapareceram sem dúvida dos registos da assim chamada humanidade civilizada, relativamente tanto à justiça como à guerra. Mas novos e piores horrores, desconhecidos das épocas “bárbaras”, foram surgindo no seu lugar. Um único exemplo será sinistramente suficiente para bastar. O longo arrastado julgamento, não de criminosos, não de traidores, não de regicidas, não de feiticeiros, mas dos melhores personagens líderes da Europa, as suas condenações iníquas, depois de meses e meses de todo o tipo de humilhação e de sistemática tortura moral; o seu enforcamento final, da maneira mais lenta e cruel possível – toda essa farsa sinistra, organizada em Nuremberga em 1945-1946 (e 1947) por um bando de cobardes vitoriosos e hipócritas, é imensuravelmente mais detestável do que todos os sacrifícios humanos pós-guerra do passado juntos num, incluindo aqueles executados de acordo com o bem-conhecido ritual mexicano. Aí, pelo menos, por muito doloroso que fosse o tradicional processo de assassinato, as vítimas eram alegremente entregues à morte para o deleite do deus tribal dos vitoriosos e dos próprios vitoriosos, sem qualquer macabra falsa pretensão de “justiça”. Eles eram, ainda pior, tomados de todas as categorias de guerreiros capturados, não apenas malignamente selecionados da elite do seu povo. Nem a elite dos povos conquistados representava, na maior parte dos casos – como aconteceu no vergonhoso julgamento dos nossos tempos progressivos - a mesma elite do seu continente.

Quanto a tais atrocidades impensáveis que tiveram lugar em França e Espanha, e muitos outros países, desde a Idade Média, poder-se-iam encontrar um número considerável de episódios da recente guerra civil espanhola – para não mencionar a não menos expressiva lista de horrores executados, ainda mais recentemente, pelos “heróis” da résistance francesa, durante a Segunda Guerra Mundial – para igualá-los e, na maior parte dos casos, para superá-los.

E, bastante curioso – apesar de (dizem eles) “detestarem tais coisas” – um número considerável de homens e mulheres de hoje, enquanto lhes falta a coragem para cometar tais atos pessoalmente, parecem estar interessados como sempre em observá-los a serem levados a cabo ou, pelo menos, pensá-los e elogiá-los, e disfrutá-los indiretamente, se negado o prazer mórbido de os observar. Tais são as pessoas que, na Inglaterra moderna, se juntam às portas da prisão quando um homem está prestes a ser enforcado, esperando Deus sabe lá que tipo de excitação do mero facto de ler o anúncio de que “justiça foi feita” – pessoas que, apenas lhes sendo dado uma oportunidade, correriam para ver uma execução pública, não, uma queima pública de bruxas e de heréticos, sem dúvida tão rapidamente como os seus antepassados o teriam feito. Tais são também os milhões de populares, agora “civilizados” e aparentemente meigos, que se revelam à própria luz assim que uma guerra deflagra, isto é, logo se sentem encorajados a demonstrar o mais repulsivo tipo de imaginação em competições descritivas do tipo de tortura que todos eles infligiriam sobre os líderes dos inimigos, caso ele – ou mais vulgarmente ela – tivesse mão livre. Tais são, no fundo, todos aqueles que se regozijam no sofrimento do inimigo caído depois da guerra vitoriosa. E também são milhões: milhões de selvagens vicariantes, maldosos como ao mesmo tempo cruéis – inviris – cujos soldados das chamadas idades “bárbaras” teriam desprezado completamente.


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Mas mais cobarde e hipócrita, talvez, que alguma outra coisa, é o comportamento “progressivo” do homem moderno em relação à Natureza viva, e em particular ao reino animal. Disso eu já falei longamente noutro livro, e devo, portanto, aqui, contentar-me em sublinhar alguns factos.

O homem primitivo – e, amiúde, o homem cuja civilização pitoresca é tudo menos “moderna” – é mau o suficiente, é verdade, no que concerne ao tratamento dos animais. Basta viajar aos menos industrializados países do Sul da Europa, ou para o Próximo e Médio Oriente, para adquirir uma certeza muito definitiva quanto a este ponto. E nem todos os líderes modernos foram igualmente bem-sucedidos em pôr fim às antigas crueldades aos animais, seja no Oriente ou no Ocidente. Gandhi não conseguiu, em nome da tal caridade universal que ele pregava repetidamente como dogma da sua fé, evitar que leiteiros hindus esfomeassem bezerros machos até à morte, com o objetivo de vender uns poucos litros extra de leite de vaca. Mussolini não conseguiu detetar e perseguir todos esses italianos que, mesmo sob o seu governo, insistiam no detestável hábito de depenar galinhas vivas com base no ditado de que “ as penas assim saem mais facilmente”. Não há modo de fugir do facto de que a caridade para com os animais a uma escala nacional não depende ultimamente do ensinamento de qualquer sobreposto ensinamento ou filosofia. É uma das características distintivas das raças verdadeiramente superiores. E nenhuma alquimia religiosa, filosófica ou política pode tornar metal base em ouro.

Isto não significa que um bom ensinamento não pode ajudar a trazer o melhor de cada raça, bem como de todo o homem ou mulher individual. Mas a moderna civilização industrial, na medida em que é centrada no homem – não controlada por qualquer inspiração super-humana, de ordem cósmica – e tende a vincar a quantidade em vez da qualidade, produção e riqueza, em vez do caráter ou do valor inerente, é tudo menos congenial ao desenvolvimento de bondade consistente universal, mesmo entre os melhores povos. Esconde a crueldade. Nada faz para suprimi-la, ou ainda para diminuí-la. Desculpa, não, exalta qualquer atrocidade sobre os animais, que acontece estar direta ou indiretamente ligada com o enriquecimento, dos horrores diários dos matadouros ao martírio dos animais às mãos do treinador de circo, ao caçador (e, também, muito frequentemente, do negociante de peles, no caso de animais de pelo) e do vivisseccionista. Naturalmente, o “mais elevado” interesse dos seres humanos é proposto como uma justificação – sem as pessoas repararem que a humanidade que está pronta para comprar divertimento ou luxo, “comida deliciosa”, e até informação científica ou meios de curar os doentes a qualquer custo, como tal, não mais é digna de viver. O facto mantém-se que nunca houve mais degenerescência e mais doenças de todos os tipos entre os homens, do que no neste mundo de compulsória ou quase compulsória vacinação e inoculação; este mundo que exalta criminosos contra a Vida – torturadores de criaturas vivas inocentes para objetivos do homem, como Louis Pasteur – à categoria de “grandes” homens, enquanto condenam os realmente grandes que lutaram para vincar a hierarquia sagrada das raças humanas antes e acima da demasiado enfatizada e, de qualquer modo, óbvia, hierarquia dos seres, e os que, incidentalmente, construíram o único Estado no Ocidente cujas leis para a proteção das criaturas indefesas relembrava, pela primeira vez depois de séculos (e na medida possível num moderno país industrial de clima frio) os decretos do Imperador Asoka e de Harshavardhana.

Tal mundo bem pode vangloriar-se da sua brandura dócil para cães e gatos de eleição ou para os animais domésticos em geral, enquanto tenta esquecer (e fazer que melhores civilizações esqueçam) o facto odioso de que milhões de criaturas são vivissecadas anualmente, apenas no Reino Unido. Não nos pode fazer esquecer os escondidos horrores e convencer-nos do seu “progresso” na gentileza para com os animais, não mais do que a sua crescente gentileza para com as pessoas “independentemente do seu credo”. Recusamos ver em tal algo diferente do que a mais negra evidência viva daquilo que os hindus caracterizaram desde tempo imemorial como “Kali Yuga” – a “Idade Escura”; a Era das Trevas; a última (e, felizmente, a mais curta) subdivisão do presente Ciclo da história. Não há esperança de “endireitar as coisas” em tal época. É, essencialmente, a idade tão forçosa como laconicamente descrita no Livro dos livros – o Bhagavad-Gita - como aquela na qual “da corrupção das mulheres procede a confusão das castas; da confusão das castas, a perda da memória; da perda da memória, a falta de entendimento; e de tudo isto, todos os males”; a idade em que a falsidade é rotulada de “verdade” e a verdade é perseguida como falsidade e escarnecida como insanidade; na qual os expoentes da verdade, os líderes divinamente inspirados, os reais amigos da sua raça e de todos os vivos – os homens-deuses – são derrotados e os seus seguidores rebaixados e a sua memória caluniada, enquanto os mestres das mentiras são saudados como “salvadores”; a idade na qual todo o homem e mulher se encontram no local errado, e o mundo é dominado por seres inferiores, raças bastardas e doutrinas depravadas, todas partes e parcelas de uma ordem de inerente fealdade muito pior que a anarquia completa.

Esta é a idade na qual os nossos triunfantes Democratas e os nossos esperançosos Comunistas exalçam o “lento mas firme progresso através da ciência e da educação”. Muito obrigado por tal “progresso”! A sua mesma visão é suficiente para nos confirmar na nossa crença na teoria do ciclo imemorial da história, ilustrada nos mitos de todas as antigas religiões naturais (incluindo aquela da qual os Judeus – e, através deles, os seus discípulos, os Cristãos – emprestaram a história simbólica do Jardim do Éden; Perfeição no começo do Tempo). Impressiona-nos o facto de que a história humana, longe de ser uma ascensão estável até ao melhor, é de modo gradual um processo desesperado de bastardização, emasculação e desmoralização da humanidade; uma “queda” inexorável. Desperta em nós um desejo para ver o fim – o choque final que empurrará para o esquecimento tanto esses “ismos” sem valor que são o produto da decadência de pensamento e de caráter, e as não menos inúteis religiões da igualdade que lentamente prepararam o terrenos para elas; o vindouro Kalki, o Destruidor divino do mal; o alvorecer de um novo Ciclo abrindo, como todos os ciclos temporais sempre o fizeram, a “Idade de Ouro”.

Não interessa o quão sangrento o último choque poderá ser! Não interessa que velhos tesouros perecerão para sempre na conflagração redentora! O mais cedo ela venha, melhor! Esperamo-la – e para a consequente glória – confiantes na Lei cíclica divinamente estabelecida que governa todas as manifestações de existência no Tempo: a lei do Eterno Retorno. Estamos à sua espera, e pelo subsequente triunfo da Verdade hoje perseguida; pelo triunfo sob que nome seja, da única fé em harmonia com as leis perenes do ser; do único “ismo” moderno que é tudo menos “moderno”, sendo apenas a expressão de princípios tão antigos como o Sol; o triunfo de todos aqueles homens que, através dos séculos até hoje, nunca perderam a visão da Ordem eterna, decretada pelo Sol, e que lutaram num espírito desinteressado para forçar essa visão noutros. Esperamos a gloriosa restauração, desta vez, a uma escala global, da Nova Ordem, projeção no tempo, no próximo, como em todas as recorrentes “Idades de Ouro”, da eterna Ordem do Cosmos.
É a única coisa por que vale a pena viver – e morrer, se dado esse privilégio – hoje, em 1948.

Thursday, October 5, 2017

Tradução: A Teoria da Evolução


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Publicamos abaixo a tradução para português do ensaio de Titus Burckhardt denominada ‘A Teoria da Evolução’.
A par da falaciosa e perversa teoria heliocêntrica, o mito moderno da evolução das espécies é uma das ferramentas tenebrosas da modernidade para operar a subversão em curso e garantir o cumprimento dos seus objetivos, que podem ser resumidos à perda de todo o sentido espiritual da existência.
É de notar como este mito, pelos meios insidiosos com que invadiu o subconsciente humano, permeia não só o presente meio académico e dito “científico”, mas infelizmente também ganha cada vez mais terreno no campo religioso e “espiritual”, que, numa ânsia ignorante de se manter popular, adotou os piores dogmas que afetam o presente estado da humanidade.
E haverá método mais efetivo do que aquele que, depois de ter convencido o homem de que ele não se encontra mais no centro do universo, revela que ele  na verdade deriva de outros animais, nomeadamente de símios, e que estes derivam por sua vez de formas ainda mais básicas de matéria, cortando assim o último elo de ligação com o Divino?
De recordar que a investigação da matéria ocorre já desde tempos imemoriais e que a interpretação que se dá dos dados físicos depende sempre duma conceção metafísica que, quer se queira quer se não, existe sempre a priori.
Se só no século XVIII se concebeu olhar para dados físicos que estavam à disposição de seres humanos há milhões de anos e formular a teoria evolutiva, tal se deve ao facto de a mente humana ter regredido a tal ponto de não conceber mais a origem divina do Universo e arrogar-se a ignorar a mais básica metafísica, que foi sempre o substrato das grandes civilizações que foram habitando a Terra desde tempos imemoriais.
Cabe reintegrar a ciência dentro de uma cosmovisão própria e perceber que o seu função própria e importante num certo contexto, é de uma ordem infinitamente inferior à verdadeira metafísica e aos ensinamentos das grandes religiões e tradições da Humanidade.


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O mínimo fenómeno participa em várias continuidades ou em dimensões cósmicas que são incomensuráveis em relação a cada; portanto, o gelo é água no que se reporta à sua substância – e neste aspeto é indistinguível da água líquida ou do vapor aquático – mas no que concerne ao seu estado pertence à classe dos corpos sólidos. Similarmente, quando uma coisa é constituída por vários elementos, ela participa nas suas naturezas enquanto é diferente delas. O cinábrio, por exemplo, é a síntese do sulfúrico e do mercúrio; é num sentido a soma desses dois elementos, mas ao mesmo tempo possui qualidades que não são encontráveis em quaisquer dessas duas substâncias. As quantidades podem ser acrescentadas a um e a outro, mas a qualidade nunca é meramente a soma de outras qualidades. Ao misturar a cor azul com a amarela, o verde é obtido; esta terceira cor é portanto a síntese das outras duas, mas não é o produto da simples adição, por representar ao mesmo tempo uma qualidade cromática que é nova e única em si mesma.

Existe algo como uma “continuidade descontínua”, a qual é ainda mais notória na ordem biológica, onde a unidade qualitativa de um organismo é claramente distinguível da sua composição material. O pássaro que nasce do ovo é composto dos mesmos elementos do ovo, mas não é o ovo. Do mesmo modo, a borboleta que emerge da crisálida não é nem a crisálida nem a lagarta que a produziram. Um parentesco existe entre os vários organismos, uma continuidade genética, mas eles também demonstram uma descontinuidade qualitativa, já que entre a lagarta e a borboleta existe algo como uma rutura de nível.

Em todo o ponto da rede cósmica existe uma urdidura e um tecido que se intersectam um ao outro, e isto é indicado pelo simbolismo tradicional da tecelagem, de acordo com a qual as linhas da urdidura, que se mantém verticais sobre o tear, representam as essências permanentes das coisas – e portanto também as qualidades essenciais e as formas – enquanto o tecido, que prende horizontalmente as linhas da urdidura, e ao mesmo tempo cobre-as com as suas ondas alternantes, corresponde à continuidade substancial ou “material” do mundo.

A mesma lei é expressa pelo hilomorfismo clássico, o qual distingue entre “forma” de uma coisa – o selo da sua unidade essencial – da sua “matéria”, nomeadamente a substância plástica que recebe o selo e a supre com uma existência concreta e limitada. Nenhuma teoria moderna foi alguma vez capaz de substituir esta teoria antiga, pelo facto de que reduzir a plenitude total do real a uma ou outra das suas “dimensões” dificilmente equivale a uma explicação do mesmo. A ciência moderna é ignorante acima de tudo de tudo do que os Antigos designavam pelo termo de “forma”, precisamente porque é aqui uma questão de um aspeto não-quantitativo das coisas, e a sua ignorância não está desconectada com o facto de as ciências modernas não verem critério na beleza ou na fealdade de um fenómeno: a beleza de uma coisa é o sinal da sua unidade interna, da sua conformidade com uma essência indivisível, e portanto com uma realidade que não se deixará contar ou medir.

É necessário apontar aqui que a noção de “forma” necessariamente inclui um sentido duplo: por um lado significa a delimitação de uma coisa, e este é o seu significado mais comum; nesta conexão, a forma está situada do lado da matéria, ou, de um modo geral, do lado da substância plástica, a qual limita e separa realidades. Do outro lado, “forma” entendida no sentido dado pelos filósofos gregos e depois pelos escolásticos, é o agregado das qualidades relacionadas a um ser ou a uma coisa, e então é a expressão de um traço da sua essência imutável.

O mundo individual é o mundo “formal” porque é o domínio daquelas realidades que são constituídas pela conjunção de “forma” e ”matéria”, tanto subtil como corpórea. É apenas em conexão com uma “matéria”, uma substância plástica, que a “forma” representa a parte de um princípio de individuação; em si mesma, na sua base oncológica, não é uma realidade individual mas um arquétipo, e como tal para além de limitações e de mudança. Portanto uma espécie é um arquétipo, e se é só manifestada pelos indivíduos que lhe pertencem, é de qualquer dos modos tão real, e até incomparavelmente mais real, que eles. Quanto à objeção racionalista que tenta provar o absurdo da doutrina dos arquétipos ao argumentar que uma multiplicação de noções mentais implicaria uma correspondente multiplicação dos arquétipos – levando à ideia da ideia da ideia, e daí por diante – falha totalmente o alvo, já que a multiplicidade não pode de modo algum ser transposta ao nível das raízes arquetípicas. As últimas são distinguíveis de um modo originário, dentro do Ser e por virtude do Ser; nesta conexão, o Ser pode ser encarado como um cristal único e homogéneo, contendo potencialmente todas as formas cristalinas possíveis. Multiplicidade e quantidade só podem portanto existir ao nível das reflexões “materiais” dos arquétipos.

Do que foi dito, segue-se que uma espécie é em si uma “forma” imutável; não pode evoluir e ser transformada noutra espécie, apesar de poder incluir variantes, que são “projeções” diversas de uma forma essencial única, da qual não podem nunca ser separadas, não mais do que os ramos de uma árvore podem ser separados do tronco.

Já foi justamente dito que toda a tese da evolução das espécies, inaugurada por Darwin, é baseada na confusão entre espécies e simples variação. Os seus promotores propõem como o “rebento” ou o início de uma nova espécie o que na realidade não é mais do que uma variação dentro da estrutura de um determinado tipo específico. Esta assimilação falsa não é, no entanto, suficiente para preencher as inumeráveis lacunas que ocorrem na sucessão paleontológica das espécies; não só são as espécies aparentadas separadas por lacunas profundas, mas não existem ainda quaisquer formas que indiquem qualquer tipo de ligação entre diferentes ordens como os peixes, répteis, pássaros e mamíferos. Sem dúvida podem-se encontrar alguns peixes que usam as suas barbatanas para rastejar para uma margem, mas buscar-se-ia em vão nessas barbatanas pelo mais pequeno começo daquela articulação que possibilitaria a formação de um braço ou de uma garra. Do mesmo modo, se existem certas semelhanças entre répteis e pássaros, os seus respetivos esqueletos são no entanto de uma estrutura fundamentalmente diferente. Então, por exemplo, a muito complexa articulação da mandíbula de um pássaro, e a relacionada organização do seu aparato auditivo, reportam-se a um plano inteiramente diferente do encontrado nos répteis; é difícil conceber como um possa ter-se desenvolvido do outro. Quanto ao famoso fóssil pássaro Archaeopteryx, é justa e precisamente um pássaro, apesar das garras no final das asas, dos seus dentes e da sua longa cauda.

Em ordem para explicar a ausência de formas intermédias, os partidários do transformismo argumentam por vezes que estas formas devem ter desaparecido por causa da sua mesma imperfeição e precaridade; mas este argumento está em plena contradição com o princípio da seleção que é suposto ser o fator operativo na evolução das espécies: as formas da prova deviam ser incomparavelmente mais numerosas que os antepassados que já adquiriram uma forma definitiva. Ademais, se a evolução das espécies representa, como é declarado, um processo gradual e contínuo, todos os elos reais na correia – portanto todos aqueles destinados a serem seguidos – serão tanto pontos de chegada e intermediários, o que em qualquer dos casos é difícil ver porque uns serão muito mais precários que os outros.

Os mais conscienciosos entre os biologistas modernos ou rejeitam a teoria transformista, ou em vez mantêm que ela é uma “hipótese em trabalho”, sendo incapazes de conceber qualquer génese de espécies que não se encontre situada na “linha horizontal” de um devir puramente físico e temporal. Para Jean Rostand,

o mundo postulado pelo transformismo é um mundo de conto-de-fadas, fantasmagórico, surrealista. O ponto principal, ao qual sempre se retorna, é o de que nunca estivemos presentes, mesmo de modo pequeno, num autêntico fenómeno de evolução… mantemos a impressão de que a natureza hoje nada tem a oferecer que seja capaz de reduzir o nosso embaraço ante a verdadeira metamorfose orgânica implícita na tese transformista. Mantemos a impressão de que, no que se relaciona com a génese das espécies assim como com a génese da vida, as forças que construíram a natureza se encontram agora ausentes da natureza…

Mesmo assim, este biologista cola-se à teoria transformista:

Acredito firmemente – porque não vejo modos de o fazer de outra maneira – que os mamíferos vieram dos lagartos, e os lagartos dos peixes; mas quando declaro e quando penso em tal coisa, tento não evitar ver a enormidade indigestível e prefiro deixar vaga a origem destas escandalosas metamorfoses em vez de acrescentar às suas improbabilidades aquela de uma interpretação ridícula.

Tudo o que a paleontologia nos prova é que as várias formas animais, como são mostradas pelos fósseis preservados em sucessivas camadas terrenas, fizeram a sua aparência numa vaga ordem ascendente, indo de organismos relativamente indiferenciados – mas não simples – até formas cada vez mais complexas, sem que esta ascensão represente uma linha inequívoca e contínua. Parece mover-se por saltos; noutras palavras, categorias inteiras de animais aparecem de uma vez, sem predecessores reais. O que é que esta ordem significa? Simplesmente que, no plano material, o simples e indiferenciado precede sempre o complexo e diferenciado. Toda a “matéria” é como um espelho que reflete a atividade das essências, enquanto também a inverte; é por isso que a semente vem antes da árvore e que o botão antes da flor, enquanto que na ordem principal as “formas” pré-existem. O surgimento sucessivo de formas animais de acordo com uma ascensão hierárquica portanto em nada prova a sua génese contínua e cumulativa.

Pelo contrário, o que liga as várias formas animais umas às outras é algo como um modelo comum, o que se revela mais ou menos através das suas estruturas e que é mais aparente no caso de animais portadores de consciência superior como as aves e os mamíferos. Este modelo é patente especialmente na disposição simétrica do corpo, no número de extremidades e de órgãos sensórios, e também na forma geral dos principais órgãos internos. Poderá ser sugerido que o design e o número de certos órgãos, e especialmente dos sensoriais, correspondem simplesmente aos arredores territoriais; mas este argumento é reversível, porque esses arredores são precisamente o que os órgãos sensoriais compreendem e delimitam. De fato, o modelo subjacente a todas as formas animais estabelece a analogia entre o microcosmos e o macrocosmos. Contra o fundo deste padrão cósmico comum as diferenças entre espécies e as lacunas que os separam são ainda mais marcadas.

Em vez de “ligações perdidas”, que os partidários do transformismo buscam em vão, a natureza oferece-nos, como por ironia, uma larga variedade de formas animas as quais, sem transgredirem a estrutura pré-estabelecida de uma espécie, imitam a aparência e os hábitos de uma espécie ou ordem estranha a ela. Então, por exemplo, as baleias são mamíferos, mas elas assumem a aparência e o comportamento de peixes; o colibri tem a aparência, cores iridescentes, voo e modos de alimentação das borboletas; o armadilho está coberto de escamas como um réptil, apesar de ser um mamífero; e daí por diante. A maior parte destes animais com formas imitativas são espécies superiores que adotaram formas de espécies relativamente inferiores, um facto que a priori exclui uma interpretação deles como ligações intermediárias numa evolução. Quanto à sua interpretação como formas de adaptação a um dado conjunto de arredores, isto parece mais que duvidoso, já que o que poderiam ser, por exemplo, as formas intermédias entre um qualquer mamífero terrestre ou outro e o golfinho? Entre estas formas “imitativas”, que constituem tantos casos extremos, temos também que incluir o pássaro fóssil Archaeopteryx acima mencionado.

Já que cada ordem animal representa um arquétipo que inclui os arquétipos da correspondente espécie, um deve-se também perguntar se a existência de formas animais “imitativas” não contradiz a imutabilidade das formas essenciais; mas isto não corresponde ao caso, já que a existência destas formas demonstra, pelo contrário, essa mesma imutabilidade por um esgotamento lógico de todas as possibilidades inerentes num determinado tipo ou forma essencial. É como se a natureza, depois de ter trazido peixes, répteis, pássaros e mamíferos, com as suas características distintivas, desejou ainda mostrar que ela era capaz de produzir um animal como o golfinho que, enquanto sendo um verdadeiro mamífero, possui ao mesmo tempo quase todas as faculdades de um peixe, ou uma criatura como a tartaruga, a qual possui um esqueleto coberto por carne, mas que ao mesmo tempo está coberta numa carapaça exterior na esteira de certos moluscos. Então a natureza manifesta o seu poder multiforme, a sua inesgotável capacidade de geração, enquanto se mantém fiel às suas formas essenciais, as quais nunca são ofuscadas.

Cada forma essencial – ou cada arquétipo – inclui todos os outros à sua medida, mas sem confusão; é como se um espelho refletisse outros espelhos, que o refletem por sua vez. No seu significado mais profundo a mútua reflexão de tipos é uma expressão da homogeneidade metafísica da Existência, ou da unidade do Ser.

Alguns biologistas, quando confrontados com a descontinuidade na sucessão paleontológica das espécies, postulam uma evolução por saltos e, em ordem para tornar esta teoria plausível, referem as repentinas mutações observadas em algumas espécies vivas. Mas estas mutações nunca excedem os limites de uma anomalia ou decadência, como por exemplo a aparência súbita dos albinos, ou de anões ou gigantes; mesmo quando estas características são hereditárias, elas mantêm-se como anomalias e nunca constituem formas específicas novas. Para isto acontecer, seria necessário que a substância vital de uma espécie existente servisse de “material plástico” para uma nova forma específica manifestada; na prática, isto significa que uma ou várias fêmeas desta espécie existente carregassem a prole de uma espécie nova. Agora, como o hermetista Ricardo o Inglês escreve:

Nada pode ser produzido de uma coisa que não está contida nela; por esta razão, todas as espécies, todas as classes, e toda ordem natural desenvolve-se dentro dos limites próprios a ela e carrega os frutos de acordo com o seu tipo próprio e não de acordo com uma ordem essencialmente diferente; tudo que recebe uma semente deve ser da mesma semente.

Fundamentalmente, a tese evolucionista é uma tentativa de substituir, não simplesmente o “milagre da criação”, mas o processo cosmogónico – maioritariamente supra-sensorial – do qual a narrativa Bíblica é um símbolo Escritural; evolucionismo, por absurdamente fazer o maior derivar do menor, é o oposto deste processo, ou desta “emanação”. (Este termo nada tem a ver com a heresia emanacionista, já que a transcendência e a imutabilidade do princípio ontológico não são aqui de modo algum postas em questão.) Numa palavra, o evolucionismo resulta da incapacidade – peculiar à ciência moderna – de conceber “dimensões” de realidade que não puramente físicas; para entender a génese “vertical” das espécies, é de recordar o que René Guénon disse sobre o progressiva solidificação do estado corporal através das várias idades terrestres. Esta solidificação obviamente não deve ser interpretada por sugerir que as pedras das primeiras idades fossem moles, já que isto seria equivalente a dizer que certas qualidades físicas – e em particular a dureza e a densidade – escasseavam então; o que foi endurecido e se tornou fixado com o tempo é o estado corporal tomado como um todo, com o resultado de que ele já não recebe diretamente a impressão das formas subtis. Seguramente, não se pode tornar destacado do estado subtil, que é a sua raiz ontológica e que o domina inteiramente, mas a relação entre os dois estados de existência não mais tem o caráter criativo que possuía na origem; é como quando um fruto, tendo atingido maturidade, torna-se rodeado por uma película exterior cada vez mais dura e cessa de absorver a seiva do tronco. Numa fase cíclica na qual a existência corpórea não tinha ainda atingido este grau de solidificação, uma nova forma específica podia manifestar-se diretamente deste ponto de partida da sua primeira “condensação” no estado subtil ou anímico; isto significa que os diferentes tipos de animais pré-existiram ao nível imediatamente superior ao mundo corpóreo como formas não-espaciais, mas mesmo assim enrouparam-se numa determinada “matéria”, nomeadamente aquela do mundo subtil. Daí estas formas “desceram” ao estado corporal cada vez que este último estava pronto a recebê-las; esta “descida” teve a natureza de uma coagulação súbita e portanto também a natureza de uma limitação e fragmentação da forma anímica original. A cosmologia indo-tibetana descreve esta descida – que é também uma queda – no caso dos seres humanos sob a forma de um combate mitológico dos devas e dos asuras: os devas tendo criado o homem com um corpo que era fluido, multiforme, e diáfano – noutras palavras, numa forma subtil – os asuras tentaram destrui-lo por uma petrificação progressiva; torna-se opaco, fixo, e o esqueleto, afetado pela petrificação, é imobilizado. Então os devas, tornando o mal em bem, criam articulações, depois de terem fraturado as pernas, e também abrem acessos aos sentidos, ao perfurarem a caveira, que ameaça emprisionar o assento da mente. Desta maneira o processo de solidificação pára antes de atingir o limite extremo, e certos órgãos no homem, como o olho, ainda retém algo da natureza dos estados não-corporais.

Nesta história, a descrição pictórica do mundo subtil não deve ser mal-entendida. No entanto, é certo que o processo de materialização, do supra-sensório ao sensório, teve que ser refletida no estado material ou corporal próprio, para que se possa dizer sem erro, que as primeiras gerações de uma espécie nova não deixaram marca no grande livro das camadas terrestres; é portanto em vão procurar na matéria sensível os antepassados de uma espécie, e especialmente a do homem.

Já que a teoria transformista não é fundada em qualquer prova real, o seu corolário e conclusão, nomeadamente a teoria da origem infra-humana do homem, continua suspensa no vácuo. Os factos aduzidos a favor desta tese estão restringidos a pequenos grupos de esqueletos de cronologia díspar; acontece que alguns tipos de esqueletos considerados mais “evoluídos”, como o “homem de Steinheim”, precede outros, de caráter aparentemente mais primitivo, como o “homem de Neandertal”, apesar de o último não ser tão similar com o orangotango como nos querem fazer acreditar.

Se, em vez de sempre porem as questões: em que ponto começou a humanidade, e qual o grau de evolução de tal e tal tipo considerado como ser pré-humano, nos perguntássemos: de há quanto tempo atrás vem o macaco, as coisas talvez aparecessem sob uma luz muito diferente, já que um fragmento de um esqueleto, mesmo um relacionado com o do homem, dificilmente será suficiente para estabelecer a presença daquilo que constitui o homem, nomeadamente a razão, enquanto é possível conceber uma grande variedade de macacos antropoides cujas anatomias são mais ou menos parecidas com a do homem.

Quanto paradoxal isto possa parecer, a semelhança anatómica entre o homem e os símios antropoides é explicável precisamente pela diferença – não gradual, mas essencial – que separa o homem dos outros animais. Já que a forma antropoide é capaz de existir sem o elemento “central” que caracteriza o homem – este elemento “central” manifestando-se anatomicamente por esta posição vertical, entre outras coisas – a forma antropoide tem de existir; por outras palavras, não pode não ser encontrada ao nível puramente animal, a forma que realiza da sua própria maneira – isto é dizer, de acordo com as leis do seu nível próprio – o próprio plano da anatomia humana; o macaco é uma prefiguração do homem, não no sentido de uma fase evolutiva, mas em virtude da lei que decreta que a todos os níveis de existência podem ser encontradas possibilidades análogas.

Uma questão posterior surge no caso dos fósseis atribuídos ao homem primitivo: alguns destes fósseis pertencem aos homens que podemos olhar como sendo antepassados dos homens atuais, ou eles são testemunho de grupos que sobreviveram ao cataclismo no final de uma era terrestre, só para desaparecer por sua vez antes do início da nossa humanidade atual? Em vez de homens primitivos, pode bem ser o caso de homens degenerados, os quais existiram ou não juntamente com os nossos reais antepassados. Sabemos que o folclore da maior parte dos povos fala de gigantes e de duendes que viveram muito tempo atrás, em países remotos; hoje, entre os esqueletos, vários casos de gigantismo podem sem encontrados.

Finalmente, deixe que se relembre uma vez mais que os corpos dos homens mais antigos não deixaram necessariamente traços sólidos, ou porque os seus corpos não estavam naquele momento materializados ou “solidificados”, ou porque o estado espiritual destes homens, juntamente com as condições cósmicas desse tempo, tornaram possível a reabsorção do corpo físico no ”corpo” subtil no momento da morte.

Devemos agora dizer algumas palavras sobre a tese, hoje muito em voga, que reclama ser algo como uma reintegração espiritual da paleontologia, mas que na realidade não é mais que uma mera sublimação mental do mais cru materialismo, com todos os preconceitos que este contém, desde a crença no indefinido progresso da humanidade a um nivelamento e a um coletivismo totalitário, sem esquecer o culto da máquina que é o centro de tudo isso; tornar-se-á aparente que nos estamos a referir aqui ao evolucionismo teilhardiano. De acordo com Teilhard de Chardin, que não se deixa preocupar com as lacunas inerentes no sistema evolucionista e que confia no clima criado pela popularização prematura das teses transformistas, o próprio homem representa apenas um estado intermédio na evolução que se inicia com organismo unicelulares e que termina numa espécie de entidade cósmica global, unida a Deus. A mania de tentar trazer tudo a uma única linha genética inequívoca e ininterrupta aqui excede o plano material e lança-se freneticamente numa “mentalização” irresponsável e ávida caracterizada por uma roupagem abstrata em imagens artificiais cujo seu autor acaba por tomar literalmente, come se estivéssemos a lidar com realidades concretas. Já mencionámos a imaginária árvore genológica das espécies, cuja suposta unidade não é mais que uma cilada, sendo composta pela conjunção hipotética de muitos elementos desarticulados. Teilhard amplifica esta noção para seu próprio contentamento, de uma maneira que é puramente gráfica, ao complementar os seus ramos – ou “escalas”, como ele gosta de lhes chamar – e por construir um pináculo na direção que a humanidade é suposta estar situada. Por uma descida de pensamento similar do abstrato ao concreto, do metafórico ao supostamente real, ele aglutina, nos mesmos dislates pseudocientíficos, as mas diversas realidades, como as leis mecânicas, forças vitais, elementos psíquicos, e entidades espirituais. Vamos citar uma passagem característica:

O que explica a revolução biológica causada pelo surgimento do Homem, é uma explosão de consciência; e o que, por sua vez, explica esta explosão de consciência é simplesmente a passagem de um raio privilegiado de “corpusculização”, por outras palavras, de um filo zoológico, através da superfície, até aqui impermeável, separando a zona do Psiquismo direto daquela do Psiquismo refletivo. Tendo chegado, seguindo este raio particular, a um ponto crítico de disposição (ou, como dizemos aqui, de registo), a Vida torna-se híper-centrada em si, ao ponto de se tornar capaz de previdência e invenção...

Então, a “corpusculização” (que é um processo físico) teria como seu efeito que um “filo zoológico” (o que não é mais que uma figura) deveria passar através da superfície (puramente hipotética) separando as duas zonas psíquicas… Mas não devemos ser surpreendidos pela ausência de distinguos no pensamento de Teilhard, já que, de acordo com a sua própria teoria, a mente não é mais do que uma metamorfose da matéria!

Sem nos determos para discutir a estranha teologia deste autor, para quem Deus próprio evolui com a matéria, e sem nos atrevermos a definir o que ele pensa dos profetas e sábios da antiguidade e outros seres “subdesenvolvidos” deste tipo, diremos o seguinte: se o homem, no que respeita tanto à sua natureza física como à sua natureza espiritual, não fosse realmente nada mas apenas uma fase na evolução, indo da ameba ao super-homem, como poderia ele saber objetivamente onde se encontra hoje? Vamos supor que esta alegada evolução forma uma curva, ou uma espiral. O homem que não é mais do que um fragmento – e que não fique esquecido que um “fragmento” de um movimento não é mais do que uma fase desse movimento – pode esse homem retirar-se do mesmo e dizer para si próprio: eu sou o fragmento de uma espiral que se desenvolve desta e daquela maneira? Agora é certo – e ademais Teilhard de Chardin reconhece ele mesmo – que o homem é capaz de julgar o seu próprio estado. Na verdade, ele sabe a seu própria categoria entre as outras criaturas terrestres, e ele é até o único que se conhece objetivamente a si e o mundo. Longe de ser uma mera fase numa evolução indefinida, o homem representa essencialmente uma possibilidade central, e uma que é portanto única, insubstituível, e definitiva. Se a espécie humana tivesse de evoluir em direção a outra forma mais perfeita e mais “espiritual”, o homem não seria já o “ponto de interseção” do Espírito Divino com o plano terrestre; ele não seria nem capaz de salvação, nem capaz de superar intelectualmente o fluxo do devir. Para expressar estes pensamentos de acordo com a perspetiva dos Evangelhos: teria Deus tornando-se homem se a forma do homem não fosse já virtualmente a de “deus na terra”, por outras palavras, qualitativa e também definitivamente central no que concerne ao seu próprio nível cósmico?

Como um sintoma do nosso tempo, o teilhardismo é comparável a uma daquelas fissuras que se devem à mesma solidificação da carapaça mental, e que não abrem para cima, em direção aos céus de unidade real e transcendente, mas para baixo em direção ao campo do psiquismo mais baixo. Fatigado da sua própria visão descontínua do mundo, a mente materialista empresta-se a arrastar-se em direção a uma falsa continuidade ou unidade, em direção a uma intoxicação pseudo-espiritual, da qual esta fé falsificada e materializada – ou este materialismo sublimado – que acabamos de descrever marca uma fase de particular significância.


Tradução: O Centro Supremo Oculto Durante o Kali-Yuga

Em baixo tradução do capítulo “O Centro Supremo Oculto Durante o Kali-Yuga”, do Livro “O Rei do Mundo”, de René Guénon. O...